Acionistas cobram explicações de gigantes de tecnologia sobre IA e clima
A corrida pela inteligência artificial está criando uma contradição incômoda para as maiores empresas de tecnologia do mundo: ao mesmo tempo em que assumiram compromissos públicos de reduzir emissões de carbono, Amazon, Meta e Alphabet estão expandindo aceleradamente seus data centers — estruturas que consomem quantidades crescentes de energia.
Agora, acionistas querem saber como as duas agendas vão coexistir.
Por meio de propostas apresentadas nas assembleias anuais das três companhias, investidores pedem que cada empresa publique um relatório explicando como pretende honrar seus compromissos climáticos diante da demanda energética massiva gerada pela IA.
As iniciativas foram encabeçadas pela organização sem fins lucrativos As You Sow, em parceria com Presbyterian Life & Witness, Mercy Investment Services e Trillium Asset Management.
Compromissos climáticos
O apoio a resoluções climáticas em assembleias corporativas vem caindo desde o pico de 2024, e grandes gestoras como BlackRock, Vanguard e State Street recuaram em relação a esse tipo de pressão. Mesmo assim, os proponentes insistem que o exercício tem valor — mesmo quando as propostas não obtêm votos suficientes para passar.
"Na corrida da IA, as gigantes de tecnologia correm o risco de minar seus compromissos climáticos justamente quando a tomada de decisões de longo prazo é mais importante", disse Andrea Ranger, da Trillium Asset Management, em entrevista à Bloomberg.
As três empresas recomendaram voto contrário às propostas, argumentando que já fazem divulgações climáticas suficientes. A Amazon informou que o apoio à proposta foi menor do que o registrado em iniciativa semelhante no ano passado. Meta e Alphabet não comentaram além de suas declarações oficiais.
Governança em xeque
Para especialistas, a questão vai além do meio ambiente. Jill Fisch, professora de direito empresarial da Universidade da Pensilvânia, aponta uma inconsistência de governança difícil de ignorar: um conselho que declara compromisso com emissão líquida zero enquanto constrói infraestrutura intensiva em carbono está enviando sinais contraditórios ao mercado. "Essas duas declarações são inconsistentes. Isso não é boa governança", afirmou.
Há também um risco financeiro concreto no horizonte. A expansão dos data centers tem gerado atritos com comunidades locais nos Estados Unidos, preocupadas com o aumento nas contas de luz, a sobrecarga das redes elétricas e o consumo de água. Esse atrito, alertou Fisch, pode atrasar ou inviabilizar projetos — e isso tem impacto direto nos balanços das empresas.
Obter maioria em Meta e Alphabet é particularmente difícil: ambas adotam estruturas de ações de classe dupla, que concentram poder de voto nas mãos de fundadores e executivos. Mas para Kelly Poole, da As You Sow, a batalha não se resume à contagem de votos. "É menos sobre o percentual específico de vitória da proposta ou quantos votos você obtém", disse ela. O objetivo, explica, é dar aos investidores a chance de sinalizar preocupação — e pressionar por mais energia limpa nos data centers.
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