Quais empresas da bolsa podem ser afetadas por um novo 'tarifaço' dos EUA

Por Ana Luiza Serrão 5 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Quais empresas da bolsa podem ser afetadas por um novo 'tarifaço' dos EUA

A proposta dos Estados Unidos de impor uma tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros ainda não provocou uma reação expressiva nos mercados, mas já levou analistas ouvidos pela EXAME a revisarem quais empresas podem ser mais afetadas caso a medida avance.

Entre os nomes monitorados por analistas estão a Raízen (RAIZ4) e a Gerdau (GGBR4), embora por razões diferentes. Enquanto a primeira aparece como uma das companhias mais expostas à discussão sobre biocombustíveis, a segunda já tem forte presença no mercado estadunidense.

Na segunda-feira, 1º, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos concluiu que o Brasil adota práticas consideradas "não razoáveis" em áreas como comércio digital, sistema de pagamentos, propriedade intelectual e acesso ao mercado de etanol.

Como consequência, o órgão propôs uma tarifa extra de 25% sobre produtos brasileiros, mas abriu um período de consultas e negociações até 15 de julho. Produtos importantes da pauta exportadora nacional, como carne bovina, café, petróleo, terras raras, fertilizantes, aeronaves e peças aeronáuticas ficaram de fora.

O efeito de primeira ordem, por outro lado, "tende a ser menor do que o anúncio de 50% em julho de 2025." Isso por causa do tamanho da alíquota e, principalmente, pela ampla lista de isenções, de acordo com o sócio-fundador da Private Investimentos, Marcus Novais.

Raízen concentra atenções por exposição ao etanol

A Raízen surge como o principal foco de atenção do mercado. A preocupação está ligada ao fato de os biocombustíveis não aparecerem explicitamente entre os produtos isentos da nova tarifa, o que pode aumentar a incerteza sobre as exportações do setor.

"O grande impacto, ao que parece, é de fato mirando a questão dos biocombustíveis. Essas empresas mais ligadas a esse ciclo podem ser mais afetadas", avalia o especialista em renda variável da Manchester Investimentos, Rubens Cittadin Neto.

Sócio-fundador da Private Investimentos, Marcus Novais também vê o segmento como o mais vulnerável nesta nova rodada de tensão comercial. "Não há menção explícita na lista de isenções divulgada, o que sugere exposição potencial do setor sucroenergético e do etanol caso confirmado", diz.

Todavia, o impacto econômico direto sobre a Raízen pode ser menor do que a reação inicial da bolsa. "Relatórios do setor destacam que o Brasil exporta apenas uma parcela pequena de sua produção de etanol para os EUA, o que limita o efeito operacional agregado", segundo Novais.

Exposta aos EUA, Gerdau escapa do pior cenário

Se a Raízen aparece como potencial prejudicada, a situação da Gerdau é diferente. Embora a siderurgia esteja tradicionalmente entre os setores mais sensíveis a disputas comerciais, a companhia possui uma operação relevante nos EUA, o que reduz sua dependência das exportações brasileiras.

A avaliação é que empresas com presença industrial no mercado lá conseguem absorver melhor os efeitos de eventuais barreiras comerciais, especialmente quando comparadas a exportadores mais concentrados. Além disso, várias empresas que preocuparam investidores em episódios anteriores ficaram relativamente protegidas desta vez.

É o caso da Embraer (EMBR3), já que aeronaves e componentes aeronáuticos aparecem entre os produtos excluídos da proposta tarifária. "Aeronaves ficam de fora dessa tarifa de 25%, e peças aeronáuticas também. Então a gente não vê um efeito sobre a Embraer", afirma Cittadin Neto.

O mesmo vale para setores ligados à carne bovina, café e petróleo, que continuam protegidos pela lista de exceções apresentada pelo governo americano. Para Novais, o desenho da medida ajuda a explicar por que o mercado reagiu de forma relativamente tranquila ao anúncio.

Juros futuros pressionados e dólar estão no radar

Embora o impacto direto da medida seja considerado limitado, especialistas alertam que qualquer aumento da percepção de risco pode dificultar ainda mais o trabalho do Banco Central em um ambiente já pressionado pela inflação.

Novais avalia que "o vetor mais relevante é doméstico e inflacionário" e que os efeitos indiretos da alta do petróleo continuam restringindo o espaço para cortes da Selic. Na mesma linha, o estrategista-chefe da Krivo Capital, Marco Saravalle, vê que o tema se soma a uma série de fatores que já vêm pressionando os juros futuros.

"Essa potencial tarifa traz a percepção de risco. Se a gente tem uma percepção de risco maior, o investidor vai pedindo mais prêmio", afirma. "Consequentemente, a curva de juros permanece alta por mais tempo."

Para Saravalle, o debate ganha importância em um momento em que o mercado revisa para cima as projeções para a inflação e reduz as expectativas de flexibilização monetária nos próximos meses. "O principal impacto imediato no dólar e na curva de juros é fortalecer talvez um pouco o dólar frente ao real", acrescenta Cittadin Neto.

Juros e ações descontadas abrem oportunidades

Com a curva de juros ainda pressionada, analistas veem oportunidades em ações negociadas com desconto e em títulos de renda fixa com taxas elevadas. Novais destaca títulos atrelados à inflação e crédito de alta qualidade como alternativas atrativas em um cenário de juros reais elevados.

Já Saravalle vê valor em ativos domésticos descontados. "Temos empresas sendo negociadas a quatro, cinco ou seis vezes lucro, com dividendos projetados de 8%, 9% ou 10%. É nesse momento que surgem as grandes oportunidades."

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