Após início do conflito no Irã, Macron anuncia que a França vai aumentar arsenal nuclear
O presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou nesta segunda-feira, 2, a ampliação de seu arsenal nuclear e a oferta de destacamento temporário de caças com capacidade atômica a países aliados, em uma reconfiguração da arquitetura de defesa europeia.
A iniciativa foi apresentada pelo chefe de Estado em discurso realizado na base de submarinos de Île Longue, na Bretanha.
"O fortalecimento do nosso arsenal é indispensável", afirmou Macron. "Para ser livre, é preciso ser temido, e para ser temido, é preciso ser poderoso."
A sinalização marca uma inflexão na postura histórica da França, que tradicionalmente preserva a autonomia de sua dissuasão nuclear. O contexto envolve os recentes ataques dos Estados Unidos e de Israel no Irã. Além da continuidade da guerra da Rússia contra a Ucrânia, que entra no quinto ano, segundo a Bloomberg.
Trump não indicou a retirada das armas nucleares dos EUA posicionadas na Europa desde a década de 1950, no âmbito da OTAN. No entanto, as incertezas levaram governos europeus a revisar estratégias de defesa e ampliar discussões sobre suas próprias capacidades.
A França é o único país da União Europeia com armas nucleares. O debate recente envolve a possibilidade de ampliar a cobertura da proteção nuclear francesa ao continente. Historicamente, o país não posiciona ogivas em territórios de parceiros nem integra seu arsenal à estrutura de comando da OTAN, o que garante ao presidente francês controle integral sobre qualquer eventual emprego.
Macron declarou que o momento atual requer maior alinhamento entre a dissuasão nuclear francesa e a segurança europeia. Ele mencionou o enfraquecimento de acordos internacionais de controle de armas, a intensificação de conflitos e o aumento do risco de confronto nuclear.
“Sejamos francos”, disse ele. “O campo das regras é um campo de ruínas.”
Aliança nuclear entre nações europeias
O presidente francês anunciou cooperação nuclear com Alemanha, Polônia, Holanda, Bélgica, Grécia, Suécia e Dinamarca. O Reino Unido foi citado como parceiro central. Londres mantém arsenal próprio, mas depende de suporte tecnológico dos EUA para operá-lo.
“Precisamos agora avançar para outro patamar. Acredito que posso afirmar que nossos parceiros estão prontos", afirmou Macron.
Entre as iniciativas previstas estão exercícios nucleares conjuntos e o envio temporário de caças com capacidade nuclear a países aliados. A decisão final sobre o uso das armas permanecerá sob autoridade francesa.
“O que eu mais quero é que os europeus retomem o controle de seu próprio destino”, declarou.
Em comunicado separado, França e Alemanha anunciaram aprofundamento da parceria de defesa. Os dois países iniciarão discussões sobre coordenação entre defesa antimísseis convencional e capacidades nucleares. A Alemanha informou que participará dos exercícios nucleares franceses e de visitas conjuntas a instalações estratégicas ainda este ano.
O arsenal francês soma 290 ogivas nucleares, número próximo ao registrado em 1984, segundo o Boletim dos Cientistas Atômicos. O pico ocorreu no início da década de 1990, com até 540 ogivas. O estoque divide-se entre armas lançadas por aeronaves e mísseis balísticos M51, produzidos pela ArianeGroup, disparados a partir de submarinos.
A estratégia de dissuasão da França concentra-se na proteção de seus "interesses vitais", com a premissa de retaliação capaz de impor danos considerados inaceitáveis ao adversário.
O arsenal francês é o quarto maior do mundo. Estados Unidos e Rússia lideram em número de armas implantadas, aquelas prontas para uso imediato.
Estimativas indicam que a França possui mais de 30 toneladas de urânio enriquecido para armas e cerca de 6 toneladas de plutônio de grau militar, segundo dados da Associação de Controle de Armas. O volume permitiria expansão do estoque de ogivas. Em 2024, o país anunciou planos de produzir trítio, isótopo de hidrogênio utilizado em projetos termonucleares, em uma usina nuclear civil.
O Centro de Valduc, próximo a Dijon, no leste da França, realiza manutenção, armazenamento e desmantelamento de armas nucleares e já atuou na produção. Não há dados públicos sobre a capacidade anual de fabricação de ogivas.
Assim como outras potências que encerraram testes nucleares, a França emprega supercomputadores e lasers de alta potência para simular detonações, com foco em novos projetos e na atualização dos existentes.
“Devemos atender a esse apelo para assumir maior controle do nosso próprio destino”, disse Macron.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: