A startup que quer acabar com a caça ao boleto de luz, água e telefone

Por Leo Branco 17 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A startup que quer acabar com a caça ao boleto de luz, água e telefone

Pagar conta ainda exige caça ao boleto, cópia de código de barras, busca no e-mail, papel na gaveta ou alerta no calendário. É um hábito antigo dentro de um sistema de pagamentos que mudou muito nos últimos anos.

A Conta Comigo Digital, empresa do Rio de Janeiro que tem entre os fundadores o empreendedor Vinicius Santos, criou uma infraestrutura para fazer boletos de água, luz, gás, telefone e impostos aparecerem dentro dos aplicativos de bancos e fintechs.

O serviço já roda no PicPay, e a empresa está em conversas com algumas das principais instituições financeiras do país para colocar essa praticidade na mão dos clientes delas.

A empresa entra em produção com receita recorrente após anos de desenvolvimento, uma mudança de rota e mais de R$ 5 milhões captados desde a fundação. Hoje, a plataforma processa mais de 71 milhões de boletos por mês, que somam mais de R$ 8,1 bilhões em valor de face.

“A gente quer tirar tudo e qualquer tipo de fricção nessa função de pagamento de boleto”, afirma Santos.

A meta agora é colocar mais bancos e concessionárias na plataforma. Do lado das concessionárias, Copasa, Cemig, Aegea, TIM Brasil e Claro já estão conectadas ao hub. Light e prefeituras estão em processo de integração, segundo a empresa.

O que a Conta Comigo faz

A Conta Comigo funciona como uma ponte entre concessionárias e bancos.

Hoje, uma distribuidora de água ou energia que queira entregar boletos dentro de um aplicativo bancário precisa fazer acordos e integrações com cada banco. Isso cria custo, prazo e manutenção para os dois lados.

A proposta da Conta Comigo é substituir esse modelo por uma única conexão. A concessionária se conecta à plataforma. O banco também. A partir daí, o boleto pode ser entregue no app da instituição financeira parceira.

Na prática, o cliente abre o app do banco e vê uma conta a vencer, sem procurar o documento.

“O banco te avisa: olha, agora você tem um boleto aqui da Enel, por exemplo, que vence daqui a sete dias. Se você tiver saldo em conta, aquela jornada vai ser de liquidação do boleto com o número mínimo de fricções”, afirma Santos.

A empresa cobra dos bancos por chamada de API, uma conexão digital entre sistemas, e das concessionárias por documento entregue. O preço varia conforme o volume.

O “DDA das utilities”

O sistema foi inspirado no DDA, o Débito Direto Autorizado, usado para boletos registrados, como escola, seguro e fornecedores.

A diferença é que o DDA não cobre boa parte das contas de consumo, como água, luz, gás e telefone. Também ficam fora muitos boletos ligados ao setor público.

Foi nesse espaço que a Conta Comigo decidiu atuar.

“No DDA só tem os boletos registrados. Mas os boletos de consumo, água, luz, gás, telefonia e os impostos dos entes federativos não estão contemplados dentro desse sistema”, afirma Santos.

A empresa chama a solução de “DDA das utilities”, expressão usada para concessionárias de serviços públicos.

Segundo a Conta Comigo, o Brasil registra entre 11 bilhões e 12 bilhões de boletos pagos por ano. Cerca de metade desse volume está em boletos de arrecadação, ligados a concessionárias e setor público.

A virada do aplicativo para a infraestrutura

A ideia começou em 2017. Na época, Santos queria criar um aplicativo para o consumidor organizar boletos em um só lugar.

A origem veio de uma cena comum.

“Um grande amigo meu me ligou e falou: cara, eu estou vendo minha mãe perder muito tempo pagando boleto”, afirma Santos.

O primeiro modelo mirava o consumidor final. A pessoa baixava o app, fazia cadastro e passava a receber boletos emitidos contra seu CPF ou CNPJ.

O produto chegou a 60 mil usuários ativos em 2019, segundo a empresa, sem investimento em mídia paga. Mas a conta do negócio não fechou.

“Você tem que gastar muito dinheiro para botar aquela pessoa para dentro. Muitas vezes ela não fica. E essa conta acaba não fechando”, afirma Santos.

A saída foi mudar a posição da empresa na cadeia. Em vez de tentar convencer milhões de pessoas a baixar um novo aplicativo, a Conta Comigo passou a vender a infraestrutura para bancos, fintechs e concessionárias.

Por que demorou

A mudança levou a empresa para um mercado com ciclos longos. Concessionárias de água, energia e gás operam contratos de 20, 25 ou 30 anos. Muitas têm sistemas próprios e processos antigos.

Santos afirma que a venda exigiu mais explicação do que negociação.

“Foi um trabalho pedagógico muitas vezes antes de um trabalho comercial”, afirma.

A Conta Comigo tem 11 funcionários e quatro sócios. Santos lidera a empresa. Julio Freitas é CTO. Marco Gallo, ex-American Express Brasil, cuida da área institucional. Matheus Vasconcelos, engenheiro com passagem pelo setor de concessões, lidera a área comercial.

Desde a fundação, a empresa captou mais de R$ 5 milhões em rodadas, com investidores do setor bancário, de infraestrutura e da Urca Angels. Uma nova rodada está em curso.

“A gente sempre manteve os custos baixos porque precisava aumentar o oxigênio para lidar com esse tempo largo das utilities”, afirma Santos.

O que muda para bancos e concessionárias

Para os bancos, a conta de luz ou água dentro do app aumenta o uso do aplicativo. Também abre espaço para oferecer cartão, crédito ou outras formas de pagamento.

Para as concessionárias, a entrega digital reduz a dependência de boleto impresso, postagem e canais de cobrança mais caros.

Para o consumidor, a mudança é mais simples: a conta aparece no app do banco, com aviso de vencimento e opções de pagamento.

A plataforma tem capacidade para processar até 4 milhões de boletos por hora. O tempo de resposta da API para bancos fica abaixo de 800 milissegundos, segundo a empresa.

A Conta Comigo também afirma que a entrega do boleto direto da fonte reduz espaço para golpe de boleto falso, já que o documento chega ao banco por um canal fechado e autenticado.

Do Rio para os bancos

A empresa nasceu no Rio de Janeiro e mantém sede no Porto Maravalley, área de inovação no Porto Maravilha. Também tem presença em São Paulo.

“A gente tem um compromisso com a cidade. A gente brinca aqui, os fundadores, que a gente não abandona o Rio de Janeiro de nenhum modo”, afirma Santos.

O foco para 2026 é colocar em produção os bancos já contratados e ampliar a base de concessionárias.

“A gente está mais interessado em botar todos os bancos em produção, todas as utilities que a gente tem em produção e aumentar esse escopo”, afirma Santos.

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