'Ausência' de Buffett em encontro da Berkshire testa carisma de Omaha

Por Mitchel Diniz 1 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'Ausência' de Buffett em encontro da Berkshire testa carisma de Omaha

Omaha é uma cidade curiosa, parece um subúrbio expandido. Os poucos prédios altos ficam em downtown, a região central da cidade, uma Nova York sem esteroides. Uma "pequena maçã". É manhã de sexta-feira e o que parece ser o coração financeiro da cidade tem pouquíssima movimentação de pessoas e veículos. Curiosamente, há obras por toda parte. A prefeitura está construindo um streetcar, um VLT com malha viária de pouco mais de 5 quilômetros e que será de uso gratuito para a população. Mais de US$ 400 milhões serão investidos no projeto.

“Omaha nunca é agitada”, afirma Jeff Gorat, dono de uma delicatessen no extremo Oeste da cidade. Essa, inclusive, é uma área de Omaha que se desenvolveu recentemente, com a construção de centenas de imóveis. São típicas casas de subúrbio americano, em ruas pouquíssimo movimentadas e bastante silenciosas. É uma região nobre da cidade.

“Aqui estamos bem distantes do evento, então nem sentimos a diferença quando ele acontece. Mas para a parte central da cidade, é bem importante”, diz Gorat, se referindo ao encontro anual de acionistas da Berkshire Hathaway, a famosa firma de investimentos de Warren Buffett.

O fim de semana da conferência, marcada para amanhã, costuma ser um dos mais movimentados do ano na cidade. Em 2025, Omaha recebeu cerca de 30 mil visitantes para o evento, sem contar com o público de fora do país, segundo reportagem do Omaha World Herald, principal veículo de comunicação local.

O jornal, porém, questiona se o encontro deste ano vai manter sua grandiosidade. Não só pelo fato de Warren Buffett não estar no palco este ano. A alta no preço de combustíveis e de passagens aéreas pode afugentar alguns investidores. “Está impossível trabalhar como motorista de Uber com esse preço da gasolina”, disse o motorista que levou a reportagem da EXAME do aeroporto Eppley Airfield ao hotel, em downtown.

Centro de Omaha numa sexta-feira pré-Berkshire: 'pequena maçã' pouco movimetada

Ainda há vagas

Quem chegar no DoubleTree Hilton nesta sexta-feira, 1, na véspera do encontro de acionista, ainda consegue hospedagem sem a necessidade de reserva prévia. O hotel não lotou, mas as diárias estão bem mais caras do que de costume. A mais barata, em um quarto duplo, sai por quase US$ 500, o dobro do normal. “The Berkshire Hathaway Experience”, diz a faixa em frente ao Hilton, que ontem, 30, recebeu hóspedes com champanhe com morangos, frios e doces.

Investidores brasileiros que costumavam viajar anualmente para Omaha não comparecerão ao encontro da Berkshire este ano. A gestora e conselheira Louise Barsi confirmou à EXAME que sua conhecida excursão de investidores não irá ao evento.

"Nós não vamos por motivos pessoais dos sócios, mas ano que vem estamos nos programando", disse.

A reportagem do Omaha Herald diz que, no encontro da Berkshire do ano passado, os visitantes gastaram US$ 415 milhões em bares e restaurantes da cidade, US$ 341 milhões em compras e US$ 380 milhões em hospedagens. Na sexta e no sábado do evento, em 2025, a ocupação da hotelaria no centro de Omaha chegou a 95%.

Hotel no centro de Omaha: quartos vagos pelo dobro do preço

“Eu aposto que teremos umas 45 mil pessoas este ano”, disse à reportagem um outro motorista de Uber (o streetcar será bem-vindo, já que o transporte público escasso dificulta a circulação na cidade). Ele tira do bolso as credenciais para participar do evento no domingo — é um investidor da Berkshire também. No banco do carona, levava, por acaso, um quadro contendo três cédulas de dólar com a assinatura de Buffett, que ele conseguiu indo diretamente no escritório da Berkshire.

“Ele não me recebeu, mas me pediram para voltar no dia seguinte e foi o que fiz. Estava lá com a assinatura dele, já”.

Ritual mantido

“Às 4h30 da manhã estarei na fila para garantir um bom lugar”, diz Jeovany Zelaya, diretor de investimentos da Ludacka Wealth Partners, uma gestora de patrimônio baseada em Omaha. Nascido em El Salvador, Zelaya migrou para os Estados Unidos aos 10 anos. Nos últimos 14, compareceu ao encontro de acionistas, seguindo esse mesmo ritual. “Espero que as pessoas continuem vindo”, disse ele, ciente de que as falas inspiracionais de Buffett eram uma atração à parte no evento.

No ano passado, o megainvestidor, um dos homens mais ricos do mundo, anunciou sua aposentadora do cargo de CEO da Berkshire Hathaway, passando o bastão para Greg Abel. O sucessor tem perfil mais operacional, focado em resultado, e estará junto a CEOs de empresas investidas no painel. Buffett, que segue como presidente do conselho de administração da companhia, vai acompanhar de tudo na plateia, pela primeira vez.

"Acredito que só o tempo dirá. Se o Greg Abel realmente se mostrar um bom gestor e entregar bons resultados, o evento tende a perdurar. Buffett deixará um legado muito grande", diz Louise Barsi.

O empreendedor Jeff Gorat: negócios longe do burburinho da Berkshire

Longe do burburinho da conferência de investidores, Jeff Gorat, que cresceu vendo Buffett frequentando o restaurante da família (o famoso Gorat’s), entende a relevância do evento para a cidade, mas diz que Omaha vai seguir crescendo ainda que a frequência de visitantes diminua.

“Temos grandes empresas na cidade e sinto que estamos crescendo de forma orgânica. Talvez a gente perca um pouco daquele reconhecimento que tínhamos associado à imagem de Warren, mas não acho que isso vá nos afetar como um todo”, conclui.

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