Belém decreta emergência por chuva recorde e expõe o limite das obras da COP30
Meses após sediar a conferência climática da ONU (COP30), a maior chuva dos últimos 10 anos "afoga" Belém do Pará.
A Prefeitura decretou emergência na noite deste domingo, 19, após o volume de água ultrapassar 150 milímetros em menos de 24 horas, uma média esperada para todo o mês de abril.
O cenário foi agravado pela maré alta de 3,6 metros, o que dificultou o escoamento das águas e levou ao alagamento das áreas mais vulneráveis da capital paraense que já é mais suscetível a problemas por ser composta por ilhas.
Em vídeo publicado nas redes sociais, o prefeito Igor Normando (MDB) afirmou que uma força-tarefa atua nos bairros afetados e que o decreto busca viabilizar apoio dos governos Federal e Estadual para expandir o atendimento às famílias e recuperar os locais mais impactados. A prefeitura ainda não contabilizou o número de vítimas atingidas.
O legado da COP30 e as obras de R$ 1,4 bilhão
Em novembro de 2025, Belém foi o berço do debate climático global e sediou a grande conferência da ONU. Como legado da COP30, a prefeitura e o governo estadual anunciaram no início deste ano o maior ciclo de obras de saneamento da história da cidade amazônica, com investimentos superiores a R$ 1,4 bilhão para aumentar a resiliência frente a eventos extremos.
Desde então, a cobertura de esgotamento sanitário na área urbana saltou de 18,79% para 38,68% e treze canais de macrodrenagem foram requalificados ou construídos.
Mas a chuva deste fim de semana expôs fragilidades que as obras, sozinhas, não conseguiram resolver. A maré alta de 3,6 metros é um fenômeno agravado pelas mudanças climáticas e travou o sistema de drenagem em diversos pontos.
Bairros como Terra Firme (o mais afetado), Condor, Jurunas, Icoaraci, Tapanã, Parque Verde e Cabanagem registraram alagamentos severos, enquanto árvores caíram na Pedreira e no Curió-Utinga.
Segundo estudo de 2025 do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Belém possui quase 400 áreas de risco, sendo 301 suscetíveis a inundações e 88 a deslizamentos.
Cerca de 10% da população (mais de 150 mil pessoas) vive em áreas críticas, como várzeas e ilhas como Mosqueiro e Outeiro.
Resposta emergencial e desafios estruturais
A Prefeitura informou que equipes do Centro de Operações, Defesa Civil, Zeladoria e Ciência Social estão nos bairros atuando diretamente para driblar os efeitos mais severos da chuva recorde.
Entre as medidas adotadas a ampliação de vagas em abrigos para pessoas em situação de rua e os pontos de coleta de doações (colchões, itens de higiene, cestas básicas, alimentos não perecíveis e roupas).
Em nota, a administração municipal pede que a população evite áreas de risco. Por outro ado, especialistas alertam que a resposta rápida não substitui um plano estruturante de adaptação climática.
O que Belém precisa é integrar: sistemas de alerta antecipado com comunicação popular eficiente, habitação de interesse social fora das áreas de várzea, infraestrutura verde (pavimentos permeáveis, jardins de chuva) aliada à drenagem cinza (canais, bombas) e planejamento que considere cenários de maré alta simultânea a chuvas extremas.
O desastre é mais um retrato da crise climática. O Brasil tem quase 2 mil municípios com alto risco geo-hidrológico, segundo o Cemaden. E a conta global da inação já é bilionária.
Um estudo inédito do Boston Consulting Group (BCG) e do Fórum Econômico Mundial (WEF) apontou que desastres climáticos causaram mais de US$ 3,6 trilhões (R$ 21 trilhões) em prejuízos no mundo e as mudanças climáticas podem reduzir o PIB global em 22% até 2100.
Adaptar as cidades se torna uma necessidade não só ambiental, como econômica, social e humanitária.
Para Belém, a lição é amarga. Enquanto a COP30 colocou a Amazônia nos holofotes e atraiu mais investimentos, a maior chuva em dez anos mostra que resiliência não se decreta na véspera e se constrói com planejamento contínuo.
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