Açaizais como infraestrutura urbana? Caminhos para Amazônia Urbana rever a relação com as águas
Por Alice Martins Morais, com edição de Natália Mello
“Aqui era tudo rio, melhor infância e adolescência que dava para ter", lembra Valdirene Rodrigues, 58, autônoma. Moradora da Passagem Marcílio Dias, no bairro do Guamá, em Belém (PA), desde a adolescência, ela acompanhou de perto as transformações urbanas ao longo de mais de quatro décadas.
Como em muitas cidades amazônicas, a capital paraense foi construída de frente para os rios, mas, com o tempo, passou a virar as costas para essas águas, canalizando, soterrando e asfaltando o que antes era parte da paisagem.
O problema é que, quando a época de chuva chega, a natureza cobra seu espaço: a água continua buscando por onde passar.
É para cenários como o de Valdirene que pesquisadores e gestores começam a desenhar uma nova lógica de cidade: em vez de combater a água com concreto, a proposta é usar a própria natureza como infraestrutura.
O caminho para essa Amazônia Urbana propõe a criação de 'parques inundáveis' de açaizais em áreas críticas. A ideia é permitir que a vegetação nativa absorva o excesso de chuva enquanto gera renda e segurança alimentar.
A rua de Valdirene é praticamente uma vila, que por um tempo chegou a ser fechada, entre duas vias importantes de trânsito hoje em dia, a Conselheiro e a Mundurucus, onde corriam dois rios no século passado, mas há cerca de 20 anos foram canalizados.
Sua casa, décadas atrás, ficava sobre palafitas e era feita de madeira, um cenário comum entre os vizinhos, muitos dos quais, assim como sua família, haviam migrado do interior do estado em busca de melhores oportunidades na capital paraense.
“Era realmente tudo mato ainda, tinha vários bichos por aqui, como mussum e matá matá”, descreve a autônoma, referindo-se a algumas espécies tipicamente amazônicas que eram comuns de se ver no dia-a-dia (hoje, para ver esses animais em Belém, é mais comum ir até o aquário).
Com o crescimento urbano, a natureza começou a ser empurrada para longe.
“Era algo que a gente queria, para falar a verdade. Porque precisava se locomover, ter melhor qualidade de vida. Aí passou o asfalto e uma tubulação aqui na passagem que vinha desde a Mundurucus", recorda.
O rio começou a ser soterrado primeiro pelos próprios moradores, usando caroços de açaí e terra. Quando veio a obra da prefeitura, algumas residências tiveram que ser recuadas e outras removidas da passagem para dar espaço ao concreto. Aos poucos, as famílias foram trocando a madeira por alvenaria também.
O problema foi que, em alguns anos, o trecho do meio da passagem cedeu e ficou mais baixo que o restante da rua. O detalhe passa despercebido ao primeiro olhar, mas quando a chuva dá as caras na cidade, essa parte alaga rapidamente, trazendo as águas do canal da Mundurucus até a porta das casas de quem ali vive.
“Sempre foi assim, sempre encheu, muitos políticos fizeram a promessa de resolver isso, mas nada mudou, eu já desisti", declara Valdirene, que diz que aprendeu a lidar com essa situação, conhecendo os caminhos pelas calçadas que pode usar para desviar do aguaceiro, inclusive usando lombadas como pontes para pular os obstáculos quando precisa sair de casa em dia de chuva.
“O pior é quando é maré alta, aí já viu. Eu mesma já perdi três freezers com a água que entrou em casa, muitos vizinhos perderam móveis ao longo do tempo. Fiz novas barreiras dentro de casa para barrar a água, alguns colocaram tijolos para ir subindo a altura da casa, a gente vai se virando”, conta Valdirene.
Para a moradora, o problema central é a ineficiência do escoamento. Ela desconfia que os bueiros da rua não dão conta da vazão por estarem obstruídos por entulho, terra e resíduos de construção.
Embora limpezas paliativas ocorram de tempos em tempos para remover a sujeira, o cenário se repete: é apenas questão de tempo para que tudo retorne ao estado anterior.
