Análise: Londres e a semana do clima travada pelo clima
Um painel dedicado a discutir os impactos do calor extremo durante a London Climate Action Week (LCAW), hoje um dos encontros mais relevantes do calendário climático global, foi cancelado em cima da hora. O motivo? O prédio onde aconteceria o evento estava quente demais.
Não se trata apenas de uma ironia logística. A LCAW reúne governos, empresas, setor financeiro e sociedade civil para definir os rumos da ação climática. Nesta edição, alcançou seu maior tamanho: mais de 75 mil participantes em 1,3 mil eventos.
Agora, o episódio sintetiza o que a semana tornou ainda mais evidente sobre o estado da adaptação climática: o futuro para o qual ela foi convocada a planejar chegou antes da conta. E a infraestrutura montada para debatê-lo não aguentou.
O evento desmarcado seria na centenária biblioteca da London School of Economics (LSE) que, como boa parte das construções britânicas, depende de ventilação natural e ventiladores na ausência de ar-condicionado.
Organizado pelo Grantham Research Institute, da LSE, com a Zurich Climate Resilience Alliance, foi cancelado por risco à saúde pública e pelo alerta vermelho de calor extremo do Met Office.
Embora esse tenha sido o caso de maior repercussão, não foi o único. Multiplicam-se os relatos de quem desistiu de sessões porque o transporte público londrino entrou em colapso parcial. No calor extremo, os trilhos se deformam, o que tem obrigado as operadoras a reduzir a velocidade dos trens e a cancelar viagens.
"Nossa infraestrutura não está preparada para esta temperatura", disse uma especialista em infraestrutura no meio da conferência, em uma declaração que carrega mais peso do que qualquer projeção.
Adaptação para hoje, eletrificação para amanhã
Ainda antes do pico do calor, o debate climático já havia mudado de natureza: não se tratava mais de convencer alguém de que a transição importa, mas de destravar o que a atrasa.
A lentidão e a falta de priorização da adaptação viraram um gargalo operacional, exposto em uma das capitais mais ricas do mundo.
Ficou claro, então, que a emergência que travou os eventos é de adaptação e de curto prazo. As cidades europeias, como resumiu Helen Clarkson, CEO do Climate Group, à Reuters, "não foram construídas para isto".
A imprensa fez a mesma leitura. A revista Wired chamou os cancelamentos de "exemplo de manual" de um mundo forçado a se adaptar ao calor extremo, e editoriais de Guardian, Independent e Le Monde cobraram planos de adaptação que, nas palavras do diário britânico, estão "perigosamente atrasados".
Contudo, a entrega concreta que a LCAW de fato produziu segue postergando soluções ao mirar o longo prazo.
Nos últimos dias, dezenas de governos liderados por União Europeia e Reino Unido comprometeram-se a apoiar uma eletrificação acelerada da economia,enquanto as estratégias de adaptação, que enfrentariam o problema imediato, ficaram à margem da agenda.
Na quarta-feira (24), mesmo dia em que vigorava o alerta vermelho de calor extremo e o Parlamento votava o sétimo orçamento de carbono, poucos dias após a renúncia do primeiro-ministro Keir Starmer, o Comitê de Assessoria Climática (CCC) do governo britânico lançou seu relatório de progresso.
Nele, defende que acelerar a eletrificação é o caminho mais curto para contas de energia menores e maior segurança energética; um argumento de custo e autonomia, não um apelo ambiental abstrato.
A palavra "eletrificação" aparece muito mais vezes que em edições anteriores, sinal de uma guinada de prioridade. E a presidência da COP31 defende uma meta global de 35% da energia final vinda da eletricidade até 2035.
São respostas robustas para a pergunta de amanhã. A de agora segue descoberta.
O custo já é mensurável
A defasagem tem seu preço já em muitas pontas. Do lado da inação, cada grau acima de 30°C custa cerca de US$ 1,30 por trabalhador a cada hora de produtividade perdida, segundo a Allianz Trade.
