Biocombustível passou a atrair mais atenção na Europa, diz CEO da Bayer
Hanover - Em meio à crise no mercado de petróleo gerada pela guerra no Irã, a Europa passou a se interessar mais pelos biocombustíveis, diz Márcio Santos, CEO da Bayer no Brasil
"Ninguém gosta destes conflitos, mas eles trazem uma conscientização, para um nível diferente, de que a gente precisa ter fontes alternativas de energia", disse Santos à EXAME durante a feira Hannover Messe, na Alemanha.
"O que se falou em biocombustível nesse evento é muito mais do que você falou em todos os outros somados", afirmou.
"O Brasil é uma solução viável para a descarbonização do transporte através de combustível sustentável. Dez anos atrás, a produção de etanol à base de milho no Brasil era de perto de zero. No último ano, foram mais de 6 bilhões de litros. Esse crescimento abre oportunidades para a indústria, gera emprego no interior, serviços de transporte e movimenta a economia brasileira", afirma.
Veja a seguir mais trechos da entrevista.
Quais são os principais destaques que a Bayer trouxe para a Hannover Messe?
O nosso papel aqui é mostrar primeiro a sustentabilidade do agronegócio. Todos nós que estamos aqui ouvimos falar imensamente de biocombustíveis. O Brasil é uma solução viável para a descarbonização do transporte através de combustível sustentável.
Mas isso não nasce num litro de biodiesel nem de etanol. Isso nasce numa fazenda, numa plantação de soja e de milho. Então, o nosso primeiro papel é mostrar como a agricultura brasileira é sustentável. Nós ocupamos 9% do território brasileiro com agricultura. A gente aumentou a produção muitas vezes sem aumentar a área.
De 2005 a 2025, a área dobrou, a produção cresceu seis vezes. Isso é a adição de tecnologia, e o que nós estamos vendo nessa feira é tecnologia em todos os lugares. Isso aconteceu na agricultura, abrindo o caminho para o biocombustível, porque o Brasil se tornou um ambiente estruturado para fazer negócios.
O Brasil começou a falar em biocombustíveis em 1975. Hoje tem muita gente falando, mas o Proálcool é de 75. Em 83, a gente começou a desenvolver uma tecnologia para produzir grãos que viabilizariam isso.
Como a Bayer se insere neste mercado?
Temos o maior programa de identificação da pegada de carbono em meio tropical do mundo feito no Brasil, mais de 3.000 produtores, 5 anos, 40 instituições trabalhando em conjunto com a gente. O que nós fazemos é trazer sementes de genética melhorada, biotecnologia, produtos químicos sustentáveis e agricultura digital.
O que falta para o Brasil destravar a venda de combustíveis para a Europa?
Primeiro, tem que haver uma conscientização da relevância disso. Ninguém gosta do que está acontecendo agora no mundo, mas esses conflitos trazem uma conscientização de que a gente precisa ter fontes alternativas de energia. O que se falou em biocombustível nesse evento é muito mais do que se falou em todos os outros somados.
O outro lado é um papel nosso de mostrar que existe uma rota para que isso aconteça e isso conversa muito com o trabalho institucional e que é o trabalho que a gente faz também, não só através de nós, mas da Câmara Brasil-Alemanha.
Como o acordo entre União Europeia e Mercosul, que entra em vigor no dia 1º de maio, poderá beneficiar os negócios?
A gente precisa celebrar e olhar para o mundo de oportunidades que pode se abrir para nós. São mais de 500 produtos da pauta com que a gente pode começar a fazer negócio já. A gente ainda precisa analisar todas as dimensões que podem nascer daí. O acordo acontece em um ambiente de reforma tributária no Brasil e de crescimento do Brasil. Então nós temos três vetores que a gente precisa olhar.
Hoje, quando a gente pensa na nossa base instalada no Brasil, a gente muito possivelmente vai precisar ampliar isso. Como fazer isso olhando para esses novos e diferentes vetores, é algo em que a gente está trabalhando.
Em conceito, toda abertura e remoção de barreiras, para uma empresa que atua em quase 100 países, são benéficas. Hoje, você tem processos que acontecem em vários países. E eles trocam de continente. O produto nasce num país, viaja para outro, faz um processo intermediário, vai para outro.
Como vê as perspectivas para o mercado brasileiro neste ano?
O agronegócio brasileiro, uma parte importante do nosso negócio, cresceu muito nos últimos anos e vive um momento de desafio agora. Isso é um desafio estrutural, de preço de commodity e outros fatores climáticos. Mas eu vejo uma avenida de oportunidade para nós com biocombustível.
O que a gente teve na feira essa semana agora foi algo fantástico, porque todas as entidades que estiveram aqui, incluindo o Governo Brasileiro, Câmara Brasil-Alemanha, CNI, todo mundo com uma pegada muito grande de mostrar o potencial do biocombustível.
Vou te dar um dado: dez anos atrás, a produção de etanol à base de milho no Brasil era perto de zero. Esse último ano foi mais de 6 bilhões de litros. Esse crescimento abre oportunidade para a indústria, gera emprego no interior, serviço para o transporte, movimenta a economia brasileira.
O que tem ouvido dos alemães sobre o Brasil aqui na feira?
Os alemães com quem interagimos aqui têm duas grandes preocupações. A agricultura brasileira é sustentável ou não? Ele está preservando o ambiente? Viemos aqui mostrar, olha, a gente faz as coisas de maneira correta. Todos os setores têm desafios a vencer, mas a gente, prioritariamente, faz as coisas de maneira muito correta.
A segunda dúvida que tem é, vocês vão fazer combustível, mas vocês vão acabar com a comida do planeta. Também não é correto. Porque o nosso combustível é quase a definição da economia circular. Você pega uma tonelada de milho, você faz 400 litros de etanol, faz 250 a 300 kg de DDG, que é o grão destilado. Esse DDG, você alimenta o animal, que produz carne, que produz um dejeto, do dejeto você faz biofertilizante, você planta o milho de novo e fecha o ciclo.
Na soja, é a mesma história: você esmaga uma tonelada, faz biodiesel; você tira farelo; você faz leite e proteína animal; você gera dejeto; você gera biofertilizante. Não tem comida versus combustível e a agricultura é sustentável.
O repórter viajou a convite da Câmara Brasil-Alemanha de São Paulo.
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