Avanço tecnológico da China ameaça aumentar desigualdade social

Por Matheus Gonçalves 5 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Avanço tecnológico da China ameaça aumentar desigualdade social

O Partido Comunista da China parece decidido sobre o avanço tecnológico ser a chave para o futuro econômico do país. Investindo cada vez mais em indústrias como robótica, inteligência artificial e semicondutores, Pequim se apresenta no cenário internacional como um ator influente no setor tecnológico.

Após uma modernização extremamente rápida, o país se orgulha de ter erradicado a pobreza em seu território em 2020, elevando quase 100 milhões de trabalhadores rurais para acima da linha da pobreza, definida pela ONU como a condição de qualquer pessoa que tenha renda inferior a US$ 3 por dia.

Apesar disso, o país ainda apresenta intensos níveis de desigualdade social — devido às baixas pensões sociais, uma grande parcela desses trabalhadores rurais, na casa dos 60 aos 80 anos, ainda têm que fazer trabalho manual nos campos e viajar horas para vender seus produtos nas cidades.

E a situação é parecida para o interior pobre da China como um todo. Muitas cidades chinesas não conseguem acompanhar a marcha tecnológica dos grandes centros econômicos, como Xangai e Pequim. Isso é a realidade especialmente no chamado Cinturão da Ferrugem, uma região no Nordeste do país que já foi o coração industrial da China sob Mao Zedong e que hoje ganha esse nome pelas fábricas abandonadas.

Mesmo assim, o governo chinês busca implementar o avanço tecnológico como chave para o crescimento econômico, tanto em escala internacional quanto em âmbito nacional, acreditando que a modernização dessas cidades, como novos polos tecnológicos, melhorará a qualidade de vida de todos no país. Todavia, esses esforços enfrentam problemas claros que podem ter o efeito oposto, exacerbando a desigualdade social e agravando os índices de pobreza.

Centros econômicos e cidades pequenas

Apesar de tentativas de modernização, muitas cidades pobres pela China não conseguem acompanhar a velocidade dos polos econômicos (Imagem gerada por IA)

Enquanto o foco em tecnologia favoreceu cidades grandes com altos níveis de educação, proximidade ao partido comunista e uma quantia considerável de riqueza, cidades menores e mais isoladas simplesmente não conseguiram acompanhar a transição.

Isso se deve a uma miríade de fatores, como a falta de cadeias de suprimentos e de produção bem estabelecidas, a pouca infraestrutura e os baixos níveis de educação, o que resulta em poucos talentos. Cerca de 60% da força de trabalho da China — ou 500 milhões de trabalhadores, segundo a revista britânica The Economist — não possui educação além do Ensino Fundamental. A maior parte dessas pessoas mora nas cidades mais pobres do país.

Além disso, um grande número de jovens está saindo do interior em busca de melhores oportunidades nas metrópoles. Nos últimos dez anos, a população da cidade de Tianshui, na província de Gansu, perto do Cinturão, caiu em cerca de meio milhão de habitantes devido à migração, apesar de esforços de modernização como a inauguração de novos parques industriais que planejam atrair empresas com promessas de território e benefícios fiscais.

Nem mesmo um novo museu, chamado "Tianshui Industry 2050", que exibe diversos produtos de alta tecnologia produzidos na cidade, foi capaz de impedir a migração. O PIB per capita da cidade equivalia a 16% do de Pequim há 10 anos, e hoje em dia, apesar das inovações, caiu para 14%. O caso de Tianshui não é único: muitos polos industriais que foram importantes ao longo do século XX não conseguiram competir com a transição da China para uma economia de mercado nas décadas de 1980 e 1990.

Apesar das novas fábricas e promessas de modernização, outro problema persistente são os salários e oportunidades. À medida que a automatização torna certos empregos obsoletos, o salário de trabalhadores que optam por continuar nessas cidades, mesmo nos melhores casos, é apenas uma fração do que se encontra em cidades como Xangai e Pequim.

Apesar de as indústrias de alta tecnologia também criarem empregos bem remunerados, por exemplo, em pesquisa e desenvolvimento, essas vagas se concentram principalmente em grandes cidades próximas ao litoral da China, como Pequim, Xangai e Shenzhen. Essas cidades concentram as melhores universidades, grandes fontes de talento para a indústria da tecnologia entre os graduados e o acesso às cadeias de suprimentos mais densas.

Os salários no setor de tecnologia nesses locais dispararam nos últimos anos, com alguns ultrapassando 1 milhão de yuans (cerca de R$ 753 mil) por ano. Mas poucas regiões do interior da China têm chance de atrair esses empregos, diz à Economist Dan Wang, da consultoria Eurasia Group. "A grande maioria das cidades chinesas está presa ao que já possui."

Impacto de crises

Crise imobiliária na China afeta cidades menores e mais pobres de maneira desproporcional (REUTERS)

Mesmo se esforçando para a modernização, essas cidades mais pobres são desproporcionalmente afetadas pelas diversas crises econômicas do país. Por exemplo, a intensa crise imobiliária que assola a China agora fez com que os investimentos em imóveis na cidade tenham caído em mais de 40% no ano passado. Por sua vez, isso afeta o consumo, já que as pessoas se sentem mais pobres: as vendas de varejo na cidade caíram mais de 5% em 2025, com shoppings repletos de lojas e restaurantes vazios.

Essas reverberações agravam ainda mais os problemas das pequenas cidades chinesas em um efeito em cascata. Um estudo publicado em abril pelo economista Li Shi, da Universidade de Zhejiang, concluiu, com base em levantamentos populares, que trabalhadores nas regiões mais pobres da China viram seus salários aumentarem apenas 2% ao ano entre 2018 e 2023, menos da metade da média nacional de 5% ao ano.

De acordo com o jornal chinês Xinhua, afiliado ao Partido Comunista, o investimento em tecnologia "abasteceu o crescimento econômico da China, mas seus retornos gradualmente diminuíram. E o governo percebe a dinâmica: o novo plano quinquenal, que abrange os planos econômicos da China até 2030, inclui "investimento em pessoas" tanto quanto o investimento em fábricas, em uma tentativa de tornar a economia mais igualitária.

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