Aumento do 'poder' do passaporte do Brasil depende da economia, diz especialista
O passaporte do Brasil avançou para a 49ª posição mundial e aparece como o segundo mais forte da América Latina, atrás apenas do Chile, segundo levantamento da Global Passport Index 2026 divulgado nesta terça-feira, 30.
Com esse cenário, o país ainda tem espaço para ganhar posições entre os passaportes mais poderosos do mundo, mas não será apenas por meio de novos acordos de isenção de vistos, avalia Patricia Casaburi, CEO da Global Citizen Solutions (GCS), consultoria responsável pelo estudo, em entrevista à EXAME.
Segundo a executiva, o próximo salto do Brasil depende principalmente de reformas que fortaleçam o ambiente econômico, reduzam o peso da tributação e elevem a renda da população. A executiva afirma que o país já atingiu um nível elevado de mobilidade internacional e mantém uma posição considerada estável nesse indicador.
O ranking considera três pilares com pesos distintos: mobilidade internacional, qualidade de vida e oportunidades econômicas e de investimento.
"A gente marcou 90,7 pontos em mobilidade e isso tem muito a ver com o histórico e a estabilidade da diplomacia brasileira", afirmou Patricia Casaburi.
Segundo ela, a política externa do país mantém uma trajetória de diálogo e de preservação de acordos internacionais, o que fortalece a capacidade de negociação para ampliar a entrada de brasileiros em outros mercados sem necessidade de visto prévio.
Frutos da política de reciprocidade
A CEO afirma que a política de reciprocidade adotada pelo Brasil continua sendo um dos principais fatores por trás desse desempenho. Ela recordou as divergências entre o país e a Espanha, entre 2009 e 2010, em razão do controle migratório, provocou deportações de milhares de brasileiros e longas retenções por suspeita de imigração ilegal.
Agora, o Brasil encara um novo desafio nas relações políticas e econômicas com o governo dos Estados Unidos, principalmente pela imposição do presidente Donald Trump de tarifas de importação aos produtos brasileiros. Diante deste cenário, Patrícia ressalta que as negociações diplomáticas são essenciais para reforçar a posição brasileira no ranking dos passaportes.
"Quando há reciprocidade, existe uma troca diplomática. Anos trás tivemos divergências com a Espanha, agora com os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, abrimos novos acordos, como o firmado com a China. Isso fortalece o posicionamento do Brasil e ajuda a ampliar o acesso sem visto para brasileiros", disse.
Ela explica que os acordos mais recentes possuem impacto que vai além das viagens internacionais. A executiva afirma que as medidas também fortalecem relações comerciais, turismo e futuras negociações diplomáticas.
Desafios na área econômica
Apesar do desempenho em mobilidade, a diferença para o Chile permanece concentrada no pilar econômico. De acordo com a CEO da GCS, a carga tributária incidente sobre pessoas físicas e a renda nacional bruta per capita continuam sendo os principais fatores que reduzem a pontuação brasileira.
Em 2025, a carga tributária bruta (CTB) do governo brasileiro — que engloba os governos federal, estadual e municipal — atingiu 32,40% do PIB, com alta de 0,18 ponto percentual em relação a 2024. Este foi o maior patamar desde 2010, início da série histórica do órgão.
"A tributação elevada e a renda nacional per capita ainda pesam bastante. Houve evolução nos últimos anos, mas esses dois fatores continuam sendo os maiores influenciadores do resultado", explicou.
Casaburi também afirma que o ambiente de investimentos considera fatores ligados à previsibilidade das políticas públicas. Segundo ela, indicadores econômicos brasileiros apresentam evolução, mas ainda existem desafios para ampliar a competitividade do país no índice.
A executiva observa, no entanto, que alguns indicadores apontam evolução estrutural. Entre eles, ela destaca o desempenho do país em inovação, impulsionado pelo crescimento de empresas de tecnologia e do setor financeiro digital.
ETIAS e e-Visa não devem reduzir força do passaporte brasileiro
Neste ano, os países da União Europeia tem se mobilizado pela implementação do sistema europeu ETIAS, autorização eletrônica obrigatória para entrada em países do Espaço Schengen. A atualização traz uma etapa obrigatória para quem hoje entra na Europa só com o passaporte. Desse modo, a autorização de entrada será exigida de viajantes até então isentos de visto, como os brasileiros.
Apesar disso, Patricia Casaburi esclarece que a medida não deve alterar a posição do Brasil no índice, pois o mecanismo representa uma tendência internacional de reforço nos controles migratórios e não uma restrição ao deslocamento de turistas.
"O ETIAS não reduz a força do passaporte. Haverá uma taxa e um procedimento adicional, mas a proposta é aumentar o controle de fronteiras, não limitar a mobilidade", disse.
Ela também avalia que o restabelecimento do e-Visa para cidadãos de países como Estados Unidos, Canadá e Austrália segue a lógica da reciprocidade diplomática e não altera a percepção internacional sobre o documento brasileiro.
Segundo Casaburi, o histórico do índice mostra estabilidade na posição do Brasil ao longo dos últimos anos e indica que o país já alcançou um patamar elevado em mobilidade internacional.
"Sem novos acordos relevantes, estamos muito próximos do limite de expansão nesse pilar. O posicionamento diplomático brasileiro hoje é sólido e consistente", afirmou.
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