A startup que fotografou 8 milhões de fases dentro de obras e quer chegar a R$ 100 milhões

Por Daniel Giussani 20 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A startup que fotografou 8 milhões de fases dentro de obras e quer chegar a R$ 100 milhões

A construção civil é um dos setores que mais resistiu à digitalização. Obras atrasam, custos estouram e boa parte do que acontece no canteiro ainda depende do relato de quem estava lá.

A startup Construct IN, empresa de tecnologia voltada para a construção civil, nascida no Rio Grande do Sul em 2019, foi fundada para resolver exatamente isso.

A empresa desenvolveu uma plataforma que usa câmeras, drones e laser que gera modelos tridimensionais de ambientes, para documentar obras em tempo real e transformar o que acontece no canteiro em dados verificáveis.

Hoje, são 2.500 obras ativas na plataforma, quase 250 clientes e um banco de dados que já passou de 8 milhões de imagens.

A empresa chega a 2026 com uma meta ambiciosa: faturar mais de 20 milhões de reais neste ano e chegar a R$ 100 milhões até 2030.

O plano passa por crescimento comercial, robustez de plataforma e uma aposta crescente em inteligência artificial. Mais especificamente, em visão computacional, tecnologia que permite a máquinas interpretar e extrair informações de imagens.

"A obra sempre foi um ambiente onde muita coisa acontece fora do radar. Quando você cria um histórico visual confiável, a discussão deixa de ser subjetiva e passa a ser baseada em evidência", diz Tales Silva, CEO da Construct IN.

O próximo passo é usar esse banco de imagens para automatizar o acompanhamento de obras.

A ideia é que a plataforma consiga identificar, sozinha, o andamento de cada etapa — se o piso foi assentado, se a instalação elétrica foi concluída, se a pintura está dentro do esperado — sem depender do relato do engenheiro no canteiro.

Da Califórnia ao canteiro

Tales Silva é engenheiro civil formado pela PUC do Rio Grande do Sul. Antes de fundar a Construct IN, trabalhou com projetos e pré-fabricados de concreto em Nova Santa Rita, no interior gaúcho.

Em 2018, decidiu largar a carreira técnica e foi morar em São Francisco, na Califórnia, para entender de perto o mercado de tecnologia para construção civil que começava a se desenvolver nos Estados Unidos.

Foi lá que teve contato com o conceito de reality capture, captura da realidade em português, que consiste em registrar o estado físico de uma obra por meio de imagens e transformar esse registro em informação estruturada. A tecnologia já atraía investimentos expressivos no mercado americano, mas era praticamente desconhecida no Brasil.

"Quando cheguei no Brasil, entendi muito mais sobre tecnologia voltada para construção e sobre como se desenvolve produtos e negócios. Decidi começar algo voltado para captura da realidade na construção civil", diz Silva.

Em 2019, fundou a Construct IN com um produto simples: um sistema que conectava automaticamente uma câmera 360° e permitia que qualquer pessoa caminhasse pela obra registrando o que via, de forma automatizada.

O modelo de negócio

A Construct IN opera com um modelo híbrido.

Cerca de 75% a 80% da receita vem do software, vendido no formato SaaS, sigla em inglês para software como serviço, em que o cliente paga uma mensalidade pelo acesso à plataforma. Os outros 20% a 25% vêm de locação de equipamentos e serviços — como captura de imagens, elaboração de relatórios e acompanhamento físico-financeiro das obras.

A empresa tem hoje mais de 400 câmeras locadas e um time de cerca de 80 pessoas. Entre os clientes estão Smart Fit, Burger King, HTB e Grupo Lúcio. O modelo de serviços, segundo Silva, é o que garante a padronização da captura e a qualidade dos dados gerados, o que, no fim, é o ativo central do negócio.

No final de 2023, a empresa adquiriu uma companhia especializada em escaneamento e nuvem de pontos, tecnologia que gera modelos tridimensionais a partir de varreduras a laser. A aquisição ampliou o portfólio e reforçou a estratégia de se tornar uma plataforma completa de gestão visual de obras.

A aposta na visão computacional

O ponto mais ambicioso do plano da Construct IN está na inteligência artificial — e não nas LLMs, modelos de linguagem como o ChatGPT, que dominam o debate sobre IA hoje. A empresa investe em visão computacional para treinar modelos capazes de reconhecer elementos dentro das imagens de obra: piso, reboco, tomadas, instalações elétricas, ar-condicionado, pintura.

São seis pessoas dedicadas exclusivamente a treinar esse banco de imagens. A empresa contratou ainda um pesquisador baseado na Alemanha para trabalhar especificamente nessa área. O objetivo é que, no futuro, a plataforma consiga medir o andamento de uma obra automaticamente, só a partir das imagens capturadas.

É um caminho longo. O próprio Silva reconhece que há "bastante treino pela frente". Mas é nessa direção que a empresa aposta para justificar a meta de 100 milhões até 2030.

"A construção está passando por um processo lento, mas irreversível, de digitalização. Quem conseguir transformar o que acontece no canteiro em informação estruturada vai ocupar um papel central nesse mercado", afirma Silva.

O crescimento até aqui foi feito sem dívidas.

A última rodada de investimento relevante foi em 2021. Desde então, a empresa opera com capital próprio e reinveste as margens em marketing, vendas e desenvolvimento de produto. Para chegar aos 100 milhões, esse modelo vai ser testado — e a visão computacional é a principal aposta para escalar sem depender de mais capital externo.

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