Além da Copa: por que cada vez mais marroquinos estão escolhendo o Brasil?
O primeiro desafio da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo de 2026 foi enfrentar o atual campeão da Copa Africana das Nações, o time de Marrocos. O empate de 1 a 1 deixou a impressão de superioridade dos marroquinos, cujas torcida e diáspora vibravam em todo o mundo.
Inclusive no Brasil. Em bares na região central de São Paulo, misturados entre as camisas amarelas, alguns torcedores vestiam vermelho e verde. A presença deles foi recebida, em grande parte, com bom humor pelo torcedor brasileiro, exceto por gritos e xingamentos quando o time africano acertou a rede brasileira ainda no primeiro tempo do jogo.
Entre eles estava o casal marroquino Afaf e Mushi, que mora em Diadema, na Grande São Paulo, região onde dizem viver com diversos compatriotas. Eles foram torcer pela seleção do país no Bar do China, no Anhangabaú, mas Afaf deixou claro que "se o Marrocos não avançar na Copa, fico com o Brasil".
Mushi: torcedor marroquino mostra com orgulho sua camisa oficial da seleção (Paloma Lazzaro / EXAME)
Ela é enfermeira e chegou ao país há cinco meses. A mudança de perspectiva, conta, foi imediata. "No Marrocos, tínhamos uma ideia diferente do Brasil, achávamos que não era seguro. Mas quando vim e conheci as pessoas daqui, mudei tudo o que pensava."
O marido compartilha do mesmo sentimento: ele gosta das pessoas, do clima, da igualdade que percebe no dia a dia. Os dois já decidiram que vão ficar. "Queremos ter filhos aqui", afirma Mushi.
A poucos quilômetros dali, no bar O Mineiro, outro marroquino destoava do mar de camisas amarelas que ocupavam os espaços da proximidade das ruas Matias Aires e Augusta, na Consolação. Mehdi Moufdi, jovem de 23 anos que mora em São Mateus, na Zona Leste de São Paulo, tem no futebol um dos principais motivos para a vinda ao Brasil há nove meses.
"Quando eu era criança, gostava muito do Brasil por causa do futebol. O Brasil é o melhor no futebol", afirma. Corintiano convicto, uma de suas inspirações é o atacante Zakaria Labyad, marroquino que atua no Timão.
Camisa do Marrocos: vestida por Mehdi, a peça de roupa causou controvérsia no bar durante confronto no mundial da Fifa (Paloma Lazzaro / EXAME)
Ele trabalha hoje em logística numa empresa parceira do Mercado Livre e sonha em se tornar motorista de caminhão, percorrendo outras cidades. "Tenho habilitação de todas as categorias. Quero trabalhar com caminhão grande, conhecer outros lugares", afirma.
Histórias como as deles fazem parte de uma migração marroquina ao Brasil que, embora recente, cresce de forma acelerada nos últimos três anos. O ano de 2025 marcou o maior fluxo de imigrantes do país norte-africano, com uma alta de 80% em relação ao ano anterior.
Por que o Brasil?
A resposta que emerge das conversas com os marroquinos tem múltiplas camadas. Há o peso simbólico, como o Brasil do futebol, que Mehdi já amava desde criança em Marrocos.
Outro fator citado, tanto pelo jovem quanto pelo casal, é a imagem de um país aberto e acolhedor, que contrasta com a postura hostil à imigração norte-africana que se vê no sul da Europa, principal destino histórico para migrantes marroquinos.
Mehdi, que diz "complementar a renda" com apostas online, vê no Brasil uma terra de possibilidades, mesmo com as dificuldades do idioma. Nascido em Casablanca, filho de um pai francês e mãe marroquina, ele já morou na Turquia, em Catar e na Espanha. Sua irmã foi viver na França, mas ele escolheu sair do eixo da Eurásia sobretudo por afinidade ao Brasil.
Há, também, o contato com a realidade árabe de São Paulo, cidade que tem uma das maiores comunidades de origem árabe fora do mundo árabe, sobretudo de países do Levante como Líbano e Síria.
"Aqui em São Paulo tem muito árabe, tem de todos os países", diz Mehdi. Ele explica que, para quem chega falando árabe e francês, as línguas oficiais no Marrocos, a existência de redes de compatriotas e de outras comunidades árabes facilita a adaptação.
