'Agro precisa de R$ 1,5 tri para plantar', diz presidente da Sociedade Rural
O Plano Safra, principal política pública para o setor agrícola, precisa mudar. Para Sérgio Bortolozzo, presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), a medida precisa ser pensada como longo prazo e não anualmente. Segundo o dirigente, o agro precisa de R$ 1,5 trilhão para plantar toda a safra.
"O ideal seria um planejamento quinquenal, para que o produtor saiba antecipadamente o que será financiado, possibilitando investimento e continuidade da produção", diz Bortolozzo em entrevista à EXAME.
Com segundo mandato consecutivo na SRB, Bortolozzo acredita que 'falta vontade política' do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para avançar em pautas de peso para o agro como o seguro rural.
Segundo ele, o agronegócio brasileiro vive um momento de forte pressão financeira e pode começar a reduzir investimentos em tecnologia e produtividade caso não haja medidas de apoio ao setor.
Uma combinação de fatores de cinco anos para cá levou a esse contexto, como a queda no preço das commodities e a alta na produção, enquanto os produtores fizeram grandes investimentos — mas o principal é o aumento dos custos, especialmente dos fertilizantes. Como o Brasil importa cerca de 85% desses insumos, a valorização média do dólar nos últimos anos ampliou essa pressão.
Embora rejeite o termo 'crise', o dirigente afirma que os produtores enfrentam uma combinação de fatores que compromete a rentabilidade da atividade. "Não posso dizer que é crise, mas estamos em dificuldade", diz.
Leia a entrevista completa:
Os dados mostram que o agro está endividado. Por outro lado, há quem afirme que a questão é pontual. O agronegócio está em crise?
Bortolozzo: Nós estamos em dificuldade. Para ter uma ideia, com 107 anos, a Sociedade Rural Brasileira já passou por vários períodos complicados. Não posso dizer que é uma crise, porque as dificuldades sempre existiram. O agricultor tem épocas melhores e épocas piores, é como uma onda. No momento, estamos no período de baixa. Perdemos a capacidade de pagamento dos nossos compromissos principalmente por causa do crédito caro hoje. A taxa Selic elevada, combinada com altos custos e baixos preços das commodities internacionais, torna inviável o custeio de qualquer produção. Quem produz bem está apenas empatado. Nessa taxa de encargos atual, o endividamento cresce rapidamente. Se não tomarmos providências logo, podemos enfrentar um colapso. Enfrentamos dificuldades, especialmente com o Ministério da Fazenda, que alega falta de recursos. Se enfraquecermos o agro agora, teremos efeitos irreversíveis.
Uma das grandes reclamações de parcela significativa do agro é que o seguro rural não avançou. Além disso, o governo contigenciou R$ 461,7 bilhões. Como enxerga essa questão em um ano com a previsão de um Super El Niño?
Bortolozzo: Hoje, pedimos 4 bilhões de reais para subvenção de seguro agrícola. É importante porque você não consegue estruturar um seguro sem uma base econômica. Isso atenderia especialmente o pequeno e médio produtor, que corre risco em uma única propriedade. Os grandes produtores têm outras formas de se proteger, mas o pequeno depende do seguro. No ano passado, o governo liberou apenas 1 bilhão, e no final ainda foi contingenciado para 500 milhões. Hoje, apenas 3% da área plantada está segurada. Estamos procurando mecanismos, trabalhando com a Febraban e bancos para criar contratos de seguro de crédito rural com apólices simples e tratamento diferencial quanto à exigibilidade. Mas a dificuldade maior está na subvenção. Para avançar, é preciso vontade política. Pedimos 4 bilhões, conseguimos apenas uma fração.
O senhor falou da questão do seguro e do endividamento e estamos a poucos dias do lançamento do Plano Safra. O governo sinalizou que pode ser um volume de até R$ 550 bilhões. Esse montante é suficiente?
