'Bets estão drenando o consumo do brasileiro', diz indústria da carne bovina
O avanço das plataformas de apostas online no Brasil passou a preocupar o agronegócio, especialmente a indústria de carne bovina. Segundo Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), o crescimento das bets já impacta diretamente o consumo interno — peça-chave para sustentar o setor diante de incertezas no mercado externo, com cotas da China e caos geopolítico.
"O que estamos observando é que as bets estão drenando a capacidade de consumo da sociedade brasileira, o que impacta diretamente o setor de alimentos e, naturalmente, o setor de proteínas", diz em entrevista à EXAME.
Segundo dados da Athenagro, consultoria agrícola, com base em informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o consumo doméstico de carne bovina no Brasil, medido em mil toneladas equivalente carcaça (TEC), foi de 8,089 milhões de toneladas em 2024 e de 7,869 milhões em 2025. Para este ano, a estimativa é de leve alta para 7,892 milhões em 2026.
Na mesma linha, a disponibilidade per capita (kg de carcaça por habitante ao ano) — que expressa quanto dessa carne corresponde, em média, a cada brasileiro ao longo do ano — foi de 37,73 kg por pessoa em 2024, 36,46 kg em 2025 e 36,31 kg em 2026.
Para Perosa, uma das principais soluções apresentadas pelo setor ao governo para minimizar os impactos sobre o consumo é a necessidade de uma regulação mais rígida das plataformas de apostas. Segundo ele, é fundamental limitar a exposição e o alcance dessas plataformas, especialmente as que promovem jogos de cassino online.
Leia a entrevista completa:
Por que o setor de carne bovina está em alerta sobre o consumo no Brasil?
Roberto Perosa: Na verdade, o setor de proteína animal, especialmente o de carne bovina, antevê uma limitação nas exportações no segundo semestre, principalmente devido à questão da cota da China. Diante disso, estamos buscando alternativas para evitar que a atividade do setor desacelere. Além das novas aberturas de mercado, que estão em negociação, queremos fortalecer o mercado interno, aumentando a capacidade de compra das pessoas.
Mas o que está acontecendo com o consumo na sua avaliação?
Roberto Perosa: Hoje, as pesquisas indicam que há uma capacidade de renda no mercado interno, ou seja, a renda na sociedade brasileira cresceu. No entanto, a disponibilidade financeira é limitada devido ao alto nível de endividamento das pessoas, além de uma parte significativa dessa renda estar sendo direcionada para os jogos de apostas. O que estamos observando é que as bets estão drenando a capacidade de consumo da sociedade brasileira, o que impacta diretamente o setor de alimentos e, naturalmente, o setor de proteínas. Nossa principal preocupação é que seja necessária uma regulação mais rigorosa das apostas, para evitar que isso continue comprometendo a capacidade da população de consumir os alimentos produzidos no Brasil.
Existem estudos que comprovam essa relação das bets com o consumo
Roberto Perosa: Foi realizada uma série de pesquisas e, apesar da dificuldade em se admitir, muitas pessoas não revelam que jogam em apostas, por vergonha. Porém, aqueles que assumem que jogam costumam retirar esse dinheiro do consumo diário. Isso significa que deixam de comprar itens adicionais no supermercado, de ir a restaurantes ou de fazer compras cotidianas para investir em apostas. Quando alguém investe em bets, está retirando parte da sua renda. Com isso, a pessoa deixa de adquirir produtos essenciais para sua subsistência. Por exemplo, o aluguel ela não vai deixar de pagar, pois precisa de um lugar para morar, mas ela vai reduzir gastos com alimentos e outros itens básicos.
Quais as demandas o setor de alimentos levou ao governo para mitigar os impactos?
Roberto Perosa: Existem, por exemplo, as bets esportivas, essas famosas casas de apostas. O que muita gente não sabe é que grande parte do faturamento delas não vem das apostas esportivas propriamente ditas. A propaganda na televisão é focada nas apostas esportivas, com jogadores de futebol, narradores e outros, mas, ao acessar a plataforma, percebe-se que 80% da receita vem do cassino online, como blackjack e roleta. Uma possível solução seria limitar essas plataformas, permitindo que quem faz propaganda massiva de apostas esportivas não tenha autorização para oferecer cassino online, restringindo-se apenas à aposta esportiva.
Para o setor de proteína existem outras preocupações além das bets?
Roberto Perosa: O tema do consumo de carne bovina é muito mais complexo do que isso. Além disso, há várias questões a serem abordadas, como as rifas ilegais, especialmente as rifas online feitas no Nordeste. Também há a parte ilegal das bets, que não tem sido suficientemente combatida. É necessária uma ação mais eficaz da Anatel para bloquear esses sites. Há uma série de medidas que precisam ser tomadas para coibir essas práticas, que estão afetando o consumo das famílias.
Pergunta: O cenário do consumo de carne é mais amplo?
Roberto Perosa: Nos últimos anos, investimos em alta tecnologia e na modernização do campo e das agroindústrias, o que nos permitiu alcançar uma capacidade de produção muito grande. Conseguimos nos adequar tanto ao mercado interno, que consome 70% de toda a carne bovina que produzimos, quanto ao mercado externo, que representa 30%. Além disso, nos especializamos na exportação para atender mercados específicos, como o halal e o asiático, entre outros. No entanto, o que estamos observando agora são uma série de questões geopolíticas que estão fora do nosso controle e que afetam o consumo da carne. São guerras, imposição de cotas, aumento de tarifas — o famoso 'tarifaço'. Tudo isso impacta diretamente o consumo e, se deixarmos de consumir, há um efeito em toda a cadeia, com a redução de preços e o desestímulo à produção.
Como o setor está enxergando o momento atual?
Roberto Perosa: O setor está muito cauteloso, pois estamos enfrentando desafios muito grandes. As questões geopolíticas e a imposição de cotas se tornaram grandes dificuldades para o setor. Isso pode levar a um desestímulo à produção, e é exatamente isso que queremos evitar. Estamos buscando outras alternativas, dialogando com o governo para abrir novos mercados, como Japão, Turquia e Coreia do Sul, e acelerar essas negociações. Também estamos trabalhando para incentivar o consumo no mercado interno, oferecendo mais possibilidades para as pessoas consumirem. Porém, não basta o governo simplesmente disponibilizar dinheiro; ele precisa adotar ações que aumentem a capacidade de recursos das pessoas, ao mesmo tempo em que evita que essa renda seja drenada para gastos como apostas.
Nesse contexto o setor estima queda na exportação? A produção de carne no Brasil deve ser afetada?
Roberto Perosa: Pode haver uma diminuição nas exportações, dependendo do comportamento da China. Há, sim, a possibilidade de uma ligeira queda nas exportações totais de carne bovina brasileira. O primeiro semestre será muito forte, mas o segundo semestre tende a ser de menor intensidade. Quanto à produção, não há risco, pois temos o maior rebanho comercial do mundo e a melhor indústria do setor, com alta capacidade produtiva. No entanto, ninguém vai produzir se não houver mercado para vender. Por isso, a indústria está muito convicta de que é necessário abrir novos mercados, já que os mercados atuais não são suficientes para sustentar a produção como no ano passado.
Existe risco econômico mais amplo?
Roberto Perosa: Qualquer negócio precisa de viabilidade econômica. Quando essa viabilidade começa a ser comprometida, surgem problemas de gestão e, como sabemos, isso pode levar a uma série de dificuldades quando a empresa não vai bem. E é justamente isso que estamos trabalhando para evitar.
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