Além da fruta: como a The Natural One transformou a laranja em R$ 2,5 bilhões

Por César H. S. Rezende 5 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Além da fruta: como a The Natural One transformou a laranja em R$ 2,5 bilhões

Quando a The Natural One foi criada, há dez anos, o brasileiro até tomava suco de laranja, mas quase sempre espremido em casa. Nas prateleiras dos supermercados, quem dominava eram os néctares e refrescos. O paradoxo chamava atenção: o Brasil era — e ainda é — o maior produtor e exportador de suco de laranja do mundo, mas o consumo de suco integral industrializado ainda era incipiente, diz Rafael Ivanisk Oliveira, CEO da companhia.

Agora, a empresa quer dar um novo salto. A The Natural One projeta encerrar 2026 com faturamento de R$ 1,25 bilhão, alta de 20% em relação a 2025. Mais adiante, a meta é atingir R$ 2,5 bilhões em receita até 2030, apoiada na expansão para novas categorias de bebidas e no crescimento internacional.

A história da companhia começou com Ricardo Emílio de Moraes, fundador da empresa e executivo que passou mais de 35 anos atuando no setor de suco de laranja. Segundo o executivo, o fundador percebeu que praticamente toda a produção nacional era destinada à exportação e decidiu testar se haveria espaço para um produto premium voltado ao consumidor brasileiro.

A aposta deu certo. Em 2016, a empresa investiu em uma linha de envase asséptico, tecnologia que permite preservar melhor as características da fruta e reduzir a necessidade de intervenções no produto — a partir daí, iniciou uma trajetória de forte crescimento.

Na época, convencer o consumidor não foi simples. O mercado brasileiro ainda tinha pouca familiaridade com a diferença entre suco de laranja integral, néctar e refresco. A empresa precisou investir em campanhas educativas e trabalhar diretamente com redes varejistas para explicar por que um produto 100% fruta custava mais do que as opções tradicionais.

O esforço coincidiu com uma mudança de hábitos dos consumidores. A busca por alimentação saudável ganhou força nos últimos anos e acelerou a expansão da categoria. Quando a companhia iniciou suas operações, os sucos integrais representavam cerca de 5% do mercado brasileiro. Hoje, essa participação já alcança aproximadamente 45%.

Atualmente, a The Natural One afirma liderar o segmento de sucos 100%, com participação de mercado de 26%, e distribui seus produtos em cerca de 90 mil pontos de venda no país. Mas o próximo passo da companhia é ir além dos sucos.

“A gente está tentando transformar a empresa de uma companhia de sucos naturais em uma companhia de bebidas naturais”, afirma Oliveira.

Recentemente, a empresa lançou a linha Flash, de bebidas de baixa caloria, que já supera 1 milhão de litros vendidos por mês apenas cinco meses após chegar ao mercado. A companhia também trabalha no desenvolvimento de bebidas proteicas, produtos prebióticos, chás e até refrigerantes naturais.

A expansão passa ainda pelo exterior. Hoje, a marca exporta para 11 países, com destaque para Canadá, Chile e México. Os próximos mercados prioritários são Estados Unidos e China, considerados estratégicos para o crescimento internacional da empresa.

O desafio do greening

Se o mercado oferece oportunidades, o campo impõe desafios. A principal preocupação da companhia hoje está na produção de laranja, pressionada pelo avanço do greening, doença considerada a maior ameaça à citricultura mundial.

Transmitido por um inseto, o greening compromete a produtividade dos pomares e não possui cura. O problema vem reduzindo a oferta de laranja no cinturão citrícola brasileiro e contribuindo para a volatilidade dos preços da fruta nos últimos anos.

A safra de laranja do cinturão citrícola de São Paulo e do Triângulo/Sudoeste Mineiro — principal região produtora do país — deve registrar queda de 13% na temporada 2026/27 em relação ao ciclo anterior, somando 255,2 milhões de caixas de 40,8 quilos, segundo projeção do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus). Uma das razões apontadas é a questão climática e o greening.

Para reduzir a exposição ao problema, a The Natural One iniciou um processo de verticalização da produção. Em 2025, a empresa adquiriu cerca de 6 mil hectares de pomares de laranja e ampliou investimentos em irrigação. Hoje, aproximadamente 75% das áreas da companhia já contam com sistemas irrigados.

A estratégia inclui também a diversificação geográfica dos plantios. Tradicionalmente concentrada em São Paulo, a expansão dos pomares passou a ocorrer em Minas Gerais, especialmente na região da Canastra, onde a incidência de doenças cítricas é menor e as condições climáticas são consideradas mais favoráveis para a cultura.

Segundo Oliveira, além do greening, os eventos climáticos extremos têm se tornado um fator cada vez mais relevante para a produção. Em algumas safras recentes, o impacto do calor excessivo sobre os pomares foi até maior do que o provocado pela doença.

"O maior desafio hoje na laranja, sem dúvida nenhuma, é o greening. E não é só o greening, é o clima. São as duas coisas", afirma Oliveira.

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