Adaptação fica para depois em Bonn, plástico e finanças na dianteira rumo à COP31
A semana de negociações climáticas em Bonn vem aproximando temas que costumam andar separados. Na quarta-feira, 10, a adaptação ocupou a agenda, porém o avanço das tratativas neste tema escorregou para depois.
Depois da abertura, na segunda, e do lançamento da meta de eletrificação pela presidência da COP31, na terça, o foco migrou para a adaptação aos efeitos da crise climática. Tiveram início as tratativas de dois pontos da agenda.
Primeiro, o Programa de Trabalho de Nairóbi (NWP), que reúne conhecimento técnico para orientar as decisões dos países, enquanto a segunda tratativa - as Comunicações de Adaptação - consiste nos instrumentos pelos quais cada governo relata suas prioridades e necessidades.
Nos dois ítens, as delegações ressaltaram a necessidade de alinhar o trabalho ao Objetivo Global de Adaptação (GGA), a meta de adaptação do Acordo de Paris.
Indicadores ficam para depois
A negociação mais sensível, sobre os indicadores do GGA, foi remarcada para esta quinta-feira, a pedido do G77.
Maior coalizão de países em desenvolvimento nas negociações climáticas, o grupo reúne hoje mais de 130 nações, apesar do nome herdado de 1964, e costuma fechar posições conjuntas sobre temas como financiamento e justiça climática. Desta vez, pediu mais tempo para se alinhar internamente e o peso desses indicadores explica a cautela.
São eles a régua que vai medir o avanço de cada país em adaptação, e dela dependem tanto a cobrança por resultados quanto, em boa parte, a destinação de recursos.
A COP30, no Brasil, adotou um primeiro conjunto de indicadores e pediu que o financiamento de adaptação triplicasse até 2035; em Bonn, a conversa avança sobre como colocá-los em prática.
Finanças e implementação entram em cena
A quarta-feira também marcou a estreia de dois fóruns herdados de Belém. Os Diálogos dos Emirados Árabes Unidos (EAU), criados para destravar a implementação dos resultados do Balanço Global, a avaliação periódica do progresso rumo às metas de Paris, abriram sua primeira sessão.
Em paralelo, avançaram os Diálogos Veredas, que têm em Bonn sua primeira edição. Criado na COP30, o fórum trata do alinhamento de todos os fluxos financeiros, públicos e privados, às metas climáticas, com base no Artigo 2.1(c) do Acordo de Paris.
Substitui o antigo Diálogo de Sharm el-Sheikh e leva à mesa uma pergunta espinhosa sobre como redirecionar o dinheiro do sistema financeiro para uma economia de baixo carbono.
Agora nesta quinta-feira, a conexão entre plástico e clima ganhou um palco ao lado das negociações. E está prevista ainda uma sessão sobre o Roteiro de Baku a Belém para 1,3 trilhão, o plano das presidências da COP29 e da COP30 para elevar os recursos destinados aos países em desenvolvimento a pelo menos US$ 1,3 trilhão por ano até 2035.
O debate deve girar em torno de como tirar a meta do papel e conectar o dinheiro aos planos nacionais de clima.
Plástico e clima, a mesma crise
Em evento parelalo promovido pelo Greenpeace, a Green Africa Youth Organization (GAYO) e a presidência rotativa do Conselho da União Europeia, ativistas e governos defenderam que reduzir a produção de plástico seja reconhecido como medida climática.
"A ligação entre plástico e clima é clara. 99% do plástico vem do petróleo e do gás, e o aumento da produção acelera os danos que a crise climática já provoca", disse Jacob Kean Hammerson, líder de política global de plásticos do Greenpeace EUA.
Para ele, cortar essa produção é, em si, uma solução climática. E o Tratado Global dos Plásticos, em negociação na ONU, precisa estar à altura de entregá-la.
Tom mais duro partiu de quem está na linha de frente, como representantes da GAYO, ONG ambiental de Gana premiada com o Earthshot Prize de 2024 por seu modelo de lixo zero:
"A poluição por plástico e a crise climática não são batalhas separadas, são faces diferentes do mesmo fracasso em proteger pessoas, ecossistemas e as futuras gerações", afirmou Richard Matey, diretor-executivo da ONG
Para ele, não há reciclagem capaz de dar conta de uma crise produzida em larga escala, e uma transição justa não pode ser decidida só em salas de conferência, mas moldada por quem vive suas consequências.
Matey defendeu que o tratado abranja todo o ciclo de vida do plástico, reduza produção e consumo, proteja meios de vida e garanta financiamento e tecnologia para o Sul Global: "o multilateralismo precisa entregar justiça, não adiamento", resumiu.
O encontro teve respaldo de governos. O Conselho da União Europeia e o Ministério do Meio Ambiente da Alemanha reforçaram que nenhum país dá conta sozinho da poluição plástica e da mudança climática.
Neste contexto, um tratado robusto inspirado na experiência da governança climática é o que ajudaria a enfrentar as duas crises de forma conjunta.
Plásticos não integram a pauta formal das negociações de Bonn. Porém, a conversa expõe o fio que costura a semana, a percepção de que clima, finanças, adaptação e poluição são partes de um mesmo problema e de que a resposta passa por uma transição justa.
É esse pacote que a presidência turca herda para tentar transformar em decisão na COP31, em novembro.
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