Agroindustrialização movimenta R$ 144 bi e consolida modelo usado em SC
A imagem mais associada à competitividade do agronegócio brasileiro costuma ser a das grandes plantações de soja, da pecuária em escala e das extensas áreas produtivas. Mas não é apenas nas grandes propriedades que se constrói eficiência no campo. Um estudo divulgado nesta quinta-feira, 28, em Florianópolis, mostra que Santa Catarina consolidou um modelo próprio de cadeia produtiva, que vai da pequena propriedade à indústria, passa pela tecnologia e chega ao mercado externo.
As conclusões integram o Mapa do Agro Catarinense 2026, lançado pela Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina (FACISC). Segundo o levantamento, SC tem hoje o 5º maior agronegócio do Brasil, movimenta R$ 144 bilhões e lidera o país em agroindustrialização entre os grandes estados produtores.
O setor responde por 35% da economia estadual, reúne cerca de 470 mil empresas, emprega 1,6 milhão de pessoas e gera R$ 12 bilhões em arrecadação.
O estudo também aponta liderança nacional em pelo menos 12 segmentos produtivos. O estado responde por 50% da produção brasileira de maçã, 23% da produção nacional de carne suína, 86% da produção de ostras, vieiras e mexilhões, 44% das conservas de peixe e 64% do alvejamento e tingimento de fios e tecidos.
A presença de setores como têxtil, papel, máquinas para alimentos, alevinos, ovos de codorna, maracujá e pêssego amplia a leitura sobre a força produtiva catarinense.“Santa Catarina disputa espaço com estados muito maiores em território e extensão agrícola. Mesmo assim, o estado aparece entre os líderes nacionais graças à força da agroindústria, da tecnologia, da produtividade e da capacidade empreendedora do produtor catarinense”, afirma Elson Otto, presidente da FACISC.
A posição catarinense chama atenção pela diferença de escala territorial em relação a outros grandes polos do setor no Brasil. O estado tem cerca de 95,7 mil km², área inferior à de unidades da federação reconhecidas pela força em grãos e pecuária, como Mato Grosso, com aproximadamente 903 mil km²; Goiás, com 340 mil km²; e Bahia, com 564 mil km². Mesmo dentro do Sul, SC é menor que o Paraná, com 199 mil km², e o Rio Grande do Sul, com 282 mil km².
Mais do que o tamanho absoluto, o levantamento mostra a especificidade desse modelo. O estado não disputa espaço apenas pela quantidade de terra, pelo volume de grãos ou pela extensão de lavouras. A cadeia produtiva local se apoia em agregação de valor, diversificação, produção industrial, exportação e tecnologia aplicada.
Em SC, essa cadeia inclui proteína animal, frutas, pesca, maricultura, alimentos processados, máquinas, papel, confecção e tecnologia. Essa diversidade reduz a dependência de uma única cultura ou da produção de commodities e permite ao estado atravessar ciclos econômicos distintos com mais resiliência.
O principal diferencial revelado pelo estudo está na agroindustrialização. SC tem a maior participação da agroindústria entre os grandes estados produtores brasileiros. Enquanto unidades da federação como Mato Grosso e Goiás concentram sua força na produção primária, 40% do agronegócio catarinense está ligado diretamente à indústria.
Segundo o diretor de Agronegócio e Ferrovias da FACISC, Lenoir Broch, o estado construiu uma lógica própria dentro da economia rural brasileira.“O estado não apenas produz, mas industrializa, exporta, desenvolve tecnologia e gera empregos em toda a cadeia produtiva. Isso torna o agro catarinense mais diversificado e resiliente”, destacou Broch.
A força do setor também aparece no mercado de trabalho. SC tem a 6ª maior quantidade de trabalhadores do agronegócio brasileiro, com 1,6 milhão de pessoas ocupadas. Na última década, o crescimento do emprego nessa cadeia foi de 19%, o terceiro maior avanço do país.
