Bancos chineses defendem menor posição em Treasuries; entenda
Reguladores chineses orientaram recentemente instituições financeiras do país a reduzir a exposição a títulos do Tesouro dos Estados Unidos (EUA), conhecidos como Treasuries. O objetivo central da recomendação é diminuir riscos de concentração e proteger os balanços bancários contra a crescente volatilidade do mercado internacional de renda fixa, segundo fontes ouvidas pela Bloomberg.
No mercado, a reação foi imediata. Os rendimentos dos Treasuries de referência inverteram o movimento inicial e avançaram até quatro pontos-base, alcançando 4,25%, depois de terem oscilado próximos a 4,22% no início do pregão. Os títulos de 30 anos também registraram alta, de dois pontos-base, para 4,87%.
No câmbio, o dólar perdeu fôlego, com o índice Bloomberg Dollar Spot recuando 0,2%, o que reflete o desconforto dos investidores com a perspectiva de menor apetite chinês por Treasuries e com as incertezas sobre o ambiente fiscal dos Estados Unidos, na visão dos especialistas consultados pela agência.
A diretriz foi transmitida de forma verbal aos principais bancos chineses nas últimas semanas e reflete uma preocupação crescente das autoridades de Pequim com o volume elevado de dívida pública americana detido por instituições locais.
Na avaliação dos reguladores chineses, posições excessivas nesses ativos podem deixar o sistema financeiro mais vulnerável a oscilações abruptas de preços e mudanças nas condições monetárias globais.
O movimento ocorre em um cenário de turbulência nos mercados internacionais, marcado por fortes correções recentes no preço do ouro e por perdas expressivas no mercado de títulos do Japão, reforçando a busca da China por maior diversificação de suas reservas e fontes de segurança financeira.
Gestão de risco e diversificação estratégica
A orientação foi apresentada pelas autoridades chinesas como uma medida estritamente técnica de gestão de risco, e as fontes destacam que a decisão não reflete uma ruptura geopolítica nem uma perda estrutural de confiança na solvência dos EUA, até por causa da estabilização das relações bilaterais decorrente de uma trégua comercial firmada entre os dois.
O foco central é a prudência financeira, por isso, não foram definidas metas numéricas nem prazos específicos para a adequação das instituições, o que indica uma abordagem flexível e preventiva, de acordo com especialistas consultados pela Bloomberg.
Os reguladores instruíram os bancos a limitar novas aquisições de Treasuries e recomendaram que instituições com exposições consideradas elevadas reduzam gradualmente suas posições atuais.
A diretriz, contudo, tem alcance restrito, aplicando-se, exclusivamente, às instituições financeiras chinesas, que detinham aproximadamente US$ 298 bilhões em ativos denominados em dólares em setembro.
As reservas oficiais de Treasuries mantidas pelo governo central permanecem fora dessa orientação, na busca de preservar o caráter técnico da medida, não político.
O declínio histórico da participação chinesa
A orientação reforça uma tendência estrutural que já se estende por mais de uma década: a redução gradual da presença da China no mercado de dívida dos EUA. Desde o pico registrado em 2013, o estoque chinês de Treasuries praticamente caiu pela metade. Em novembro, o volume recuou para US$ 682,6 bilhões, o menor nível desde 2008. A fins de comparação, US$ 1,32 trilhão eram detidos em 2013.
A China, que já ocupou a posição de maior credora externa dos EUA, passou a figurar apenas como a terceira maior detentora desses ativos. O país foi ultrapassado pelo Japão em 2019 e, mais recentemente, pelo Reino Unido no ano passado, evidenciando uma mudança relevante na composição dos financiadores da dívida americana.
Analistas escutados pela Bloomberg ponderam que parte dessa redução pode refletir apenas uma realocação contábil, com ativos transferidos para contas de custódia em centros financeiros europeus.
Todavia, os dados oficiais apontam para um movimento consistente de afastamento estratégico de Pequim em relação aos títulos americanos, em linha com o esforço de diversificação de reservas e de diminuição da exposição ao dólar.
Incertezas fiscais e o cenário de mercado
A postura cautelosa dos reguladores chineses reflete preocupações que também ganham força entre investidores globais. Cresce o debate sobre a disciplina fiscal dos EUA e sobre a solidez do tradicional status de “porto seguro” da dívida americana, bem como da própria atratividade do dólar como principal moeda de reserva internacional.
Essas dúvidas foram intensificadas pelas incertezas em torno do compromisso da administração do presidente norte-americano Donald Trump com uma moeda forte e com a independência do Federal Reserve (Fed).
Nos últimos meses, Trump indicou não se opor ao enfraquecimento do dólar, que recuou para o menor nível desde o início de 2022, ao mesmo tempo em que amplia o discurso sobre tarifas comerciais e prepara novas rodadas de diálogo diplomático com o presidente chinês Xi Jinping.
Diversificação de portfólio virou prioridade
Apesar da orientação de Pequim para que bancos chineses reduzam a exposição a Treasuries, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou, via Bloomberg, que o mercado de títulos americanos registrou, no último ano, seu melhor desempenho desde 2020, com participação estrangeira recorde nos leilões de dívida.
O estrategista-chefe de investimentos da Saxo Capital Markets, Charu Chanana, em Singapura, pontuou que “ainda é mais diversificar do que desdolarizar, mas isso pode dar ao mercado mais fôlego para a tese de desvalorização”, disse à Bloomberg.
A diretriz de Pequim reforça um entendimento mais amplo de que a diversificação de portfólio se tornou prioridade estratégica para grandes detentores de dívida americana, como forma de proteger as finanças domésticas dos impactos da volatilidade externa.
Para o mercado, essa combinação de pressões fiscais, ruídos políticos e volatilidade cambial reforça o movimento de diversificação de reservas por parte da China e de outros grandes detentores de Treasuries, elevando questionamentos sobre o papel estrutural da dívida americana no sistema financeiro global.
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