Aposta em IA supera em sete vezes a expansão da internet nos anos 2000
A corrida global pela inteligência artificial (IA) está mobilizando uma quantidade de capital sem precedentes na história recente da tecnologia. Segundo um relatório da consultoria Gavekal Research, o atual ciclo de investimentos em infraestrutura de IA é aproximadamente sete vezes maior do que o boom que impulsionou a expansão da internet e da banda larga no fim dos anos 1990.
A comparação ajuda a dimensionar a magnitude dos recursos que vêm sendo direcionados para a construção de centros de dados, aquisição de chips e ampliação da capacidade computacional necessária para sustentar os modelos de inteligência artificial generativa.
"Talvez uma comparação mais apropriada seja a de que, entre 1996 e 2000, as empresas de telecomunicações dos EUA gastaram cerca de US$ 500 bilhões em infraestrutura de internet e banda larga, ou US$ 930 bilhões em termos ajustados pela inflação. O boom atual de capex (investimentos em capital) de IA é, portanto, aproximadamente igual a 7 vezes o boom de capex da internet", afirma o relatório.
A tese central da Gavekal é que a inteligência artificial está provocando uma transformação estrutural no setor de tecnologia, exigindo um volume de investimentos que se aproxima dos maiores ciclos de expansão econômica já vistos.
O documento estima que os gastos atuais com centros de dados de IA correspondem a cerca de metade do tamanho do boom da construção civil da China em período semelhante.
Mas há uma diferença importante, segundo a consultoria financeira. Enquanto imóveis podem permanecer úteis por décadas, a infraestrutura tecnológica está sujeita a uma rápida obsolescência.
"O boom de gastos em centros de dados de IA é estimado em aproximadamente metade do tamanho do boom da construção na China em um período semelhante. E isso para ativos que têm um ciclo de depreciação muito mais rápido e são mais propensos à obsolescência do que prédios de apartamentos", afirma a Gavekal Research.
"Os prédios que a China construiu há 10 anos ainda estão lá e, em sua maioria, ocupados. Enquanto isso, os centros de dados construídos em 2026 ainda serão úteis em 2036?", questiona
O fim da era das recompras, diz Gavekal
Além da escala dos investimentos, a Gavekal argumenta que a explosão dos gastos com IA está alterando profundamente o modelo financeiro das gigantes de tecnologia.
Durante anos, empresas como Alphabet e Meta ficaram conhecidas por gerar grandes volumes de caixa e devolver parte desses recursos aos acionistas por meio de programas de recompra de ações. Agora, segundo o relatório, essa lógica está mudando.
"À medida que os hyperscalers deixam de ser grandes geradores de fluxo de caixa positivo para adotar modelos de negócios que envolvem um nível de intensidade de capital que faria uma usina siderúrgica ou uma planta petroquímica corar, os dias de recompras de ações acabaram. Em vez disso, os dias de emissão de ações estão sobre nós".
Na avaliação da consultoria, os chamados hyperscalers — grupo que inclui as maiores empresas de tecnologia do mundo — estão migrando de um modelo tradicionalmente leve em capital para outro que exige investimentos massivos em infraestrutura física.
O relatório descreve essa mudança como uma inversão da lógica que marcou a ascensão das plataformas digitais nas últimas décadas. Segundo os autores, se antes as empresas de tecnologia prosperavam com modelos focados em design, software e propriedade intelectual, agora a prioridade passou a ser a construção de infraestrutura computacional.
"Agora, em uma estranha reviravolta do destino, as empresas e investidores ocidentais parecem ansiosos por abandonar o mantra 'nós pensamos'. Em vez disso, parece que o novo mantra é 'gastamos montes de dólares em centros de dados de IA para que não tenhamos que pensar e eles suem'", diz.
Era das emissões bilionárias
Para financiar essa expansão, a Gavekal afirma que o mercado está entrando em uma nova fase marcada por emissões massivas de ações.
Segundo o relatório, este ano pode quebrar recordes históricos de captação de recursos. O documento destaca que cinco empresas — Alphabet, Meta, SpaceX, Anthropic e OpenAI — pretendem levantar, em poucas semanas, um volume de recursos equivalente ao recorde anual registrado pelo mercado global em 2021.
"Nesta frente, 2026 deve quebrar recordes. Até agora, o maior ano registrado para capital próprio levantado foi 2021. Hoje, em um cenário muito diferente, cinco empresas — Alphabet, Meta, SpaceX, Anthropic e OpenAI — estão propondo levantar essencialmente o mesmo valor, no espaço de algumas semanas, apenas no mercado de ações dos EUA. Isso é sem precedentes."
Como exemplo, a Gavekal compara a oferta pública inicial do Google, que levantou US$ 1,7 bilhão em 2004, com uma emissão recente da Alphabet de US$ 85 bilhões.
Para a consultoria, os efeitos dessa corrida por infraestrutura de IA tendem a se espalhar por toda a economia. A demanda crescente por recursos financeiros, chips, eletricidade e energia pode pressionar custos e alterar a dinâmica dos mercados nos próximos anos.
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