Aos 100 anos, indústria têxtil de SC tem plano para sair da crise e faturar R$ 550 milhões

Por Daniel Giussani 11 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Aos 100 anos, indústria têxtil de SC tem plano para sair da crise e faturar R$ 550 milhões

Depois de ter a falência cancelada pela Justiça, a fabricante catarinense de artigos para cama, mesa e banho Teka vai finalmente reunir seus credores para discutir seu futuro.

A reunião está prevista para as próximas semanas e será a primeira assembleia em muito tempo. A indústria de Blumenau, cidade a 160 quilômetros de Florianópolis, está em recuperação judicial desde 2012. Em 2025, teve a falência decretada pela Justiça. Mas o processo sofreu um revés e a falência foi revogada.

Agora, a Teka completa 100 anos em 2026 e fabrica artigos têxteis em duas plantas, em Blumenau (SC) e Artur Nogueira (SP). Sustenta cerca de 1,5 mil empregos diretos e quase 2 mil pessoas ao todo, somando terceirizados, aprendizes e representantes.

Carrega um passivo que ultrapassa 3,5 bilhões de reais — mas o número, segundo a empresa, não reflete a realidade econômica do negócio, porque foi apurado antes das renegociações em andamento. É o que disse o CEO Rogério Marques em um encontro com jornalistas nesta semana.

A coletiva em que a empresa detalhou esse plano aconteceu logo após a decisão da 2ª Câmara de Direito Comercial do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, que por unanimidade afastou a falência e determinou a continuidade da recuperação judicial. O CEO, Rogério Marques, apresentou os próximos passos: o plano de recuperação foi protocolado em dezembro de 2025, as tratativas com os principais credores estão avançadas, e a assembleia geral de credores — a primeira em quase 14 anos de processo — deve ser convocada em breve.

"Em certa condição temos a marca, temos a gente, temos o produto e agora temos a Justiça reconhecendo a realidade de que a Teka deve seguir", diz Marques.

O plano que a empresa traçou para os próximos anos projeta um faturamento superior a 550 milhões de reais em 2026, contra cerca de 476 milhões de reais em 2025.

Para chegar lá, a Teka mudou a aposta no meio do caminho: abandonou o plano de complementar a produção com produtos importados e redirecionou o foco para a própria fábrica, nas linhas de maior valor agregado. A decisão, afirma a empresa, foi consciente: crescer com margem, não com volume a qualquer custo.

Rogério Marques, CEO da Teka: "Em certa condição temos a marca, temos a gente, temos o produto e agora temos a Justiça reconhecendo a realidade de que a Teka deve seguir" (Teka/Divulgação)

Como foi a virada na estratégia

O plano original da Teka previa complementar a produção interna com a venda de produtos importados, naquilo que excedesse a capacidade das fábricas.

O cenário, porém, mudou. O conflito no Estreito de Ormuz — rota marítima estratégica no Golfo Pérsico por onde passa parte do comércio global — pressionou os custos de frete. E os preços de matérias-primas como algodão e poliéster subiram mais de 20%.

Com importar deixando de compensar, a empresa virou a chave para a produção própria, concentrada nos segmentos profissional e nas linhas de maior valor agregado.

"Foi uma escolha consciente, crescer com qualidade, não com volume a qualquer custo", afirma Marques. Hoje, segundo a companhia, os importados representam menos de 2% das vendas — restritos a produtos que a Teka não consegue fabricar internamente, como a microfibra.

A aposta tem um custo: o crescimento fica mais lento no papel. Os contratos nas linhas profissionais e no segmento hospitalar ganham força no segundo semestre e a partir do ano seguinte, segundo a empresa.

"É um crescimento que parece mais lento no papel hoje, mas é o que paga credores e sustenta a empresa para as próximas décadas", diz o CEO.

A aposta no mercado hospitalar

Um dos pilares do plano é o segmento hospitalar, em que a Teka já atuava, mas com limitação. As redes, mesmo privadas, exigem regularidade fiscal dos fornecedores — uma barreira para uma empresa em recuperação judicial com passivo tributário relevante.

