Após oito anos fora das passarelas, a Osklen tem algo novo a dizer
Há oito anos, Oskar Metsavaht não atravessava uma passarela para agradecer, sob aplausos, sua mais nova coleção. Na noite de ontem, 14, quando as luzes do Palácio da Cidade se acenderam Carolina Trentini abriu passarela para a Osklen, Metsavaht não conseguiu conter a emoção. O fundador e diretor criativo da marca carioca assistiu, visivelmente tocado, à coleção que ele mesmo define como uma travessia, real e imaginária, entre o amor e o caos, entre o hedonismo e a tensão contemporânea.
O ponto de partida criativo foi Ipanema. Não o bairro, mas o conceito da Zona Sul carioca. A coleção nasceu entre dois opostos: o preto do asfalto e o branco da areia. Entre esses dois mundos, a calçada de Ipanema funcionou como costura entre cidade e natureza, entre o urbano e o orgânico. As peças transitaram por esse território híbrido que sempre foi a marca da Osklen, da praia ao escritório e à festa. Do sóbrio ao festivo. Tecidos fluidos, transparências, ráfia e o clássico couro de pirarucu, assinatura da marca, marcaram a coleção.
O desfile de abertura do Rio Fashion Week não foi apenas o retorno de uma das marcas mais icônicas da moda brasileira ao calendário oficial. Foi também a síntese de um processo de retomada da marca financeira e criativa, que Oskar conta em detalhes na entrevista a seguir.
A Osklen abriu o Rio Fashion Week com o primeiro desfile da marca em uma semana de moda em quase uma década. Por que agora? E quais foram as maiores mudanças nesses últimos anos na marca para esse momento?
Agora porque existe um alinhamento entre contexto, maturidade do negócio e oportunidade de cidade. O retorno ao calendário não é um gesto nostálgico, mas uma afirmação de um novo momento — mais claro, mais focado e mais autoral. Nos últimos anos, a principal mudança foi a reconexão da Osklen com a sua essência. Reassumi diretamente a direção criativa e estratégica, simplificamos a operação, refinamos o produto e fortalecemos a coerência entre criação, imagem e negócio. Esse processo trouxe consistência e se refletiu também nos resultados, com uma evolução relevante dos indicadores financeiros da marca.
O que espera que seja diferente na retomada do Rio Fashion Week?
Espero que o Rio não tente repetir o passado, mas inaugurar uma nova etapa. A força do Rio nunca foi apenas produzir moda, mas produzir imaginário, comportamento e estilo de vida. Vejo um potencial de integração maior entre moda, cultura, turismo e economia criativa. E, sobretudo, um Rio mais consciente da sua singularidade — menos dependente de validação externa e mais conectado à sua própria identidade.
Osklen no Rio Fashion Week: ponto de partida criativo foi Ipanema (Marcelo Soubhia/Ag Fotosite/Divulgação)
O Brasil terá duas semanas de moda funcionando em paralelo, Rio de Janeiro e São Paulo. Isso fortalece a moda brasileira ou divide forças?
Na minha visão, fortalece. Não vejo como uma divisão, mas como uma ampliação de repertório. São Paulo tem uma potência empresarial e industrial consolidada. O Rio tem uma força simbólica e cultural muito própria. Quando esses dois polos operam de forma complementar, a moda brasileira ganha densidade, diversidade e relevância internacional.
O que a coleção que você apresenta agora conta e qual é o ponto de partida criativo?
O ponto de partida é Ipanema — não como bairro, mas como conceito contemporâneo de estilo de vida. A coleção nasce da dialética entre dois opostos: o preto do asfalto e o branco da areia. Entre esses dois mundos, a calçada de Ipanema funciona como uma costura — um yin e yang tropical — entre cidade e natureza, entre o urbano e o orgânico. Um estilo de vida que simbolicamente representa, universalmente, um novo tipo de luxo. O desfile propõe essa travessia. Uma passarela real e imaginária entre o amor e o caos, entre o hedonismo e a tensão contemporânea. É nesse território híbrido que a Osklen sempre existiu: entre função e poesia, entre design e comportamento.
Com a saída da Alpargatas em 2021, você reassumiu o comando criativo e estratégico, e o EBITDA mais que dobrou desde então. Como foi essa retomada e o que mudou nas estratégias?
Foi uma retomada de essência com disciplina. O foco foi reconectar a marca com seu centro: design autoral, inovação em materiais, consistência estética e clareza de posicionamento. Simplificamos a operação, editamos melhor as coleções, elevamos a qualidade e fortalecemos a percepção de valor. A marca voltou a operar com mais coerência entre o que cria e o que entrega. O crescimento do EBITDA é consequência direta dessa reorganização e desse foco.
O e-commerce cresceu 32% após o relançamento em 2024. A Osklen sempre foi uma marca de experiência física, de loja como curadoria de estilo de vida. Como é o equilíbrio entre os canais?
Eu não vejo digital e física como opostos. A Osklen é uma marca de experiência — e isso precisa existir em qualquer canal. A loja física continua sendo um espaço de curadoria, sensorialidade e encontro com o estilo de vida da marca. O digital amplia esse universo com conveniência e escala. O desafio é garantir que exista uma única Osklen, com a mesma linguagem e consistência, independentemente do ponto de contato.
