A virada da Vale: de 'mineradora fechada' para empresa que precisa 'explicar o que faz'
A mineração voltou ao centro da economia global, mas em novos termos. Impulsionado pela transição energética, o setor ganhou protagonismo ao fornecer a matéria-prima para baterias, eletrificação e infraestrutura. Ao mesmo tempo, passou a operar sob pressão maior de governos, investidores e da sociedade.
A Vale, uma das gigantes brasileiras, está no meio dessa virada. E usa a comunicação e a inovação para se posicionar como uma empresa cada vez mais moderna.
Tradicionalmente uma empresa B2B, que negocia com siderúrgicas e indústrias, a mineradora passou a falar com um público mais amplo — de comunidades locais a autoridades e opinião pública. A mudança acontece em um momento em que avançar projetos ficou mais difícil. Licenças, regulações e pressão social aumentaram no mundo todo. Mais do que mostrar o que produz, a empresa precisa explicar como opera.
“A mineração não construiu uma relação muito produtiva com a sociedade ao longo do tempo”, diz Leandro Modé, CMO da Vale, em entrevista ao podcast EXAME no South Summit. “Se você não consegue deixar claro o que faz — e principalmente como faz — fica cada vez mais difícil construir o futuro.”
O pano de fundo dessa virada inclui episódios como Brumadinho e Mariana, que expuseram fragilidades da operação e da relação com a sociedade.
A resposta passa por uma mudança interna relevante: a comunicação ganhou status estratégico e hoje se reporta diretamente ao CEO. “A comunicação era muito mais uma tiradora de pedidos. Hoje, não tem mais espaço para isso”, afirma Modé. Parte dessa agenda envolve apresentar evidências, como indicadores de segurança e a eliminação de estruturas de barragens ao longo dos últimos anos.
A inovação aparece como um dos pilares dessa nova fase. A Vale mantém um orçamento anual de cerca de US$ 750 milhões em pesquisa e desenvolvimento. É a segunda empresa com maior investimento para esta área do Brasil. “A inovação é fundamental para mostrar que a gente está falando de mineração do futuro”, diz Modé. “Ela traz mais segurança, mais eficiência e permite comprovar na prática uma operação mais sustentável.”
Essa transformação acontece em um ambiente mais instável.
A mineração passou a ocupar espaço central no debate geopolítico, com minerais críticos como cobre e níquel ganhando relevância estratégica — e cadeias globais cada vez mais sensíveis a custos de frete, energia e combustíveis. “O risco geopolítico hoje está entre os principais riscos das empresas”, afirma Modé. “As companhias estão cada vez mais sofisticadas para se antecipar e minimizar esses impactos.”
Assista ao podcast e confira a entrevista completa.
Qual é a história do South Summit
Em meio à crise econômica que atingiu a Espanha no início da década passada, um evento surgiu com a proposta de conectar empreendedores e investidores. O South Summit foi criado em 2012, em Madri, pela empreendedora María Benjumea em parceria com a IE Business School, escola de negócios sediada na capital espanhola.
Naquele momento, o país enfrentava desemprego acima de 20% da população adulta e mais de 50% entre jovens. A falta de crédito e a incerteza sobre o futuro pressionavam empresas e profissionais.
A ideia do South Summit nasceu desse contexto. Benjumea reuniu acadêmicos da IE, executivos de grandes empresas e representantes do governo para criar um encontro voltado a negócios e inovação. “A Espanha estava muito mal naquela época”, afirmou a empreendedora à EXAME.
Empreendedora desde o fim dos anos 1970, Benjumea já havia criado negócios como uma galeria de arte, em 1981, e o Infoempleo, plataforma de empregos lançada nos anos 1990 com a chegada da internet.
A primeira edição do South Summit foi pequena, com algumas centenas de participantes e poucos fundos de investimento. Ao longo dos anos, o evento cresceu e passou a atrair startups e investidores de vários países.
Um dos pilares do encontro é a competição de startups, que seleciona empresas com potencial de crescimento. Entre as participantes estão companhias que depois atingiram valor de mercado acima de 1 bilhão de dólares.
Com o tempo, o evento se consolidou como ponto de encontro do ecossistema de inovação na Espanha. Madri passou a atrair mais investimento em startups e ganhou espaço entre os principais polos de tecnologia na Europa.
A expansão internacional começou anos depois. Em 2022, o South Summit chegou ao Brasil, com a primeira edição realizada em Porto Alegre, no Cais Mauá. O evento reuniu cerca de 15 mil pessoas de 76 países.
A edição seguinte ampliou a estrutura, com aumento de área e número de palestrantes. Em 2025, o encontro manteve a realização na capital gaúcha mesmo após as enchentes que atingiram a região, reunindo mais de 20 mil participantes.
Hoje, o South Summit reúne startups, investidores e executivos em diferentes países, mantendo o formato baseado em conteúdo, conexões e apresentação de negócios.
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