Biondi Santi: a evolução que enaltece a história do Brunello

Por Pedro Fadanelli 13 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Biondi Santi: a evolução que enaltece a história do Brunello

Existe um rótulo que carrega sozinho boa parte do peso da história do vinho italiano. É o Brunello di Montalcino Riserva 1955, da Biondi Santi, eleito pela Wine Spectator um dos 12 melhores vinhos do século, ao lado de nomes como Château Margaux 1900 e Penfolds Grange 1955.

Foi com essa régua em mente que sentei para uma degustação em São Paulo com Giampiero Bertolini, CEO da Biondi Santi, ao lado de outros jornalistas, numa degustação organizada pela Mistral, importadora do vinho no Brasil.

A história começa em 1888, quando Ferruccio Biondi Santi engarrafou o primeiro Brunello na propriedade de Greppo. Depois vieram Tancredi, que levou o nome de Montalcino para o mundo, Franco, guardião da tradição por décadas, e Jacopo, que manteve a família à frente da vinícola até 2017. Foi nesse ano que a Greppo passou para as mãos do grupo francês EPI, dono de marcas de champagne como Piper-Heidsieck e Charles Heidsieck. Para qualquer empresário que já passou por uma sucessão familiar ou pela venda de um negócio com nome forte, a pergunta que fica no ar é sempre a mesma: o que muda quando o controle passa para fora da família que construiu a marca?

A resposta de Bertolini, repetida algumas vezes ao longo do almoço, foi evolução, não revolução. Faz sentido. A história e o nome Biondi Santi são, possivelmente, o ativo mais valioso que a vinícola tem, e ninguém ali parece disposto a colocar isso em risco. A mudança veio na forma de trabalhar a terra e o vinho, seguindo um caminho que outros produtores de Montalcino já vinham percorrendo com resultados visíveis.

Na prática, isso significou contratar Pedro Parra, o chileno conhecido como Mr. Terroir, para mapear cada pedaço da propriedade. O resultado foi a divisão da vinha em 12 parcelas, hoje colhidas e vinificadas separadamente. Outra mudança é a seleção massal das vinhas centenárias, algo raro em Montalcino, onde boa parte dos vinhedos foi replantada nas últimas décadas. Isso muda o papel do BBS11, o clone de Sangiovese selecionado por Franco nos anos 1970 e que tornou a Biondi Santi famosa. O clone segue presente, mas deixa de ser o material que sozinho dita o senso de terroir da propriedade.

O objetivo declarado é elegância e frescor, sem abrir mão da estrutura, da personalidade e da longevidade que sempre definiram a casa.

Ouvir isso de uma vinícola tradicional, recém-comprada por um grupo de luxo francês, poderia soar a discurso pronto. Mas as taças na mesa contavam outra história.

A alquimia dos botti e a safra de 2019

Um detalhe da degustação explica bem o processo. Todos os vinhos da Biondi Santi começam iguais, fermentados e conduzidos da mesma forma. É durante o envelhecimento nos botti, os grandes recipientes de carvalho tradicionais, que as diferenças aparecem. Conforme os vinhos evoluem, a equipe vai selecionando o que segue para Rosso di Montalcino, o que vira Brunello e o que tem potencial para Riserva.

Provamos o Rosso 2020 e o Brunello 2019. O Rosso é elegante e já mostra o DNA da casa. Mas o Brunello 2019 foi a grande surpresa do evento. Tem elegância, frescor e identidade, mas com uma energia viva que eu não sentia em safras mais antigas da casa, que sempre me pareceram mais fechadas e exigentes de tempo. É um vinho para abrir já, sem culpa, e que ainda assim promete recompensar quem guardar a garrafa por mais alguns anos.

Fica a lição para quem administra negócios com história. A Biondi Santi mostra que dá para trazer especialistas de fora, mudar processos e até trocar de mãos sem abrir mão do que faz a marca valer o que vale. O Brunello di Montalcino segue sendo, antes de tudo, sinônimo de Biondi Santi. E pelo que provei em São Paulo, o nome continua tendo todos os motivos do mundo para ser levado a sério.

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