Aos 95 anos, imobiliária surfa boom do aluguel diante do juro alto para administrar R$ 55 bilhões
Em um mercado imobiliário com mais de 75 mil imobiliárias no Brasil, a gaúcha Auxiliadora Predial chega aos 95 anos tentando se diferenciar pela escala. Fundada em 1931, em Porto Alegre, a empresa aposta hoje em franquias, tecnologia e serviços integrados para sustentar a expansão em um momento de juros altos e crédito imobiliário mais restrito.
Hoje, a Auxiliadora Predial administra mais de 221 mil portas em condomínios, opera mais de 3,5 mil empreendimentos e possui mais de 115 lojas e franquias espalhadas por Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Segundo a companhia, os ativos administrados somam R$ 55 bilhões.
No primeiro trimestre de 2026, a companhia registrou crescimento de 22% no Valor Geral de Vendas (VGV) e avanço de 30% no Valor Geral de Locações (VGL), com carteira ativa próxima de R$ 32 milhões em aluguéis.
O cenário econômico ajuda a explicar parte desse movimento. Com financiamento mais caro, muitos consumidores migraram para a locação. Segundo Matheus Kurtz, diretor de vendas e franquias da Auxiliadora, empresas que atuam simultaneamente em venda, aluguel e condomínios conseguem atravessar melhor diferentes ciclos econômicos.
"Quando a taxa de juros sobe, a locação cresce mais do que a venda. O brasileiro compra parcela. Então ele compara quanto custa alugar e quanto custa financiar", afirma.
Para crescer, a empresa também aposta na profissionalização e na consolidação do mercado imobiliário brasileiro.
Como um modelo alemão deu certo no Brasil
A história da Auxiliadora Predial começa antes mesmo da existência do financiamento imobiliário no Brasil. Em 1931, os empresários Friedrich Schlander, Otto Heylmann, Pedro Bruno Dischinger e Carlos Germano Luiz Voelcker, fundadores da empresa, trouxeram da Alemanha um modelo de aquisição coletiva de imóveis, que mais tarde se tornaria o consórcio imobiliário.
"A empresa nasceu logo depois da crise financeira americana de 1929. No Brasil não existia financiamento imobiliário. Então os fundadores trouxeram essa ideia de compra coletiva", afirma Kurtz.
O crescimento da operação ocorreu de forma orgânica. Primeiro vieram os serviços de administração de aluguel para clientes que adquiriam imóveis. Depois, nos anos 1940, a companhia entrou na administração de condomínios durante o processo de verticalização das cidades brasileiras.
Hoje, justamente essa vertical é considerada o principal negócio da empresa. A Auxiliadora afirma ter movimentado mais de R$ 500 milhões em pagamentos somente neste ano nos condomínios em que administra.
"Condomínio é uma operação financeira extremamente complexa e que exige muita responsabilidade. A inadimplência aumentou bastante nos últimos anos e isso impacta diretamente a saúde financeira dos condomínios", diz Kurtz.
Qual é a estratégia da Auxiliadora para crescer
O principal vetor de crescimento recente da companhia está nas franquias. A operação começou em 2007, inspirada em modelos de redes imobiliárias dos Estados Unidos. A lógica é transformar imobiliárias locais em unidades conectadas a uma grande plataforma nacional.
Segundo Kurtz, o modelo permite que o franqueado concentre esforços no relacionamento comercial enquanto a estrutura corporativa centraliza processos operacionais, jurídicos, financeiros, marketing e tecnologia.
"Tudo aquilo que pode ser padronizado fica conosco. O franqueado fica livre para fazer relacionamento, conexão local e liderar o time", afirma.
Hoje, 70% da operação de vendas da empresa já acontece via franquias. Na locação, esse percentual gira em torno de 40%. A expansão para condomínios começou no ano passado e é vista internamente como uma das grandes apostas para os próximos anos.
O avanço geográfico acompanha o aquecimento do mercado imobiliário em estados do Sul e Sudeste. Santa Catarina virou um dos principais focos de crescimento da companhia. A operação no estado começou em 2021 e já soma cerca de 28 lojas. No Paraná, onde a primeira unidade foi aberta em maio do ano passado, a rede já opera 11 unidades.
"Santa Catarina vive um boom imobiliário impressionante. O crescimento populacional influencia diretamente o mercado. E a nossa marca já era conhecida por muitos gaúchos que migraram para lá", afirma.
No Rio Grande do Sul, berço da companhia, a Auxiliadora segue concentrando a maior fatia da operação, com mais de 60 franquias. A estratégia da empresa é continuar crescendo principalmente por meio deste modelo. Em cidades estratégicas, a companhia mantém operações próprias como vitrines regionais, mas a expansão ocorre majoritariamente através de parceiros.
O investimento médio para abrir uma franquia da Auxiliadora gira em torno de R$ 200 mil, com prazo médio de retorno estimado em 18 meses.
Escala e tecnologia como diferencial
A rede possui mais de 40 mil imóveis residenciais à venda apenas em Porto Alegre e conecta mais de 1,4 mil corretores. Isso permite que imóveis captados em uma cidade sejam negociados por corretores de outras regiões.
A companhia também monitora indicadores de jornada do cliente, como tempo médio de atendimento e NPS (Net Promoter Score, metodologia usada pelas empresas para medir o grau de satisfação e fidelidade dos clientes). Também usa tecnologia para padronizar processos e concentrar atividades jurídicas, financeiras e operacionais.
O cenário macroeconômico atual ajuda a explicar parte da estratégia da companhia. Com a Selic em patamares elevados nos últimos anos, o financiamento imobiliário ficou mais caro e reduziu o acesso ao crédito para parte da população. Isso impulsionou a procura por aluguel.
Segundo levantamento do FipeZap, os preços médios de locação residencial seguiram em alta em 2025, refletindo justamente o aumento da demanda por aluguel em um contexto de crédito mais caro. Para Kurtz, o diferencial da empresa está justamente na capacidade de operar venda, locação e condomínios de forma integrada.
"Quando o mercado está mais difícil, aparecem os diferenciais de processo, escala e qualidade", afirma.
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