Por que a água não atinge a todos da mesma forma?
A experiência de Valdirene não é isolada e ajuda a explicar um padrão mais amplo identificado pela cientista política Ananda Ridart. Ao analisar os investimentos públicos em infraestrutura urbana de Belém entre 2018 e 2024, a pesquisadora criou um Índice de Vulnerabilidade Urbana (IVU) que cruza renda, raça, saneamento e risco de alagamento.
O Guamá, onde vive Valdirene, aparece como o terceiro bairro mais vulnerável da cidade, mas não está entre os que mais recebem investimentos.
Ridart é pesquisadora do Instituto Aruanã, onde estuda instituições políticas comparadas e a agenda ambiental na Pan-Amazônia.
Ela explica que, na prática, essa desconexão sugere que a lógica de alocação de recursos ainda corresponde a obras de grande visibilidade, de locais turísticos, um investimento urbano historicamente maior onde há uma concentração de renda maior.
“Em uma cidade amazônica marcada por profundas desigualdades raciais, de renda e de infraestrutura, a água não atinge todos da mesma forma, porque o poder público também não protege todos da mesma forma”, resume a pesquisadora.
Para ela, mudar esse cenário passa por adotar critérios claros de priorização, como índices de vulnerabilidade climática, além de ampliar a transparência dos dados públicos. “Não basta gastar mais, é preciso gastar melhor”, diz.
Além disso, no caso de Belém, a pesquisadora enxerga a necessidade de ter mais participação da Secretaria de Meio Ambiente na pauta, já que os investimentos geralmente chegam via Secretaria de Urbanismo ou de projetos de saneamento.
Para se ter uma ideia, entre 2018 e 2024, o Programa de Saneamento da Bacia da Estrada Nova (PROMABEN) executou R$ 303,7 milhões e a Secretaria Municipal de Urbanismo (SEURB), R$ 272,3 milhões.
Já a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SEMMA) recebeu apenas R$ 218 mil no período. Ou seja, uma quantia mais de mil vezes inferior.
Na prática, a conta não fecha: para cada real destinado ao meio ambiente, o urbanismo recebeu cerca de 1.200 reais e o saneamento chegou a 1.400 reais.
Essa desproporção reflete a ausência de soluções além da drenagem tradicional, que integrem recuperação de áreas degradadas, infraestrutura verde e planejamento urbano por bacia hidrográfica.
O açaí como parte da solução
Pensando nas Soluções Baseadas na Natureza (SBN), surgem propostas como a do economista Harley Silva, da Universidade Federal do Pará (UFPA), que propõe integrar o cultivo de açaí ao planejamento urbano como estratégia de drenagem e segurança alimentar.
A ideia parte de uma constatação simples: o açaizeiro é uma palmeira típica de áreas alagadas e tem alta capacidade de absorção de água.
Ao mesmo tempo, é largamente consumido domesticamente em Belém, diariamente. Então, em vez de tratar o fruto roxo apenas como produto agrícola distante da cidade, Silva sugere incorporá-lo como parte da infraestrutura urbana.
“Seria uma forma de enfrentar o problema com menos obras de engenharia. Não é que vá substituir por completo, mas poderíamos aproveitar áreas onde o solo ainda não está impermeabilizado com grama ou jardins transformando em açaizais urbanos”, sugere o também professor da Faculdade de Ciências Econômicas e do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do Pará (UFPA).
O sistema funcionaria como no conceito de “cidades-esponja”, que ganhou popularidade mundialmente nos últimos anos.
Os açaizais poderiam ser implementados no território,em casas, áreas públicas, parques, e seriam capazes de absorver a água da chuva, reduzir alagamentos e, ao mesmo tempo, gerar renda e alimento.
A proposta ainda está no campo das ideias e exigiria testes e planejamento, mas seria um caminho para reconectar a cidade com sua própria natureza, em vez de tentar controlá-la apenas com concreto.
