Baleias assassinas? Sim, e canibais também, diz estudo

Por Paloma Lazzaro 25 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Baleias assassinas? Sim, e canibais também, diz estudo

As orcas são um dos animais marinhos mais complexos do planeta e, frequentemente, surpreendem os cientistas com seu comportamento.

Conhecidas também como baleias assassinas, a inteligência e a complexidade social dos cetáceos são tão notáveis quanto à sofisticação e poder de caça dos predadores, que ocupam o topo da cadeia alimentar marinha. Nos últimos anos, os animais já foram flagrados afundando iates diversas vezes no Estreito de Gibraltar, no sul da Espanha, e caçando os temidos tubarões brancos.

Um novo estudo dinamarquês publicado na revista Marine Mammal Science adiciona mais uma camada de complexidade ao comportamento desses animais: evidências de que orcas podem, ocasionalmente, predar e consumir outras orcas.

Como os cientistas descobriram o canibalismo?

A descoberta começou com dois achados inusitados na ilha de Bering, na Rússia.

Em 1º de agosto de 2022, o pesquisador russo Sergei Fomin encontrou uma nadadeira dorsal arrancada, com cerca de 47 centímetros de altura, provavelmente de um filhote. Dois anos depois, em 31 de julho de 2024, ele encontrou uma segunda nadadeira a aproximadamente dois quilômetros do local original, desta vez maior, com 71 centímetros, provavelmente de uma fêmea adulta ou macho jovem. Ambas apresentavam marcas frescas compatíveis com dentes de orca.

As fotografias chegaram a Olga Filatova, pesquisadora de baleias da Universidade do Sul da Dinamarca e autora principal do estudo.

Para confirmar a origem das marcas, a equipe realizou análise genética do DNA de amostras de pele de ambas as nadadeiras. O resultado indicou que as vítimas eram orcas residentes, a subespécie Orcinus orca ater, que se alimenta principalmente de peixes e habita as águas costeiras da região.

A suspeita recai sobre as chamadas orcas de Bigg, Orcinus orca rectipinnus, a subespécie transitória que também circula pela mesma região e que caça presas de grande porte, como focas, leões-marinhos, outras baleias e até tubarões-brancos.

Os pesquisadores não descartam que as nadadeiras possam ter vindo de animais que morreram por outras causas e foram posteriormente consumidos. No entanto, consideram essa hipótese menos provável: orcas mortas costumam afundar rapidamente, tornando-as inacessíveis.

O padrão de dano nas nadadeiras também é consistente com o comportamento típico de predação das orcas de Bigg, que costumam consumir suas presas e deixar apenas partes pequenas e duras.

Vale destacar que registros anteriores de canibalismo entre orcas são raríssimos. Segundo o próprio estudo, a única evidência documentada anteriormente data da era da caça comercial de baleias, quando restos de orcas foram encontrados no estômago de dois indivíduos da mesma espécie no Hemisfério Sul.

Por que as orcas são conhecidas como 'baleias assassinas'?

O apelido "baleia assassina" reflete bem a capacidade predatória das orcas, mas esconde uma diversidade biológica surpreendente.

No Pacífico Norte, três ecótipos foram identificados pelos pesquisadores: as residentes, que se alimentam principalmente de peixes como o salmão e vivem em grandes grupos familiares estáveis liderados por fêmeas; as orcas de Bigg, que caçam mamíferos marinhos em grupos menores e mais fluidos; e as orcas oceânicas, que se alimentam principalmente de tubarões e percorrem grandes distâncias mar adentro.

As orcas de Bigg formam grupos menores e mais flexíveis, com dispersão pós-natal comum, uma estrutura considerada mais eficiente para a caça furtiva de mamíferos marinhos de grande porte.

O novo estudo propõe que essa coesão familiar extrema das orcas residentes pode ter evoluído justamente como resposta à pressão predatória das orcas de Bigg.

"É muito provável que essa pressão de predação as tenha forçado a desenvolver sua estrutura familiar única e unida, em que se protegem mutuamente e, assim, aumentam suas chances de sobrevivência", explica Filatova à Deutsche Welle.

Cientistas não chegaram em consenso sobre as orcas

A questão de se o comportamento observado constitui de fato canibalismo não é simples, nem do ponto de vista taxonômico, nem do ecológico.

Do ponto de vista taxonômico, Orcinus orca é formalmente uma única espécie, o que tornaria o consumo entre indivíduos um caso de canibalismo. No entanto, as diferenças entre residentes e orcas de Bigg são tão profundas que alguns pesquisadores defendem que elas deveriam ser tratadas como espécies distintas.

"Elas vivem em grupos isolados uns dos outros, não socializam entre grupos e não cruzam entre si. É muito provável que as orcas caçadoras não percebam as que se alimentam de peixes como parte da sua própria espécie", afirma Filatova à Deutsche Welle.

Pesquisadores externos ao estudo expressaram cautela. Luke Rendell, biólogo da Universidade de St. Andrews, na Escócia, considerou os achados interessantes, mas insuficientes para conclusões definitivas.

"Ainda não há evidências suficientes para construir uma explicação sólida da evolução social das orcas piscívoras", afirmou ao veículo Live Science. Michael Weiss, diretor de pesquisa do Centro de Pesquisa de Baleias em Washington, considerou "possível que as orcas de Bigg tenham predado essas duas baleias", mas ressaltou que o estudo "não demonstra definitivamente o canibalismo nem a predação" entre orcas.

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