As duas preocupações que podem travar a queda da Selic, segundo Pessoa
O Banco Central reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual na semana passada, mas ainda há dúvidas sobre a intensidade e a duração do ciclo de cortes de juros ao longo de 2026.
Para o economista Samuel Pessoa, pesquisador do BTG Pactual e da FGV Ibre, o comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) manteve o “desenho mais geral” esperado pelo mercado, mas deixou em aberto duas preocupações que podem limitar a continuidade da flexibilização monetária.
Em entrevista ao Macro em Pauta, da EXAME, Pessoa afirmou que o BC ainda precisará explicar melhor como enxerga dois movimentos recentes: a alta das expectativas de inflação de longo prazo e uma atividade econômica mais forte do que o esperado no início do ano.
A primeira preocupação envolve a piora das expectativas de inflação para horizontes mais longos, especialmente 2028.
No último Boletim Focus, a projeção do IPCA para 2028 subiu de 3,61% para 3,64%. No início do ano, antes da guerra, a expectativa estava próxima de 3%.
Segundo Pessoa, esse movimento gera desconforto porque o choque recente provocado pela guerra e pela alta do petróleo deveria afetar principalmente as projeções de curto prazo.
“Se as pessoas têm total confiança na capacidade do Banco Central de operar a política monetária, esse choque poderia estar revisando a inflação deste ano, do ano que vem, mas não deveria mexer nas expectativas de 2028”, afirmou.
Segundo ele, a desancoragem das expectativas de longo prazo sugere uma leitura do mercado de que o BC pode estar reagindo de forma “excessivamente gradualista” ao choque inflacionário.
Atividade econômica forte
A segunda preocupação citada pelo economista é a força da atividade econômica doméstica no começo do ano. Pessoa afirmou que há sinais de surpresa positiva nos dados recentes, embora ainda exista dúvida sobre o peso da sazonalidade após a pandemia.
“É possível que essa surpresa positiva seja menos surpresa e seja só uma sazonalidade que mudou e que a gente ainda não conseguiu medir bem”, afirmou.
Dados do IBC-BR, considerado a prévia do PIB, subiram em janeiro e fevereiro.
Mesmo assim, ele avalia que o BC terá de explicar como essa dinâmica mais forte afeta o cenário de desaceleração da economia usado para justificar a redução dos juros.
Choque externo reduziu expectativa para o ciclo de queda da Selic
Para Samuel Pessoa, a decisão da semana passada reforçou uma mudança de cenário que começou após o choque provocado pela guerra e pela alta do petróleo. Segundo ele, antes desse movimento, o mercado trabalhava com um ciclo de cortes mais intenso para a Selic.
Com a pressão sobre petróleo, commodities e cadeias globais de distribuição, as projeções passaram a apontar um espaço menor para redução dos juros.
A projeção inicial era que a Selic terminaria o ano em 12%. Agora, o mercado espera a taxa de juros em 13%.
Segundo Pessoa, a expectativa predominante passou de um corte acumulado de cerca de três pontos percentuais para algo próximo de dois pontos.
Na avaliação do economista, o BC respondeu ao novo ambiente de duas formas: reduziu o ritmo dos cortes e indicou que o ciclo deve ser mais longo e cauteloso. “As pessoas imaginavam que esse ciclo de corte iria ter alguns cortes de meio ponto percentual. Então, o Banco Central ajustou no passo”, disse.
Segundo ele, a autoridade monetária optou por manter os cortes em 0,25 ponto percentual diante do aumento da incerteza global e dos efeitos inflacionários do choque externo.
Pessoa também afirmou que o BC busca evitar um aperto monetário excessivo sobre a economia. “Se não reduzir um pouco o grau de contração monetária, posso gerar um overkill monetário”, afirmou, ao descrever o risco de uma restrição financeira excessiva provocar recessão.
Na avaliação do economista, o comunicado do Copom mostrou que o BC segue comprometido com a redução gradual dos juros, mas sem sinalizar qual será o tamanho final do ciclo.
“O orçamento que o BC tem para cair os juros este ano vai reduzir. Não sabemos o quanto. Ele também não sabe”, afirmou.
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