‘O que mais você sabe?’: headhunter fala sobre ‘invisible skills’ como fator para futuros líderes

Por Gabriella Uota 4 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
‘O que mais você sabe?’: headhunter fala sobre ‘invisible skills’ como fator para futuros líderes

Nem sempre o profissional mais técnico é o que chega mais longe — e nem sempre aquele com as melhores habilidades de liderança conquista uma cadeira de C-level.

Depois de mais de uma década recrutando executivos para posições de alta liderança, Talita Motta, fundadora da INSIDE Executive Search, avalia profissionais para cargos de gerência, diretoria, C-level e conselho. Foi nesse trabalho que passou a observar um padrão entre quem chega ao topo: nem sempre vence o mais técnico, nem apenas quem domina as chamadas soft skills.

Eles têm algo em comum que não aparece no currículo, não costuma ser ensinado em cursos e tampouco se encaixa nas tradicionais categorias de hard skills ou soft skills.

Talita deu um nome para esse fenômeno: "invisible skills", ou habilidades invisíveis. O conceito ainda não existe formalmente na literatura de gestão, mas nasceu da observação prática de centenas de executivos entrevistados ao longo de sua trajetória.

O que faz alguns profissionais chegarem mais rápido ao topo?

A reflexão surgiu quando Talita analisava a trajetória de líderes que alcançaram cargos de presidência em uma velocidade incomum. Ao questionar um CEO jovem sobre o que havia feito para chegar tão rápido ao cargo, recebeu uma resposta inesperada.

O executivo não atribuía seu sucesso ao conhecimento técnico nem às habilidades comportamentais tradicionalmente valorizadas pelo mercado. Ele próprio tinha dificuldade para explicar o que o diferenciava.

Foi então que Talita identificou um padrão recorrente. "Existe alguma coisa que acontece com esses profissionais que não é apenas conhecimento técnico e também não é apenas soft skill", afirma.

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A habilidade de ler o jogo

Segundo a headhunter, as chamadas invisible skills estão ligadas à capacidade de interpretar cenários, compreender contextos e agir no momento certo.

É a habilidade de entender quando falar, com quem falar, qual tom utilizar e como construir alianças dentro da organização. Não se trata apenas de comunicação ou inteligência emocional. Trata-se de uma leitura sofisticada das dinâmicas de poder e influência.

Na prática, são profissionais que conseguem mover peças estrategicamente, construindo caminhos para alcançar seus objetivos sem gerar resistência desnecessária.

O erro de quem espera a carreira acontecer

Embora considere as invisible skills um diferencial decisivo, Talita aponta dois comportamentos mais concretos que aparecem com frequência entre os profissionais promovidos para posições executivas.

O primeiro é o protagonismo. Segundo ela, muitos profissionais delegam a própria carreira para a empresa, para o gestor ou para as circunstâncias. Os que avançam mais rápido fazem o contrário: assumem a responsabilidade pelo próprio desenvolvimento e tomam decisões intencionais sobre os próximos passos.

O segundo é a inquietação intelectual. Em um mercado que muda cada vez mais rápido, o aprendizado contínuo deixou de ser diferencial para se tornar requisito básico.

"O profissional precisa estar constantemente incomodado com o próprio conhecimento", afirma.

O desconforto como acelerador de carreira

Para Talita, outro fator que diferencia líderes em ascensão é a disposição para enfrentar situações desconfortáveis.

O desafio, segundo ela, é que parte da nova geração chega ao mercado com uma relação diferente com o desconforto. Em muitos casos, há menor disposição para permanecer em ambientes ambíguos, lidar com frustrações ou atravessar situações que exigem mais exposição.

Isso não significa falta de capacidade. Mas pode reduzir as experiências que ajudam a formar repertório, maturidade e leitura de contexto — competências cada vez mais exigidas nas posições de liderança.

E isso pode criar obstáculos para o desenvolvimento das competências exigidas nas posições de liderança. "Crescemos no desconforto", resume.

A inteligência artificial muda as regras do jogo

A chegada da inteligência artificial torna essa discussão ainda mais relevante. Na visão da headhunter, o domínio técnico continuará importante, mas tende a perder exclusividade como fator de diferenciação.

Ferramentas de IA tornam conhecimento e execução mais acessíveis. Em contrapartida, capacidades ligadas à interpretação, influência, julgamento e leitura de contexto ganham valor.

É justamente nesse espaço que as invisible skills podem se tornar ainda mais determinantes. "Hoje, saber programar já não é mais suficiente. O que mais você sabe fazer?", questiona.

O futuro pertence a quem sabe navegar a complexidade

Ao longo dos últimos anos, Talita acompanhou transformações profundas no comportamento dos profissionais e das empresas.

A ascensão profissional sempre teve métricas relativamente claras. Formação, experiência, conhecimento técnico e, mais recentemente, habilidades de liderança passaram a compor a lista de atributos desejados pelas empresas.

Mas, em um cenário em que a inteligência artificial democratiza o conhecimento e a velocidade das mudanças encurta os ciclos de carreira, talvez a pergunta esteja mudando.

Se todos têm acesso às mesmas ferramentas, aos mesmos cursos e às mesmas informações, o que realmente diferencia quem chega às posições mais altas?

Para Talita, a resposta pode ser justamente as invisible skills. A provocação que fica é simples: você está desenvolvendo apenas competências que aparecem no currículo ou também aquelas que ninguém consegue medir — mas que podem definir os próximos passos da sua carreira?

Como mostra Talita Motta, chegar ao topo exige mais do que técnica ou soft skills: é preciso leitura de contexto, influência e repertório para navegar cenários complexos. O MBA Executivo da Saint Paul prepara líderes para esse novo nível de decisão, com formação aplicada em estratégia, gestão, finanças e tecnologia

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