Após recorde, bolsa argentina segue em alta com reforma trabalhista

Por Clara Assunção 21 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Após recorde, bolsa argentina segue em alta com reforma trabalhista

Após atingir a maior pontuação em quatro meses na véspera, o Merval, índice acionário da Argentina, voltou a avançar nesta sexta-feira, 20, em meio à aprovação da reforma trabalhista na Câmara dos Deputados.

Às 12h10, o S&P Merval subia 0,87%, aos 2.864.753,49 pontos, dando sequência ao rali observado no pregão anterior.

Na quinta, 19, enquanto o país enfrentava a quarta greve geral desde o início do governo de Javier Milei, o mercado operou na contramão do ambiente político e social. O Merval encerrou o dia com alta de 4,26%, aos 2.839.106,06 pontos — o maior patamar em quatro meses.

Segundo dados da plataforma TradeMap, foi a maior alta intradiária desde 31 de outubro de 2025, quando o índice havia saltado 7,48%.

O movimento desta sexta ocorre após os deputados aprovarem a reforma trabalhista com alterações. O texto retorna agora ao Senado para ratificação das mudanças, com expectativa de conclusão da tramitação até 1º de março, quando o presidente argentina abrirá as sessões ordinárias do Congresso.

Entre as ações que mais sobem no pregão estão Sociedad Comercial del Plata, Transener e Cresud. Ainda assim, a consultoria financeira Bell Investment destacou à imprensa local que o S&P Merval acumula queda superior a 10% no mês "sem acompanhar as recuperações internacionais".

A reforma trabalhista de Milei

A reforma aprovada mantém pontos considerados centrais pelo governo, como a possibilidade de fracionamento de férias em períodos mínimos de sete dias; ampliação da jornada para até 12 horas diárias com compensação via banco de horas e a extensão do período de experiência.

Também foram incluídas mudanças no cálculo de indenizações; criação do Fundo de Assistência ao Trabalho (FAL); restrições ao direito de greve em setores essenciais; prioridade para acordos empresariais ou regionais e o reconhecimento formal de trabalhadores de aplicativos como autônomos.

A principal mudança feita pelos deputados foi a retirada do artigo que previa redução de 50% do salário em casos de acidentes fora do ambiente de trabalho. O placar na Câmara foi de 135 votos favoráveis e 115 contrários, após negociação de cerca de 30 modificações pelo governo.

O texto, porém, não passou isento de críticas. A oposição ao governo classificou a medida como "restritiva de direitos" e sinalizou possível questionamento judicial por inconstitucionalidade.

A votação ocorreu em meio à greve geral convocada pela Confederação Geral do Trabalho da República Argentina (CGT), a maior entidade sindical do país, que registrou alta adesão segundo a entidade. Houve confrontos em frente ao Congresso e quase uma dezena de detenções. No exterior, 29 voos foram cancelados em Guarulhos devido à paralisação na Argentina.

Além do avanço da agenda legislativa, o ambiente de negócios também foi influenciado pelo anúncio de que a Visa fechou acordo para adquirir a Prisma Medios de Pago e a Newpay no país, reforçando a percepção de retomada de investimentos.

Mudança de patamar na confiança dos investidores

O desempenho recente do mercado argentino pode refletir, assim, uma mudança de patamar na confiança dos investidores, mesmo em meio a tensões sociais e à volatilidade acumulada no mês.

Nesta sexta, o BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) divulgou um relatório sobre a política macroecômica da Argentina, apontando que o governo iniciou o ano com um resultado fiscal considerado satisfatório.

Em janeiro, o superávit primário mensal foi de 3,1 trilhões de pesos argentinos (ARS), ou 2,1 trilhões de pesos ao excluir receitas extraordinárias — cerca de 0,2% do PIB. O resultado contou com receitas pontuais da venda de quatro concessões hidrelétricas.

O superávit nominal ficou em 1,1 trilhão de pesos argentinos, mas recuou para apenas ARS 65 bilhões sem os efeitos extraordinários, impactado por pagamentos de juros de títulos soberanos. Em termos reais, o superávit primário foi 35% menor que o registrado em janeiro de 2025, excluídas as receitas não recorrentes.

As receitas totais caíram 1,2% em termos reais na comparação anual, com retração de 8,1% na arrecadação tributária. A arrecadação do IVA recuou 12,1%, enquanto os impostos sobre exportações caíram 40,7%. Do lado das despesas, houve queda real de 0,7%, puxada por um recuo de 36% nos gastos de capital.

Para o banco, apesar da piora pontual frente ao ano anterior, a combinação de recuperação da atividade econômica e inflação acima do esperado tende a fortalecer a arrecadação e ajudar a conter despesas não indexadas, permitindo ao governo repetir em 2026 um resultado fiscal semelhante ao de 2025.

O BTG também observa que as alterações feitas à reforma trabalhista reduziram o custo fiscal inicialmente estimado, já que o texto deixou de incluir a redução do imposto de renda das empresas.

"Ainda assim, algumas estimativas privadas sugerem que isso poderia representar até 0,4% do PIB em receita perdida para o governo nacional, principalmente devido à redução nas contribuições dos empregadores, que serão canalizadas para um “fundo de assistência trabalhista” (FAL) para cobrir os custos de demissão. As contribuições serão obrigatórias a partir de junho, então o custo fiscal ficaria mais próximo de 0,25% em 2026", disse o banco.

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