Bortolozzo: Resolveria se fosse de fato um recurso do governo, entregue de forma obrigatória, por exemplo. No ano passado foram cerca de R$ 500 bilhões, mas o que faz diferença mesmo são os bancos. Quem executa o Plano Safra hoje são os bancos, com recursos próprios, e o governo entra apenas com recursos controlados, principalmente para subvenção. Para ter ideia, ano passado o orçamento previsto era de 26 bilhões, mas o governo liberou apenas 16 bilhões. O restante vem de negociação com recursos livres dos bancos. Então não é um plano de safra completo. Além disso, fazer isso anualmente não funciona mais. O ideal seria um planejamento quinquenal, para que o produtor saiba antecipadamente o que será financiado, possibilitando investimento e continuidade da produção. Hoje, para plantar uma safra em todo o Brasil, seriam necessários cerca de 1,5 trilhão de reais. Grande parte disso vem de trading, CPR, fornecedores de insumo e comercialização antecipada. O Plano Safra, como é hoje, não atende mais. É preciso mudar, com planejamento de médio e longo prazo e alocação de recursos no orçamento da União.
Muitos produtores criticam o governo por juros altos e dificuldade de crédito. Essas críticas fazem sentido na sua avaliação? Em que o governo acertou e errou nos últimos quatro anos?
Bortolozzo: Sabemos que as prioridades do governo são limitadas, principalmente com contas desajustadas. O agro gera emprego e representa praticamente 30% do PIB, mas ainda assim não é visto como prioridade. Alguns produtores querem que o governo funcione bem para atender o setor, outros veem uma questão política e sentem que não há atenção suficiente. Houve avanços, especialmente na questão de sanidade e abertura de mercados de exportação, com grande competência em setores como proteína, café e mal. Abrimos muito mercado com a ajuda do governo e tivemos boa relação internacional. Mas, internamente, em assuntos como seguro agrícola e liberação de recursos, as pautas são muito lentas. Relações com o governo nesse aspecto são falhas, e por isso o setor critica bastante, entendendo que não somos prioridade.
O senhor falou muito dessa questão interna do Brasil, mas a geopolítica não está das melhores, com duas guerras acontecendo ao mesmo tempo, o que deixa o agro em alerta. Existe alguma forma de o setor se precaver ou mitigar esses impactos?
Bortolozzo: O principal é continuarmos sendo competidores fortes. A política global está conturbada, mas precisamos lembrar como o mundo nos vê. O agro brasileiro às vezes se valoriza demais por sermos chamados de “celeiro do mundo”, mas representamos cerca de 8% da comida produzida globalmente. O que importa é que o Brasil é visto como referência em segurança alimentar e sustentabilidade. Temos alta tecnologia, terras disponíveis e aumentamos a produtividade sem desmatar mais. Nossa posição no mercado internacional, especialmente frente à União Europeia, nos coloca como um competidor relevante. Podemos produzir duas a três safras por ano, então precisamos manter essa vantagem e continuar sendo vistos como essenciais para a segurança alimentar global.
Mas mesmo assim os EUA querem implementar novas tarifas que podem mexer com o agro brasileiro, certo?
Bortolozzo: O que acontece com a sessão 301 é uma questão delicada. Esse julgamento é específico para o Brasil, mas, na prática, trata-se de tarifas que os EUA aplicam para proteger interesses comerciais deles. O Brasil produz e preserva muito, e mesmo assim enfrentamos acusações sobre desmatamento ilegal. Temos um código florestal rigoroso e somos grandes produtores e exportadores de grãos. Isso gera interesse comercial e, portanto, incomoda alguns setores nos EUA. As acusações sobre trabalho forçado ou desmatamento em produtos como café, carne e suco de laranja têm um viés comercial claro. O objetivo é proteger o negócio americano, não necessariamente punir o Brasil.
Há também a questão da moratória da soja, especialmente em Mato Grosso. Isso representa um problema para o Brasil?
Bortolozzo: É potencializado, mas menos de 5% da soja brasileira está dentro das áreas afetadas. O desmatamento ilegal deve ser combatido, mas a exceção não pode ser usada contra todo o setor. É importante manter o foco na competitividade e nas relações internacionais.
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