Afaf menciona a associação de marroquinos no bairro onde mora com o marido. "Tem muito marroquino lá. Estamos com uma associação", diz. A comunidade funciona como ponto de apoio na adaptação para o casal.
Há, porém, um perfil que os próprios imigrantes reconhecem com desconforto. "No Marrocos, temos três tipos de pessoas que vêm ao Brasil", diz Afaf. "Tem quem trabalha e tem estudante. Há também o terceiro tipo, que não é bom, que vem só pelos documentos, faz o passaporte e vai para a Europa." A rota Brasil-Europa via regularização migratória é conhecida entre os marroquinos.
Em suma, ao virem ao Brasil e regularizar sua estadia no país por meio de documentos como o CPF e o passaporte, a entrada em diversos países europeus se torna mais fácil, contam membros da comunidade marroquina. Afinal, mesmo com a nacionalidade e cidadania marroquina, o status de residente brasileiro pode auxiliar no acesso à Europa — por aqui, pode-se passar 90 dias nos 29 países do Espaço Schengen sem necessidade visto.
Migração recente, com destaque no pós-pandemia
Existem 5.108 marroquinos residentes no Brasil, de acordo com dados da Polícia Federal compilados pelo Observatório das Migrações da Unicamp (NEPO). Boa parte deles vive no estado de São Paulo (2.644), com comunidades significativas também no Paraná (494) e no Rio de Janeiro (485).
Os registros mostram que essa presença é um fenômeno bastante recente. Ao longo de toda a década de 2000, o fluxo era marginal, entre 30 e 55 registros por ano.
O primeiro salto relevante veio em 2009, com 109 chegadas. A partir de 2014, os números começaram a subir de forma consistente: 161 registros naquele ano, chegando a 253 em 2019. Afaf diz que 2019 foi o ano em que percebeu mais pessoas saindo do Marrocos e vindo morar no Brasil.
No entanto, a pandemia freou o movimento em 2020 (102 registros), mas a retomada foi vigorosa. Em 2021 foram 317 chegadas, 540 em 2022, 498 em 2023 e 620 em 2024.
O maior salto ocorreu no ano passado, com 1.117 imigrantes marroquinos chegando ao Brasil. Foi quase o dobro de 2024 e o maior número já registrado em um único ano, segundo os dados da Polícia Federal compilados pelo NEPO.
Na capital paulista, os marroquinos foram o sétimo grupo migrante com mais atendimentos realizados pelo Centro de Referência e Atendimento para Imigrantes (CRAI) entre 2020 e 2024, com 716 atendimentos. Em 2025, foram 341 registros.
O número é baixo ao ser comparado com os 5,6 mil angolanos atendidos pelo serviço, a nacionalidade com mais registros. Porém, a quantidade de atendimentos a marroquinos é maior que a migrantes de países como Nigéria, Peru e Afeganistão, que também registraram altas migratórias na capital nos últimos anos.
Apesar desse cenário de grande imigração africana para São Paulo, o continente como um todo tem o menor influxo de migrantes ao Brasil, com 121 mil chegadas entre 2000 e 2025, de acordo com os dados da Polícia Federal. Comparativamente, a América do Sul registrou 1,5 milhão de imigrantes chegando ao país.
Homens, solteiros e jovens
O perfil dessa comunidade é majoritariamente masculino, com 74,16% dos registros correspondendo a homens, ante 25,84% de mulheres.
Em termos de faixa etária, a concentração está entre 25 e 40 anos (1.779 pessoas), seguida pela faixa de 15 a 25 anos (851). Trata-se, portanto, de uma imigração predominantemente jovem e em idade produtiva. Entre os adultos com estado civil informado, os solteiros são maioria (2.755), seguidos pelos casados (2.014).
As ocupações mais frequentes, segundo os registros, são as classificadas como "outra ocupação não classificada" (2.062), além de estudantes (573) e pessoas sem ocupação declarada (438).
O perfil de Afaf e Mushi foge parcialmente desse padrão. Enquanto a maioria dos registros corresponde a homens jovens, o casal representa uma migração familiar e profissional, com Afaf já inserida no mercado de trabalho formal como enfermeira.
Mehdi, por outro lado, se aproxima mais do perfil predominante. É jovem, solteiro e chegou ao Brasil buscando oportunidades profissionais.
Juntos, eles representam uma diáspora pouco conhecida do público brasileiro, que vê no nosso país um lugar para prosperar.
"O Brasil me deu muito depois do meu país", afirma Afaf.
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