Quando o indicador é ajustado pela população, o estado lidera o ranking nacional: são 195 trabalhadores no agronegócio a cada 1.000 habitantes. O dado reforça uma característica central da economia local: essa atividade não está restrita ao campo. Ela atravessa a indústria, os serviços, a logística, a tecnologia, o comércio exterior e a rede empresarial distribuída pelas regiões.
Recorde nas exportações
No comércio exterior, o desempenho também foi recorde. O agronegócio catarinense alcançou US$ 8,4 bilhões em exportações em 2025, o maior valor histórico para o setor no estado. SC aparece como o 8º maior exportador do agronegócio brasileiro. Quando o recorte considera apenas a agroindústria, passa a integrar o grupo dos cinco maiores exportadores do país.
O resultado ocorreu mesmo em um ambiente de pressão externa, marcado por tarifaço dos Estados Unidos e embargos chineses à proteína animal. Ainda assim, a economia catarinense ampliou vendas para mercados da América do Sul e do Oriente Médio e retomou níveis relevantes de exportação para Oceania, Europa e África.
A posição no comércio internacional não se limita às exportações. O estado também ocupa a 2ª posição nacional nas importações do agronegócio, com US$ 7,3 bilhões em compras internacionais. É um importante ponto de entrada de insumos industriais e fertilizantes, não apenas para abastecer a produção local, mas também para atender outras regiões do país.
Segundo o estudo, SC responde por 13% das importações nacionais do setor, o que reforça seu papel logístico e industrial dentro da engrenagem produtiva brasileira. Para a economista da FACISC, Mariana Guedes, a capacidade de competir em diferentes mercados está diretamente ligada à diversidade produtiva e ao peso da indústria nas cadeias ligadas ao campo.
“O diferencial está na diversidade produtiva e na capacidade de industrialização. Todas as regiões do estado se destacam na produção nacional em vários setores, o que amplia a competitividade internacional e faz o estado se beneficiar de diferentes ciclos econômicos, com a capacidade de atender vários mercados ao mesmo tempo, com altas exigências sanitárias e qualidade ímpar”, afirmou Mariana.
Outro ponto destacado pelo Mapa do Agro é o avanço tecnológico. O estado tem 85 startups agtechs e ocupa a 7ª posição nacional no segmento. Quando o recorte considera apenas empresas que comercializam softwares para o setor, SC sobe para a 4ª posição no país, atrás apenas de São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco.
A leitura da FACISC é que o ecossistema catarinense de inovação se diferencia pela especialização em problemas reais dos produtores. As startups estão distribuídas em diferentes regiões, acompanhando a diversidade produtiva local. Entre os polos de destaque estão Florianópolis, Lages, Chapecó, Concórdia e Joinville.
Esse avanço ajuda a inserir a economia catarinense em uma agenda cada vez mais estratégica para o agronegócio global: a combinação entre produtividade, rastreabilidade, gestão de dados, automação, softwares, biotecnologia e sustentabilidade. Em um setor pressionado por custos, exigências sanitárias, mudanças climáticas e competição internacional, tecnologia passa a ser um componente central da competitividade.
Clima e logística preocupam
O estudo, no entanto, também aponta gargalos. Eventos climáticos, dificuldades logísticas e custos elevados de produção fizeram o estado perder posições nacionais no valor pago ao produtor em culturas como cebola, pêssego, alho, tomate, milho e uva.
A FACISC avalia que SC precisa avançar em políticas de prevenção climática, infraestrutura, logística e acesso a novos insumos, inclusive biotecnológicos. O relatório também chama atenção para a necessidade de reduzir a dependência de matérias-primas sujeitas a forte oscilação no mercado internacional.
Para Lenoir Broch, o desempenho local mostra que ainda há espaço para avançar se forem destravados investimentos em infraestrutura, inovação, logística e apoio ao pequeno produtor.
A leitura final do estudo é que SC criou um modelo próprio dentro da economia rural brasileira.“Não é o sistema da terra infinita, nem apenas o da produção de commodities. É uma estrutura de pequenas propriedades, agroindústria forte, cadeias diversificadas, exportação, tecnologia e emprego”, finaliza Broch.
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