O verão passado retirou 43 bilhões de euros da produção europeia. E as crises de estresse térmico ficaram sete vezes mais frequentes desde os anos 1980, com a mortalidade quintuplicando a cada episódio.
Do lado da oportunidade, a Global Cooling Initiative, do Pnuma, projeta poupar até US$ 43 trilhões em energia e infraestrutura e proteger três bilhões de pessoas até 2050.
É o tipo de cálculo que desloca a adaptação do campo moral para o da gestão de risco - exatamente onde Laurence Tubiana, arquiteta do Acordo de Paris, vinha posicionando o debate durante a semana ao cobrar "seriedade política e institucional à altura do problema".
A ciência fecha o cerco, em tempo real
Em geral, atribuir uma onda de calor à mudança climática leva anos de estudo. Desta vez, a resposta veio com o calor ainda em curso.
Em um estudo rápido publicado nesta sexta-feira (26), o World Weather Attribution (WWA) classificou a onda como a mais severa já registrada na Europa para o mês e a atribuiu, sem meias palavras, à queima de combustíveis fósseis.
Meio século atrás, um evento semelhante teria sido cerca de 3,5°C mais frio. E as temperaturas vistas nos últimos dias seriam, segundo os cientistas, "virtualmente impossíveis".
O calor noturno, o mais perigoso porque impede o corpo de se recuperar, está hoje cerca de cem vezes mais provável do que em 2003, ano da onda que matou mais de 70 mil pessoas na Europa.
As máximas diurnas, cerca de dez vezes. O estudo mediu ainda o estresse térmico em 854 cidades de 30 países europeus e constatou que 45% delas já bateram, ou devem bater, seu recorde de junho para o indicador.
Os recordes registrados em muitas outras regiões do continente confirmam a severidade apontada pelo estudo.
A França teve seu dia mais quente já registrado em jornadas consecutivas, com 44,3°C em Pissos e a noite mais quente desde 1947; o primeiro-ministro Sébastien Lecornu acionou o nível máximo de mobilização sanitária.
O Reino Unido bateu seu recorde de junho em três dias seguidos. O Met Office chegou a prever até 39°C,e a marca chegou a 36,9°C em Wattisham, no dia 26, superando os 35,6°C de Southampton, de 1976.
Também nesta sexta, a Holanda emitiu alerta vermelho inédito, a Suíça registrou recorde de junho em Basileia e o "Omega block" - o bloqueio atmosférico que aprisiona o ar quente - começava a migrar para o leste, com a Organização Meteorológica Mundial (OMM) projetando o foco do calor nos Bálcãs nas próximas semanas.
A própria OMM lembra o pano de fundo: a Europa é o continente que mais rapidamente aquece, a mais que o dobro da média global.
O teste vem depois da semana
Sob esse termômetro, a edição recorde da LCAW funciona como um teste de estresse do próprio setor climático. A maior reunião já feita sobre cooperação climática precisou mover painéis para o online e cancelar debates sobre calor por causa do calor.
Presente na semana, Ana Toni, CEO da COP30, faz a leitura oposta, de que a adesão à pauta segue firme, e vê na edição recorde a prova disso. Mas os percalços reforçam a parte mais incômoda do argumento que atravessou a semana.
O obstáculo não é técnico nem de conhecimento. Já se sabe o que fazer e existem as ferramentas para isso. A LCAW se encerra no domingo (28), mas o que separa o compromisso retórico da entrega concreta só aparecerá nos próximos meses, na esteira que leva à COP31.
Até lá, entre as muitas questões que ficam ainda mais latente estão a dúvida sobre se compromissos de eletrificação se converterão em financiamento e prazos concretos antes da conferência; se a adaptação ganhará finalmente o mesmo peso político que a mitigação.
E, num espectro mais amplo, se as cidades europeias chegarão ao próximo verão menos despreparadas do que estiveram nesta semana.
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