“Seria uma opção de menor custo e que acredito que teria uma boa receptividade por parte da população, já que tem o viés econômico. Para dar certo, é importante envolver as comunidades desde o início e fazer parcerias com instituições de pesquisa", recomenda Silva.
Outra vantagem é que a palmeira do açaí cresce relativamente rápido (em média, em 3 anos já produz os primeiros frutos) e é recomendada para sistemas agroflorestais (adapta-se bem sendo cultivado junto de outras espécies).
Na Amazônia, alagamento não é só culpa da chuva intensa
Esse desafio não é exclusivo de Belém. Em toda a Amazônia, cidades enfrentam um mesmo paradoxo: convivem com altos índices de chuva, mas carecem de infraestrutura adequada para lidar com a água.
Segundo o pesquisador Luiz Carlos Araujo dos Santos, da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), parte do problema está na forma como as cidades cresceram, muitas vezes sem planejamento e sem considerar a dinâmica natural das águas.
A região concentra até nove meses de chuvas intensas por ano, mas muitas cidades cresceram sem planejamento de drenagem, saneamento ou controle da ocupação do solo.
“Os alagamentos urbanos são, em grande parte, resultado da ausência de sistemas de drenagem capazes de absorver o volume de água, especialmente em regiões com alta concentração de chuvas”, explica.
O pesquisador é geógrafo e tem experiência em estudos sobre gestão hídrica urbana, tendo desenvolvido pesquisas em diversas bacias hidrográficas, incluindo a Bacia do Tocantins-Araguaia, que é a maior bacia hidrográfica exclusivamente brasileira.
Assim como Ridart, ele concorda que enfrentar esse cenário exige integração de políticas públicas que hoje ainda caminham separadas, como habitação, saneamento e planejamento urbano.
“É fundamental considerar a dimensão social e a vulnerabilidade, identificando as populações em risco e inserindo essas pessoas no planejamento, para desenvolver soluções e ampliar a infraestrutura”, afirma.
Ele também destaca que o avanço depende de mais investimento em ciência e monitoramento, já que a falta de dados históricos e de estações meteorológicas ainda limita a capacidade de prever eventos extremos e planejar respostas mais eficazes nas cidades amazônicas.
Infraestrutura verde: o papel das árvores
Outro fator que agrava o problema é a baixa arborização urbana. Dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que São Luís é a segunda capital menos arborizada do país, com apenas 34,3% das vias com pelo menos uma árvore, enquanto Belém aparece entre as piores posições, com menos da metade das ruas arborizadas.
Onde falta árvore, sobra água no asfalto. Isso ocorre porque a vegetação urbana opera como uma "infraestrutura natural" estratégica: suas copas interceptam a chuva antes que ela atinja o solo, suas raízes aumentam a infiltração da água e o solo ao redor atua como filtro e reservatório.
Em conjunto, esses processos podem reduzir significativamente o escoamento superficial e aliviar a pressão sobre sistemas de drenagem, chegando a diminuir o volume de enxurradas em até 65% quando combinados com outras soluções naturais.
Sem essa cobertura verde, a água escoa mais rápido sobre superfícies impermeáveis, como asfalto e concreto, aumentando o risco de alagamentos. Além disso, a arborização também é um elemento-chave da resiliência climática.
Árvores ajudam a regular a temperatura urbana, reduzem ilhas de calor e diminuem a intensidade de eventos extremos ao absorver e armazenar água no solo, reduzindo tanto a frequência quanto a intensidade de enchentes.
Para a cientista política Ananda Ridart, esse cenário reflete um modelo de urbanização que ainda ignora o papel ecológico das cidades amazônicas.
“As cidades amazônicas não podem tratar a água apenas como algo a ser expulso, mas como um elemento estruturante do planejamento urbano”, afirma.
Para isso, necessariamente, a Amazônia Urbana demanda ampliação de áreas verdes e a recuperação de ecossistemas urbanos.
No chão do Guamá e de tantas outras baixadas amazônicas, a resposta para as enchentes pode estar menos no concreto e mais no resgate da floresta que as cidades tentaram esconder.
Confira a matéria no site da Amazônia Vox.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: