A última página de Marjane Satrapi, a maior voz feminina nos quadrinhos

Por Luiza Vilela 4 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A última página de Marjane Satrapi, a maior voz feminina nos quadrinhos

O ano é 1969. Na cidade de Rasht, norte do Irã, nasce Marjane Ebihamis, vinda de uma família feliz e funcional. Anos mais tarde, o regime iraniano toma conta do país com uma política teocrática e autoritária. Teerã vira uma cidade de mártires. Parte dos direitos das mulheres é extinta. É quando nasce o nome artístico da primeira mulher iraniana a escrever e publicar uma história em quadrinhos: Marjane Satrapi.

Escritora, ilustradora, roteirista e cineasta, Satrapi teve a ousadia de lançar ao mundo Persépolis, uma história que, anos mais tarde, se tornaria uma das maiores obras já feitas na 9ª arte. Em 352 páginas, ela misturou a própria história de amadurecimento, da infância à fase adulta, à geopolítica do Irã. Suas crenças, revoltas, realizações, tantas primeiras vezes dentro e fora do país natal vão, aos poucos, se mesclando à retomada de um governo cruel.

Ativista pelo direito das mulheres no Oriente Médio, Marjane ficou reconhecida universalmente como um ícone feminista. Viveu de perto as mudanças no Irã antes dos anos 2000 e assistiu à perda dos direitos humanos — especialmente os femininos. Relatou todos eles nas páginas de Persépolis, em desenhos tão duros como a realidade que o país viveu (e ainda vive).

Ela morreu nesta quinta-feira, 4, aos 56 anos. Segundo os familiares, teria partido "de tristeza", pouco mais de um ano após a morte de seu companheiro, o produtor e ator Mattias Ripa.

"Você encontrará muitos idiotas na vida. Se eles te machucarem, diga a si mesma que é porque eles são estúpidos. Isso ajudará a evitar que você reaja à crueldade deles. Porque não há nada pior do que amargura e vingança. Mantenha sempre sua dignidade e seja fiel a si mesma", disse a artista durante o Festival de Cannes, quando venceu o Prêmio do Júri pela adaptação cinematográfica de seu quadrinho.

Conheça Persépolis, o quadrinho de Marjane Satrapi

Bisneta de um imperador de seu país de origem, Satrapi vivenciou a queda da monarquia autocrática do Xá Mohammad Reza Pahlevi e as trágicas consequências da instauração do regime teocrático do aiatolá Ruhollah Khomeini na Revolução Iraniana de 1979. Tinha apenas dez anos quando seu mundo virou do avesso, uma transição brutal da infância para a juventude que mais tarde se tornaria o combustível de sua obra-prima.

Persépolis foi publicada originalmente em 1994 na França, país para onde Satrapi se mudou aos 24 anos para fugir do regime iraniano e onde residia até a morte. Foram mais de 1 milhão de cópias vendidas em todo o mundo. A obra foi traduzida para dezenas de idiomas e é considerada uma das mais importantes da literatura gráfica contemporânea.

Editado pela Companhia das Letras no Brasil, o quadrinho usa traços pesados e escuros numa narrativa em preto e branco para relatar a trágica passagem de um país posicionado sobre os cadáveres de milhares de pessoas. Marjane conta de forma didática a transição política que marcou a vida dos iranianos, os absurdos que vivenciou em Teerã, o acesso à cultura ocidental e até mesmo a xenofobia a que foi submetida na França.

Em 2007, já consolidado como um clássico da literatura em quadrinhos, Persépolis ganhou uma adaptação para o cinema. Em formato animado, o filme venceu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e abriu os microfones para que Satrapi revelasse mais bastidores da obra, e sua relaçao com o país onde nasceu.

“Eu não vou mais ao Irã porque o Estado de direito não existe lá. Qualquer coisa pode acontecer com você. Mas ainda tenho laços muito profundos com o país, em termos de geografia, estilo de expressão, humor. É uma grande parte de mim que fui forçada a sufocar, porque você não pode passar a vida contando o seu passado para os outros", disse a artista durante a coletiva de imprensa do festival, em 2007.

No ano seguinte, Persépolis garantiu uma indicação ao Oscar de Melhor Animação. Acabou perdendo a estatueta, no entanto, para Ratatouille.

O pedaço da Pérsia no mundo: quem foi Marjane Satrapi?

A riqueza do pensamento de Satrapi não nasceu por acaso. Criada por pais intelectuais e politizados de esquerda, ela teve uma formação baseada na fusão entre a rica tradição da cultura persa, valores ocidentais e o pensamento marxista.

Desde cedo, foi obrigada a usar o véu no liceu francês de Teerã e encontrou maneiras de subverter a ordem. Dentro de casa, recebia lições de independência de sua mãe, construtora de boa parte da personalidade da artista.

