'Biohacker': será que realmente estamos obcecados por otimizar a saúde?
Um relógio que monitora seu sono e todos os seus passos, um anel que acompanha seus sinais vitais, aplicativos que transformam sua rotina em dados, suplementos organizados para cada momento do dia, dietas ajustadas para performance, sessões de crioterapia para recuperação e até procedimentos estéticos e hormonais — como o polêmico "chip da beleza".
Se você não usa, não fez ou nunca sentiu vontade de pelo menos uma dessas coisas, provavelmente está ficando de fora de uma das maiores tendências do momento: o biohacking.
O termo vem da junção de "bio", de biologia, com "hacking", de hackear — no sentido de modificar, reprogramar, e não de protagonizar invasões cibernéticas. O conceito é usar tecnologia para otimizar o próprio corpo. Antes, era território de milionários excêntricos do Vale do Silício, como Bryan Johnson, que investe fortunas em experimentos para retardar o envelhecimento e ser imortal.
Mas hoje a grande maioria das pessoas quer e ativamente tenta ser biohacker — às vezes sem nem se dar conta disso. Afinal, quem não quer viver mais e melhor?
Por que agora?
O movimento cresceu junto com a indústria do bem-estar, avaliada globalmente em US$ 6,8 trilhões e mais de 6% do PIB mundial, segundo o Global Wellness Institute. O impulso veio no pós-pandemia, mas foram as redes sociais que transformaram rotinas otimizadas em conteúdo — e em negócio.
O contexto ajuda a explicar. O acesso à saúde ficou mais caro e mais difícil, e a confiança nas instituições médicas e científicas enfraqueceu. Nos Estados Unidos, a ascensão de Robert F. Kennedy Jr. ao comando do Departamento de Saúde passou a promover agendas alimentares com pouca base científica. "Muitos dos elementos que nós, como sociedade, considerávamos marginais, esta administração virou de cabeça para baixo", disse Anna Wexler, professora de ética médica na Universidade da Pensilvânia, ao New York Times.
No Brasil, 84% da população ativamente alguma rotina de autocuidado, segundo pesquisa da Bayer — e 87% associam saúde diretamente ao que comem. O país movimenta cerca de US$ 96 bilhões em bem-estar, e o gasto per capita no setor já supera o com saúde e com vestuário. A dificuldade de acesso a consultas especializadas empurra muita gente a buscar respostas fora do consultório e, por vezes, as redes sociais preenchem essa lacuna — nem sempre com as ferramentas certas.
Do ponto de vista coletivo, há um motivo para comemorar: as pessoas estão mais preocupadas com a própria saúde. Por outro lado, quando esse cuidado passa a ser guiado por recomendações informais e decisões tomadas sem acompanhamento profissional, ele também fica mais arriscado.
Dieta é a porta de entrada
É na alimentação que o biohacking se popularizou. Ao New York Times, Amy Larocca, autora de How to Be Well, disse que "a dieta sempre foi o primeiro ponto de entrada" para qualquer movimento de saúde. O exemplo mais claro é shot matinal de açafrão, ou o café com manteiga ou óleo de coco que promete energia e saciedade. Se reparar bem, são duas receitas com ingredientes que qualquer um já tem em casa.
A comida virou um atalho porque deixou o biohacking relativamente fácil. Antes, era preciso desembolsar um bom valor para investir em câmaras criogênicas e saunas infravermelhas, por exemplo. Hoje, basta ir ao supermercado.
Só que acessível não significa simples. O comportamento foi se sofisticando na mesma proporção em que os produtos foram chegando às prateleiras. Se no início a ideia era trocar um ingrediente, hoje é um sistema inteiro de ajustes, com um suplemento para cada objetivo, uma combinação para cada momento, dieta que se recalibra conforme o corpo responde. Sempre há algo a otimizar, e muito provavelmente você encontrará um vídeo no TikTok com a solução.
O setor que sustenta esse comportamento é imenso. O mercado global de suplementos alimentares deve praticamente dobrar até 2033, segundo a Grand View Research, puxado sobretudo pelo crescimento de probióticos e pós nutricionais. No TikTok, a hashtag #supplementstack reúne milhares de vídeos com rotinas organizadas por suplementos — sequências quase como um cronograma, com combinações pensadas para cada parte do dia.
Dados na mão, médico de lado
Outro braço do biohacking que cresceu junto com os suplementos é o dos dispositivos de automonitoramento. Smartwatches, pulseiras e anéis inteligentes passaram a rastrear sinais vitais em tempo real. Agora, temos na ponta dos dedos as informações que, até pouco tempo, só estavam disponíveis mediante exame médico ou equipamento hospitalar.
O monitor contínuo de glicose, por exemplo, virou o gadget do momento — mas não entre diabéticos. O dispositivo, que rastreia os níveis de açúcar no sangue, passou a ser vendido diretamente ao consumidor, sem prescrição. Toda uma indústria surgiu em torno disso, com planos de assinatura e aplicativos de acompanhamento. Para quem não consegue marcar uma consulta, é uma forma de ter algum retorno concreto sobre o próprio corpo e se cuidar.
O problema é que acesso a dado não é o mesmo que capacidade de interpretá-lo. "Não estamos buscando uma avaliação holística, mas sim direcionando nossa própria saúde com base em publicidade e produtos", resume Wexler.
A ansiedade por buscar o bem-estar
Tem também o efeito colateral menos óbvio: o dado vira árbitro do próprio bem-estar. Caso o smartwatch aponte algo fora do padrão num dia em que a pessoa se sente bem, qual dos dois prevalece? Para muitos, é o dispositivo. O monitoramento constante, que prometia mais autonomia, pode gerar uma dependência de validação externa que opera na contramão da intuição corporal.
É o que aconteceu com a jornalista Pamela Paul. Em um relato ao Wall Street Journal, ela conta que comprou o anel Oura e, nas primeiras semanas, se encantou com a precisão: análises detalhadas sobre qualidade do sono, variabilidade da frequência cardíaca, pontuações diárias. O dispositivo parecia cuidar dela.
Com o tempo, a relação inverteu. Ela passou a cancelar compromissos por alertas que não correspondiam a nada, a interpretar tarefas domésticas como estresse e a tomar decisões com base em leituras que o próprio anel não sabia explicar. "Era eu que estava usando esse anel, ou era ele que estava me usando?", escreveu. Ela buscou essa resposta com o diretor médico da Oura, que foi direto: "ainda não temos todas as respostas" sobre como interpretar esses sinais com precisão. Ou seja, existem margens de erro.
O mercado global de biohacking deve saltar de US$ 22,5 bilhões em 2026 para US$ 56,3 bilhões em 2034, crescimento anual de 12%, segundo a Fortune Business Insights. Tudo isso puxado por muita determinação e dinheiro investido. No entanto, a biologia segue indiferente. Há casos emblemáticos de pessoas longevas e saudáveis, mas seus "hacks" seguem, em grande parte, desconhecidos. "Existem maneiras equilibradas de pensar sobre cuidar de si mesmo", disse Larocca ao New York Times. "E então existe tentar vencer a natureza."
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