Bancada do PT reage à decisão dos EUA sobre PCC e CV e fala em 'ingerência'
A bancada do PT na Câmara dos Deputados divulgou nesta quinta-feira, 28, uma nota em que acusa parlamentares ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro de articularem junto ao governo dos Estados Unidos a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.
O posicionamento ocorre após o Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciar a inclusão do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) em listas americanas de organizações terroristas estrangeiras. A medida passa a valer em 5 de junho.
Na nota, assinada pelo líder da bancada petista, Pedro Uczai, o partido afirma que a decisão representa uma “ingerência” estrangeira e atribui a articulação ao senador e pré-candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro, e seu irmão e ex-deputado Eduardo Bolsonaro.
Segundo o governo americano, PCC e CV passarão a receber as designações de Specially Designated Global Terrorists (SDGTs) e Foreign Terrorist Organizations (FTOs), categorias utilizadas para impor sanções econômicas, restrições financeiras e limitações de circulação internacional.
Em comunicado, Washington afirmou que as facções brasileiras possuem milhares de integrantes e seriam responsáveis por ataques contra policiais, autoridades públicas e civis. O texto também aponta que a atuação dos grupos ultrapassa o território brasileiro e alcança outros países da América Latina e os próprios Estados Unidos.
“O governo Trump continuará usando todas as ferramentas disponíveis para proteger nossa nação e nossos interesses de segurança nacional”, afirmou o Departamento de Estado.
A decisão foi anunciada dias após uma visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca. Após encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o senador afirmou ter solicitado que PCC e CV fossem enquadrados como organizações terroristas.
O governo brasileiro atuava nos bastidores para tentar evitar a adoção da medida pelos Estados Unidos. A gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem defendido o fortalecimento de instrumentos de cooperação internacional, investigação patrimonial e combate financeiro às facções, além do avanço da PEC da Segurança Pública.
Especialistas avaliam que a classificação americana pode ampliar riscos jurídicos e financeiros para empresas que atuam em regiões sob influência do crime organizado, além de elevar restrições no sistema financeiro internacional.
Durante participação no Fórum Internacional de Segurança em Moscou, o assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, afirmou que equiparar facções criminosas a grupos terroristas “não ajuda” no combate ao crime organizado.
Leia a nota na íntegra
"OS BOLSONARISTAS QUEREM ENTREGAR O BRASIL AO TRUMP
A Bancada do PT na Câmara denuncia a articulação da extrema-direita sob a condução de Flávio e Eduardo Bolsonaro para estimular os Estados Unidos a classificarem facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. A manifestação norte-americana representa uma resposta ideológica da extrema direita mundial à proposta séria de cooperação internacional apresentada pelo Brasil aos EUA em visita recente, baseada em devolução de fugitivos, repatriação de valores, troca de informações, asfixia financeira e combate real ao crime organizado. Em vez de cooperação, a extrema direita oferece sanções, ingerência, pressão econômica e submissão do Brasil aos interesses de estrangeiros.
O PCC, o Comando Vermelho e todas as organizações criminosas devem ser combatidos com firmeza. Foi exatamente por isso que o governo Lula apresentou o PL Antifacção, aprovado pelo Congresso Nacional, fortalecendo investigação patrimonial, asfixia financeira das facções, combate à lavagem de dinheiro, cooperação federativa, inteligência e controle de fronteiras, e a PEC da Segurança, que pretende inserir o governo federal na coordenação da segurança pública. Durante esse debate, a tentativa de tratar facções criminosas como terrorismo foi discutida e derrotada pelo Parlamento brasileiro. Flávio e Eduardo Bolsonaro tentam agora buscar em Washington aquilo que perderam no Congresso Nacional.
A classificação pode produzir consequências financeiras desastrosas e ampliar os prejuízos à economia brasileira, como já ocorreu com as tarifas impostas pelos EUA. Se instituições financeiras, bancos, empresas ou intermediários forem acusados de lavar dinheiro, movimentar valores ou facilitar pagamentos ligados a facções, o sistema financeiro brasileiro pode ser contaminado por fuga de investimentos, sanções, bloqueio de ativos, perda de correspondentes bancários, travamento de operações internacionais e restrição de crédito.
A medida também ameaça milhões de pessoas que vivem ou trabalham em territórios dominados pelo crime organizado, criando barreiras para circulação, serviços, contas bancárias e crédito. Além disso, pode prejudicar a cooperação penal internacional, de modo a substituir a participação da inteligência policial pela lógica militar e abrir espaço para pretensões de atuação extraterritorial, medidas coercitivas e até ação armada contra o Brasil, como propôs Flávio Bolsonaro ao pedir o bombardeio de barcos brasileiros na Baía de Guanabara.
A família Bolsonaro presta mais um desserviço ao Brasil. Depois de reivindicar sanções, tarifas e pressões estrangeiras contra a economia brasileira, de oferecer as nossas riquezas como os minerais críticos, Flávio e Eduardo avançam agora sobre a segurança pública nacional, usando o crime organizado como pretexto para entregar o país ao comando de Trump. A mesma família que acumula relações com o crime organizado no Brasil tenta posar de defensora da segurança enquanto conspira contra o povo brasileiro. O Brasil precisa combater o crime organizado com Estado forte, soberania e lei brasileira. O Brasil não é colônia. O Brasil é dos brasileiros!
Brasília, 28 de maio de 2026.
PEDRO UCZAI Líder do PT na Câmara dos Deputados"
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