"Quando eu era criança, minha mãe costumava me dizer o tempo todo: 'Você nunca pode contar com sua aparência; conte com sua inteligência. Não ligo se você casar ou não. Quero que estude e se torne economicamente independente'", relembrou a autora em uma de suas entrevistas. O pragmatismo feminista somava-se ao afeto de sua avó, figura central em sua vida e responsável por suas lembranças mais ternas de uma Teerã que, aos poucos, desapareceu.

A experiência da ditadura, no entanto, moldou a ferro a definição de Marjane para a liberdade. A autonomia da mente, para ela, era algo inviolável.

"Eu vivi em uma ditadura. Tudo era banido! Eu era menos livre na minha cabeça? Não. Me tornei uma pessoa estúpida? Não. Porque não importa o quanto eles olhassem para mim, eles não podiam entrar na minha cabeça. Isso pertence a mim. E está sob o meu controle. A mente é como um músculo: se você não usa, encolhe; se usa, cresce. Só depende de nós".

Satrapi deixou o Irã pela primeira vez aos 14 anos. Temendo o avanço da repressão da República Islâmica, os pais dela tomaram a difícil decisão de enviá-la à Áustria, sozinha, em uma espécie de exílio. Frente a frente com o choque cultural, a solidão e o preconceito contra o povo do Oriente Médio, ela descreveu no livro como esse foi um período de profundas crises de identidade.

Na época, passou dois meses dormindo nas ruas de Viena, em pleno inverno. Em seus relatos, ela frequentemente expunha a ignorância ocidental em relação ao país natal. "Uma vez, uma mulher nos EUA me ligou e disse: 'Ah, eu vi sua foto; você nem parece tão mal'. Eu perguntei o que ela queria dizer e ela respondeu: 'Bom, você sabe...'. Então perguntei: 'Você acha que todos parecemos com macacos?' e ela disse 'Sim, sinceramente'".

Quando decidiu retornar ao Irã, após quatro anos na Europa, encontrou uma Teerã irreconhecível, mutilada pela guerra contra o Iraque e pela vigilância obsessiva dos "guardiões da ordem islâmica". Ruas mudaram de nome, muros foram cobertos por rostos de mártires e o simples ato de andar com um rapaz que não fosse seu pai ou irmão era motivo para prisão e castigos físicos.

Ainda assim, ao ingressar no curso de Artes Cênicas, Marjane desafiou as imposições do governo na universidade e liderou mudanças nos uniformes das mulheres. Lutou ativamente contra o machismo institucionalizado e foi cirúrgica ao analisar que a opressão contra as mulheres não nascia apenas da religião, mas de uma estrutura econômica e cultural.

"De acordo com a lei, nós tínhamos muito mais liberdade [antes] porque as mulheres podiam, por exemplo, pedir divórcio. Mas, quando uma mulher não tem educação e não é economicamente independente, todos esses direitos ao divórcio não fazem diferença. Se você tem três filhos, sem educação e sem emprego, o que você faz? Você não se divorcia; você precisa ficar com o mesmo idiota a sua vida toda", desabafou à Vogue, em 2006.

Para ela, o verdadeiro vilão global era o patriarcado: "O inimigo da democracia não é uma pessoa. É a cultura patriarcal. Como na família, onde o pai decide e tem a última palavra, o líder masculino se torna o pai da nação".

A certeza de quem viveu

Ao olhar para trás e analisar o impacto de Persépolis, Marjane Satrapi sabia que a força de seu trabalho residia na honestidade do testemunho pessoal. Foram partes que ela levou consigo mesma até os últimos dias.

"Eu não tinha outra maneira de escrever minha história. Eu não podia dizer, do nada, 'Ah, essa é uma análise do que aconteceu nos anos 70, 80 e 90', porque eu não sou uma historiadora ou uma política. Sou uma pessoa que nasceu em um certo lugar, em um certo tempo, e posso não ter certeza de muitas coisas, mas tenho certeza do que eu vivi. Eu sei disso. Tentei entender e descrever minha experiência, o que foi importante porque as pessoas sabem bem pouco", disse ela durante o lançamento do quadrinho na França.

Mesmo que já não esteja mais aqui, a artista deixa uma coleção atemporal de quadrinhos sobre a vivência no Irã, na França e o apoio aos direitos das mulheres. Marjane Satrapi escreveu 12 livros (bandas desenhadas/gráficos novels e livros infantis) ao longo de sua carreira, sendo Persépolis e Bordados os dois mais famosos.

E seguirá marcada na história como uma artista que se colocou à frente de seu tempo para extrair do leitor os sentimentos mais nobres: a empatia, a reflexão e a mudança social.

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