A Osklen assinou os uniformes da delegação brasileira nas Olimpíadas de Inverno em parceria com a Moncler. Qual foi o ponto de encontro entre as duas marcas — e o que essa colaboração revelou sobre onde a Osklen quer chegar?
O convite partiu do Remo Ruffini, presidente da Moncler, que já conhecia meu trabalho desde a época em que a Osklen tinha lojas em Milão e Roma. Levei meu estilo e criatividade à Moncler para este projeto da mesma forma como faço na Osklen. O ponto de encontro foi muito natural: uma visão comum de design que integra performance, sofisticação e cultura. Ele reconheceu uma combinação da nossa experiência em design para esportes de neve, pioneirismo em sustentabilidade, criatividade autoral e posicionamento de luxo baseado em qualidade. Essa colaboração reforça um lugar que sempre foi ambição da marca: ser uma expressão brasileira com vocação universal, capaz de dialogar com excelência no cenário global sem perder sua identidade.
Em 1999, quando a Osklen lançou a primeira t-shirt de cânhamo, sustentabilidade era assunto de nicho. Hoje toda marca fala em ESG. Quais mudanças vê no setor?
A sustentabilidade deixou de ser exceção e passou a ser linguagem corrente. Isso é positivo, mas também trouxe o risco da superficialidade. No nosso caso, esse tema nunca foi tendência — sempre foi estrutura. Desde o fim dos anos 1990, trabalhamos no desenvolvimento de materiais e processos com responsabilidade socioambiental. Por isto a Osklen junto com o Instituto-E são reconhecidos mundialmente na Industria da Moda, nosso pioneirismo é internacional, juntos com a marca Patagonia e Stella McCartney. A variedade de projetos e desenvolvimento de novos materiais por nós é muito maior que estas outras, isto pela própria riqueza de nossa biodiversidade, que sempre me inspirou e nos tornou sermos os principais inovadores da sustentabilidade socioambiental na moda e no luxo. Tanto que a Unesco reconheceu ainda em 2010 e desde então sou Embaixador Global para Sustentabilidade, e desde 2020, Embaixador da Década dos Oceanos da ONU. Hoje, mais do que discurso, o desafio é materialidade: cadeia produtiva, durabilidade, design e mudança de comportamento. Sustentabilidade não é um lugar de pureza, é um processo contínuo. Por isso sempre usei o conceito ASAP — As Sustainable As Possible, As Soon As Possible.
Metsavaht: "a força do Rio nunca foi apenas produzir moda, mas produzir imaginário, comportamento e estilo de vida" (Marcelo Soubhia/Ag Fotosite/Divulgação)
A Osklen foi pioneira em posicionar o “Made in Brazil” como luxo global. Como você vê esse território hoje? A moda brasileira avançou?
Avançou, sem dúvida. Hoje existe mais consciência de que o Brasil não precisa reproduzir repertórios externos para ser relevante. Mas ainda enfrentamos um desafio de consistência: transformar essa potência cultural em marcas sólidas, com qualidade, continuidade e presença internacional. Também acredito que seja imperativo pensar a moda — e a economia criativa como um todo — como um projeto de Estado de médio e longo prazo. A moda não deve ser vista apenas sob o aspecto cultural, mas como uma indústria com enorme capacidade de geração de valor, emprego e inovação. Não podemos mais permitir que essa riqueza criativa, industrial e sustentável seja subestimada, tanto pela sociedade quanto pelos governos. Costumo citar exemplos claros: França e Itália entenderam há décadas o valor estratégico de suas culturas e transformaram isso em uma indústria de luxo global, hoje um dos pilares de suas economias. Mais recentemente, países como China e Coreia vêm seguindo esse caminho, promovendo suas marcas com sofisticação, criatividade e visão de longo prazo. O “Made in Brazil” deixou de ser percebido apenas como exotismo. Hoje pode representar sofisticação, design autoral e inovação. Mas ainda precisamos estruturar esse posicionamento de forma mais integrada, com todos os stakeholders, para consolidar esse lugar no cenário global.
Seus filhos estão entrando no grupo. Felipe aparece como o provável sucessor na direção criativa. Como você pensa essa passagem e o que quer que permaneça quando ela acontecer?
Penso essa passagem como continuidade com transformação. Não me interessa criar uma réplica, mas garantir a evolução da visão. O que deve permanecer é o espírito fundador: independência criativa, coragem de inovação, brasilidade sem caricatura e a ideia de que ética e estética caminham juntas. A Osklen nunca foi apenas uma marca de moda. É uma plataforma de pensamento. Isso é o essencial a ser preservado.
Você está na abertura de uma semana de moda, com uma colaboração olímpica recente e com os melhores números financeiros da marca em anos. Como você lê esse momento da marca?
Leio como um momento de maturidade e clareza. Esses movimentos — desfile, colaboração internacional, resultados — não são isolados. Eles refletem uma Osklen mais alinhada com sua essência e mais consciente do seu papel. É um momento importante, mas não como ponto de chegada. É a confirmação de que uma marca autoral brasileira, com consistência estética, inovação e visão de longo prazo, pode ocupar um lugar relevante no debate global sobre moda, cultura e sustentabilidade.
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