A Selic começou a cair: como ficam os investimentos em prefixados?
O Comitê de Política Monetária (Copom) cortou a Selic pela primeira vez em quase dois anos na reunião desta quarta-feira, 18.Até o final do ano, segundo o último Boletim Focus, a Selic deve cair para 12,25%.
Caso esse cenário se confirme, esse ciclo de queda em 2026 será de 2,75 ponto percentual. E a grande pergunta que entra no jogo é: travar as taxas antecipadamente nos prefixados ou IPCA+ pode ser uma boa aposta? Para os especialistas consultados pela EXAME, a resposta é “depende”.
Hoje, no mercado, é possível encontrar prefixados de longo prazo a 14%, por exemplo. Isso ficaria bem acima dos 12,25% previstos ao final do ano. “Mas essa taxa alta não vem de graça. Ela está assim porque estamos num momento bem instável, onde o preço do petróleo pode subir mais”, explica Marilia Fontes, sócia-fundadora da Nord Investimentos.
Com isso, o investidor pode travar uma taxa de 14%, mas corre o risco que a inflação seja 11%, 12%, o que “comeria” quase toda sua rentabilidade prefixada. De todo modo, os especialistas reconhecem que há boas oportunidades nesses ativos. “Mas sempre lembrando da diversificação e construção do portfólio ideal para o perfil do cliente”, diz Gustavo Harada, head de alocação da Blackbird Investimentos.
Vencimento
Um ponto central é carregar o título até o vencimento, principalmente nesse momento de incerteza, causado pelo conflito entre EUA e Irã, com efeitos ainda incertos sobre a inflação e a taxa de juros.
“Um eventual ganho via marcação a mercado deve ser encarado como uma antecipação de retorno, ou seja, um evento positivo para a carteira, mas não a premissa central da decisão”, comenta Sérgio Samuel dos Santos, economista e especialista em fundos e previdência do Sistema Ailos.
Para ele, o cenário atual sugere espaço para valorização dos títulos no curto, especialmente entre o segundo semestre de 2026 e o primeiro semestre de 2027.
E o IPCA+?
A mesma lógica de carregar até o vencimento e da marcação ao mercado se aplica ao Tesouro IPCA+, já que esse título permite contratar uma taxa de retorno real por longos períodos, protegendo o investidor contra a inflação, explica Santos. No mercado, é possível encontrar Tesouro IPCA + 7%, algo acima da média histórica.
Para Fontes, o ativo híbrido até pode proteger um pouco mais caso a inflação suba, ao contrário dos prefixados clássicos, que teriam sua rentabilidade reduzida. Entretanto, há o risco das taxas continuarem se elevando pela instabilidade, o que pode gerar prejuízo se precisar sacar antecipadamente.
Hulisses Dias, mestre em finanças pela Universidade de Sorbonne e especialista em investimentos, explica que as taxas do IPCA+ dependem principalmente de três fatores: expectativas para a taxa de juros, ancoragem inflacionária e risco fiscal.
“Em um cenário base, com perspectiva de queda gradual da Selic, é natural observar uma compressão das taxas reais, especialmente nos vértices mais longos da curva. Isso ocorre porque os títulos longos antecipam o ciclo monetário, incorporando expectativas de juros mais baixos no futuro”, diz.
No entanto, esse movimento não é linear e, segundo o especialista, o principal vetor de risco segue sendo o fiscal. Qualquer deterioração na percepção de sustentabilidade das contas públicas tende a elevar o prêmio de risco exigido pelos investidores, o que se traduz em abertura dos spreads, mesmo em um ambiente de queda de juros.
Além disso, as expectativas de inflação desempenham papel relevante. Se permanecerem bem ancoradas, favorecem a queda das taxas reais. Caso contrário, podem limitar ou até reverter esse movimento.
Assim, a inclusão de títulos prefixados e IPCA+ deve ser encarada como uma forma de diversificação de fontes de retorno. Esses ativos adicionam exposição a juros reais (rentabilidade já descontada a inflação) e à possibilidade de ganho via marcação a mercado em ciclos de queda de taxas.
“Mas o investidor precisa estar preparado para o fato de que o cenário pode piorar antes de melhorar. Um exemplo recente é 2024, quando taxas de IPCA+ ao redor de 6% já eram vistas como uma oportunidade relevante e, ainda assim, vimos níveis próximos a IPCA+ 8% recentemente. Isso reforça que o retorno desses ativos não ocorre de forma linear e que o timing de entrada é menos importante do que a consistência da alocação”, diz Dias.
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