Para contornar isso, a Teka criou uma nova empresa, a Teka Trading, voltada à gestão logística e de cargas.

A estrutura está habilitada e já certificada em duas das maiores redes hospitalares do país, segundo a companhia. A expectativa é capturar parte desse volume no segundo semestre de 2026, período que historicamente é mais favorável para o setor profissional.

A nova operação logística tem um centro de distribuição no interior de São Paulo, que armazena a produção das duas fábricas e opera com frota própria. Segundo a empresa, a posição permite entregar a clientes em raio de centenas de quilômetros, em alguns casos no dia seguinte, com custo de frete menor.

Os investimentos nas fábricas

A Teka diz ter investido cerca de 37,5 milhões de reais na modernização das duas plantas, com boa parte dos recursos vindo de uma operação de arrendamento com fornecedores — três anos de pagamento e opção de compra ao final. A lógica, segundo a empresa, é que os investimentos se paguem com o próprio ganho de produtividade e redução de custos.

Em Artur Nogueira (SP), a capacidade produtiva foi ampliada em 44%, com uma linha automatizada de confecção. Em Blumenau (SC), o foco foi a modernização dos equipamentos de beneficiamento e confecção, mirando ganho de eficiência e qualidade.

Cada planta concentra o que faz de melhor: Blumenau em felpudos, toalhas e linhas de banho; Artur Nogueira em tecidos planos. A maior parte dos investimentos já está em operação, e a última etapa deve ser concluída em junho de 2026.

A empresa também abriu uma loja-conceito e lançou um e-commerce próprio, ambos operando desde janeiro de 2026.

A dívida de R$ 3,5 bilhões

O passivo de mais de 3,5 bilhões de reais é o número mais sensível do balanço, e a empresa argumenta que ele não reflete a realidade econômica do negócio, por ter sido apurado antes das renegociações em curso.

O maior passivo é a dívida federal, de cerca de 2,3 bilhões de reais. Segundo a Teka, a renegociação está em estágio avançado e deve reduzir esse valor em mais de 90%, com o uso de prejuízos fiscais previstos na legislação.

A empresa diz seguir em tratativa com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional para fechar esses pontos. Há ainda negociações com o estado de Santa Catarina sobre o ICMS, que dependem da regulamentação de uma lei publicada em agosto, e a regularização do IPTU nas duas cidades onde opera.

Quando esses ajustes forem homologados, afirma a companhia, a fotografia da empresa será melhor do que a do balanço atual. Os efeitos só aparecem nas demonstrações financeiras após a homologação.

A prioridade declarada pela empresa é pagar os trabalhadores. Há um acordo trabalhista homologado nos Tribunais Regionais do Trabalho de Santa Catarina e de São Paulo, de cerca de 70 milhões de reais, com cerca de 18 milhões de reais reservados em juízo, cuja transferência foi solicitada pela Justiça do Trabalho para iniciar os pagamentos.

A Teka diz depositar 500 mil reais por mês para esse fim, e ter vendido um imóvel em Blumenau para acelerar o processo. Outros imóveis atrelados ao acordo trabalhista têm propostas em estágio avançado. Com a decisão que afastou a falência, segundo a empresa, a liberação dos recursos deve ocorrer nos próximos dias.

Um século sob pressão

A Teka chega ao centenário tentando encerrar o capítulo judicial mais longo de sua história.

A empresa nasceu em Blumenau em 1926, cresceu junto com o Vale do Itajaí e chegou a ser uma das maiores fabricantes de cama, mesa e banho da América Latina, antes de a concorrência asiática e os conflitos internos entre acionistas empurrarem a companhia para a recuperação judicial em 2012.

O desafio agora é converter a decisão judicial favorável em aprovação do plano pelos credores e, enfim, no encerramento da recuperação. "Nós estamos nos reestruturando com seriedade e com pressa", diz Marques.

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