Avanço da IA impulsiona disputa por recursos na Lua

Por EXAME Solutions 3 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Avanço da IA impulsiona disputa por recursos na Lua

A expansão da inteligência artificial não depende apenas de algoritmos, modelos e aplicações corporativas, mas também de energia, chips, minerais estratégicos e da disputa internacional pela exploração da Lua. Esse foi o tema central da palestra de Sérgio Sacani no painel de abertura do AI Summit EXAME 2026, realizado pela EXAME, em parceria com a escola de negócios Saint Paul, no dia 2 de junho, em São Paulo. Geofísico, geólogo e conhecido por acompanhar lançamentos de foguetes e temas ligados à astronomia, Sacani levou ao evento uma abordagem sobre a infraestrutura física e geopolítica que sustenta o avanço da IA.

Criado para discutir a inteligência artificial como fator de decisão, produtividade e competitividade nos negócios, o AI Summit EXAME reuniu especialistas e lideranças em mais de oito horas de programação. Nesse contexto, a palestra de Sacani ampliou o debate ao mostrar que a tecnologia que já transforma empresas, carreiras e setores inteiros depende de cadeias globais de suprimento, capacidade energética, semicondutores e escolhas estratégicas de países.

Corrida invisível

O ponto de partida foi a ideia de que a inteligência artificial se tornou um dos eixos da competição entre nações e empresas. Sacani comparou esse movimento a uma corrida armamentista. Na Guerra Fria, lembrou, a disputa entre Estados Unidos e União Soviética combinou corrida espacial e corrida militar. Hoje, segundo ele, o domínio de algoritmos, modelos e infraestrutura de processamento passou a ocupar posição semelhante na geopolítica.

Segundo Sacani, a corrida pela liderança em IA exige uma estrutura intensiva em energia, com destaque para as GPUs necessárias ao treinamento de modelos em larga escala e ao atendimento dos usuários da tecnologia. Sem GPUs e chips em grande quantidade, afirmou, a evolução dos sistemas fica comprometida.

Nesse contexto, o palestrante abordou o papel das terras raras e de outros minerais estratégicos, como lítio, cobalto, tório e urânio. Esses elementos foram apresentados como insumos fundamentais para chips, supercondutores, baterias, GPUs e sistemas de energia. Sacani destacou que a China detém a maior reserva de terras raras, com 44 milhões de toneladas, e controla o processamento desses materiais. O problema, segundo ele, não está apenas em extrair o mineral, mas em transformá-lo em produtos de maior valor agregado.

Trunfo brasileiro

Na avaliação de Sacani, o Brasil ocupa uma posição relevante nessa disputa, por possuir a segunda maior reserva de terras raras do mundo, com 23 milhões de toneladas. Para ele, essa condição cria uma oportunidade estratégica, mas também expõe uma lacuna. O país, disse, não possui um plano claro para explorar, processar e agregar valor a esses recursos. Sem esse planejamento, a tendência é comercializar o material em etapas menos sofisticadas da cadeia produtiva.

A palestra também abordou o custo ambiental do processamento das terras raras. Sacani afirmou que a produção de uma tonelada pode gerar duas mil toneladas de rejeito tóxico. A observação serviu para mostrar que a discussão não se limita à disponibilidade do recurso. Ela envolve tecnologia, política industrial, impacto ambiental e capacidade de processamento. O palestrante defendeu que o tema entre no debate público brasileiro, inclusive em períodos eleitorais.

Mapa lunar

É nesse ponto que a Lua entrou no argumento. Para Sacani, a exploração lunar não deve ser vista apenas como uma questão científica ou simbólica. Ele afirmou que o satélite concentra recursos que podem responder a parte dos desafios da IA e da economia terrestre. O palestrante citou o terreno conhecido como KREEP, rico em potássio, terras raras e fósforo, além da presença de água congelada nos polos lunares e de regiões com incidência solar contínua.

O hélio-3 recebeu atenção especial. Sacani descreveu o elemento como uma possível fonte de energia para a fusão nuclear e afirmou que uma tonelada poderia equivaler à energia produzida por 15 milhões de toneladas de carvão. Segundo ele, um quilo de hélio-3 é avaliado em 30 milhões de dólares. A China, disse, já mapeou ocorrências do elemento na Lua. A água congelada, por sua vez, poderia ser decomposta em hidrogênio e oxigênio para produzir combustível de foguetes. As montanhas iluminadas nos polos lunares poderiam servir para geração solar ininterrupta.

A lógica apresentada foi a de um ciclo. A inteligência artificial precisa de energia, chips e minerais. A Lua possui recursos que podem abastecer essa demanda. Mas a própria exploração lunar dependerá de IA para mapear terrenos, identificar depósitos, orientar robôs e otimizar operações. Sacani relacionou esse processo ao conceito de ISRU, sigla em inglês para utilização de recursos in situ, que prevê extrair, processar e manufaturar no próprio local de exploração.

Nova disputa

Sacani também citou empresas que já se movimentam nessa nova etapa da exploração espacial. Segundo ele, a Lockheed Martin estuda instalar infraestrutura na Lua, incluindo data centers e reatores. A Interlune, por sua vez, trabalha no desenvolvimento de robôs para mineração de hélio-3. No campo geopolítico, o palestrante destacou o protagonismo de Estados Unidos e China, que lideram os dois principais blocos em formação: os Acordos Artemis, conduzidos pelos norte-americanos, e a ILRS, associada à China e à Rússia.

A disputa, segundo ele, levanta questões jurídicas importantes, como a decisão sobre quem pode explorar a Lua e seus recursos. Ele mencionou discussões sobre direito espacial e afirmou que o Brasil tem papel relevante por ser visto como um país neutro nas negociações. O tema, disse, já provoca debates sobre acordos, zonas de exploração e preservação de locais históricos de pouso.

Sacani terminou sua palestra com a mensagem de que discutir IA exige olhar além das aplicações visíveis, destacando que a tecnologia depende de energia, água, semicondutores, minerais e, acima de tudo, de decisões públicas sobre recursos naturais e estratégia industrial.

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