Acordo UE-Mercosul ajudará Brasil em energia verde, diz Câmara Brasil-Alemanha

Por Rafael Balago 1 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Acordo UE-Mercosul ajudará Brasil em energia verde, diz Câmara Brasil-Alemanha

Hannover - O acordo entre União Europeia e Mercosul trará vantagens não apenas com a redução de tarifas para a compra e venda de produtos, mas em vários tipos de cooperação, especialmente em energia verde, avalia Barbara Konner, vice-presidente da Câmara Brasil-Alemanha de São Paulo (AHK).

“Todos os setores estratégicos têm muito potencial, mas esperamos uma aceleração rápida em tudo o que está relacionado com economia verde, tecnologias verdes, além de mineração e minerais críticos, porque aí tem uma grande necessidade”, disse, em entrevista à EXAME.

“No longo prazo, com certeza, vai ter efeitos muito positivos em outras áreas, como biodiversidade, e em cooperação de skills [habilidades] e tudo o que está relacionado à formação de talentos e cooperação científica”, afirma.

Konner conversou com a EXAME durante a feira Hannover Messe, na Alemanha. O Brasil foi o país-convidado do evento neste ano, e o presidente Lula esteve presente, ao lado do chanceler Friedrich Merz. Na conversa, ela analisa os impactos da visita e o potencial das relações entre os dois países.

O Brasil quer vender mais biocombustíveis para a Europa. O que o país pode fazer para avançar nisso?

Os dois países tinham percepções muito diferentes. Eu acho que isso é principalmente por uma questão de tamanho, porque o Brasil é gigantesco. Se olhar o mapa, o Brasil é 24 vezes a Alemanha, é oito vezes a União Europeia.

Então é entendível que a percepção dos dois lados seja muito diferente. Mas o fato positivo dos últimos tempos é que o presidente Lula colocou isso em todas as suas falas, que no Brasil não existe essa discussão [entre áreas para plantar comida e plantar insumos para combustíveis].

Eu acho que [ele] conseguiu convencer atores relevantes na Alemanha do fato de que o Brasil não precisa desmatar. O Brasil tem muita superfície de terras degradadas que dá para utilizar, e não é uma questão de farm to fuel ou farm to fork [plantar para combustível ou plantar para comer].

Barbara Konner, vice-presidente-executiva da Câmara de Comércio Brasil-Alemanha de São Paulo (Divulgação)

Como avalia a participação do Brasil na feira Hannover Messe?

Essa participação do Brasil como convidado especial na Feira de Hannover 2026 foi um sucesso total. Tem muitos aspectos que deixam a gente, como Câmara Brasil-Alemanha, muito contente, tanto nos aspectos da nossa agenda política, como também em termos de posicionamento institucional e também tudo o que está relacionado com as empresas.

Essa participação aconteceu num contexto geoeconômico e geopolítico muito importante, que dá ainda mais oportunidades para o Brasil. E o Brasil conseguiu se posicionar como um parceiro estratégico, realmente como um pioneiro em muitas indústrias que o mundo ainda não conhecia.

O Brasil conseguiu se posicionar como um parceiro tecnológico, que tem muitas soluções para tudo o que é a indústria de descarbonização, como um parceiro que quer e pode gerar valor agregado em tudo que está relacionado à mineração e matérias críticas que o mundo precisa para o avanço tecnológico, não somente a Alemanha, senão a Europa e também o mundo inteiro.

Toda a parte política para a Câmara, que nós, como representantes oficiais da indústria alemã no Brasil, foi muito relevante também, porque nos encontros entre o chanceler e o presidente Lula, durante as consultas governamentais, a gente conseguiu colocar o aspecto mais relevante das relações bilaterais que até agora ficou pendente, que é um acordo de bitributação, para evitar a dupla tributação. E no comunicado oficial do encontro governamental foi colocado o compromisso dos dois governos para avançar as negociações, intensificar o diálogo sobre esse tema e conseguir quanto antes a assinatura desse acordo.

O que dificulta o avanço deste acordo?

O acordo deixou de existir há 18 anos. É um acordo que o Brasil tem com muitos países no mundo, com quase todos os países europeus, e que a Alemanha tem com quase todos os países na América Latina, menos com o Brasil. Então não é muito lógico que justamente a Alemanha e o Brasil, que são parceiros estratégicos nessa relação entre a Alemanha e a América Latina, não tenham esse acordo.

Para as empresas de ambos os lados, é muito importante ter um level playing field, as mesmas regras para todas as empresas. Foram feitos dois estudos, e sobretudo esse segundo estudo mostrou que a existência de um acordo de tributação pode levar a um aumento dos investimentos de 40%. Pode aumentar a importação e a exportação em 14% a 15%, e o efeito de uma redução da arrecadação dos impostos do lado brasileiro, em apenas 3 anos, já estaria revertido. Ou seja, o break-even é em apenas 3 anos. Acho que esses números levaram a convencer os representantes dos dois governos a realmente retomarem essas negociações e intensificarem esse diálogo.

Teve algum insight ou percepção da feira que mais chamou a atenção sobre o Brasil?

O Brasil, nos últimos dias, conseguiu surpreender o mundo. Não unicamente pelas palestras ou falas do presidente Lula, mas também pelas empresas, pelos visitantes, pelas delegações, pelo enorme tamanho da participação brasileira. Isso conseguiu surpreender o mundo e mudar essa imagem que talvez existia do Brasil como um país exportador de matéria-prima. O Brasil conseguiu se apresentar como um país que tem tecnologia, inovação, muito talento e que é um parceiro muito confiável, com muito potencial para muitos países do mundo.

O repórter viajou a convite da Câmara de Comércio Brasil-Alemanha de São Paulo.

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