Biotecnologia reúne cientistas e investidores globais em Florianópolis
A Vesper Bio começou nesta segunda-feira, 25, em Florianópolis, um encontro fechado para convidados que resume uma das principais ambições da biotecnologia brasileira: transformar pesquisa científica de ponta em empresas capazes de competir globalmente.
Durante dois dias, o Vesper Annual Meeting 2026 reunirá empresários de Boston, cientistas brasileiros e europeus, investidores, executivos, representantes do setor público e filantropos para discutir os caminhos da ciência aplicada no Brasil.
A agenda ocorre no momento em que a venture builder brasileira especializada em biotecnologia avança em uma nova rodada de captação: dos R$ 75 milhões previstos até o fim de 2026, a empresa já captou R$ 25 milhões.
Fundada em 2018, em Florianópolis, a Vesper já mobilizou mais de R$ 200 milhões entre capital privado e subvenção econômica. O grupo reúne hoje oito empresas em duas frentes principais: saúde humana e agricultura sustentável. A tese é atuar como ponte entre universidades, pesquisadores, capital e mercado, criando empresas a partir de descobertas científicas com potencial de escala.
O aporte mais recente teve a participação de investidores como membros da família Lafer, Rise Ventures e ACNext. O objetivo da holding é completar validações definitivas em campo nas empresas de agrobiotecnologia, iniciar testes clínicos nas companhias de saúde humana e adicionar uma a duas novas empresas por ano ao portfólio.
“O Brasil é referência em diversas áreas, com inúmeras pesquisas de ponta, mas que muitas vezes ficam presas nas universidades. Viemos quebrar esse paradigma e, para isso, criamos uma metodologia inovadora no país. Somos a ponte entre a ciência e o mercado, agregando gestão, capital e estratégia de propriedade intelectual”, afirma Gabriel Bottos, CEO da Vesper.
O modelo da Vesper se aproxima do formato consolidado por venture builders internacionais de biotecnologia, como a Flagship Pioneering, criadora da Moderna, e a Arch Venture Partners, nos Estados Unidos.
A diferença é que, no Brasil, esse ciclo ainda é incipiente. O país tem universidades, institutos de pesquisa e cientistas reconhecidos, mas enfrenta dificuldades históricas para transformar conhecimento acadêmico em empresas de base tecnológica com acesso a capital, propriedade intelectual protegida e gestão de longo prazo.
Na prática, a Vesper funciona como elo entre a pesquisa científica de ponta produzida no Brasil e investidores dispostos a financiar sua chegada ao mercado. A proposta é transformar ciência em negócios, conectando pesquisadores, capital, laboratórios, governança e estratégia de propriedade intelectual para posicionar o país como referência global em biotecnologia.
O mercado potencial ajuda a explicar o apetite dos investidores. No mundo, a biotecnologia movimentou cerca de US$ 1,55 trilhão em 2023 e pode chegar a US$ 3,88 trilhões até 2030, segundo estimativa da Grand View Research.
No Brasil, o potencial aparece tanto na saúde quanto no agro. Só o mercado de bioinsumos, diretamente ligado à agenda de agricultura sustentável, pode alcançar R$ 17 bilhões até 2030, segundo projeção da CropLife Brasil e da S&P Global citada pela Embrapa.
Em uma leitura mais ampla, a bioeconomia brasileira pode gerar até US$ 284 bilhões por ano em faturamento industrial até 2050, conforme estimativa da Associação Brasileira de Bioinovação.
Edição genética e bionsumos
O primeiro dia do encontro foi dedicado à saúde humana, terapias avançadas e diagnósticos. A programação incluiu discussões sobre tecnologias em RNA, vacinas, diagnósticos moleculares, inteligência artificial aplicada à biotecnologia e terapias com vírus modificados.
Entre os nomes confirmados estão Tatiana Sampaio, da UFRJ; Luiz Caires, CEO da Vyro Biotherapeutics; Rafael Bottos, CEO da Aptah Bio; Daniel Mansur, da Futr Bio; Edroaldo Lummertz da Rocha, da Cellertz; e Rogério Vivaldi, executive chair da Vesper.
O segundo dia será voltado à inovação no agronegócio. A agenda reúne nomes como Maurice Moloney, Paulo Arruda, da InEdita Bio; Adriana Hemerly, da Hapiseeds; Rafael Souza, da Symbiomics; e Gustavo Belchior, da Bayer LatAm.
Os debates incluem edição genética, bioinsumos de nova geração, genética aplicada à agricultura e tecnologias capazes de ampliar produtividade com menor dependência de insumos químicos.
No portfólio de saúde humana, a Vesper reúne empresas como a Aptah Bio, com foco em câncer; a Vyro Biotherapeutics, especializada em terapias com vírus modificados; a Futr Bio, voltada a vacinas baseadas em RNA; a Cellertz, dedicada a terapias celulares; e a Reddot, que desenvolve diagnósticos moleculares de nova geração.
Na frente de agrobiotecnologia, estão empresas como a Symbiomics, que desenvolve bioinsumos para substituir fertilizantes químicos e já recebeu investimento da americana Corteva; a InEdita Bio, com foco em edição genômica de plantas; e a Hapiseeds, voltada a tecnologias para resistência a fungos e aumento da produtividade agrícola.
A maior parte das empresas opera no hub da Vesper em Florianópolis, um polo de biotecnologia com cerca de 3 mil metros quadrados de laboratórios e escritórios. O espaço reúne cientistas, empreendedores e gestores no mesmo ambiente, em uma tentativa de encurtar a distância entre descoberta científica, validação tecnológica e construção de negócios.
O ecossistema de investidores da Vesper já inclui membros das famílias Setubal, ligada ao Itaú, e Lafer, ligada à Klabin, além da ACNext Ventures e da Rise Ventures. No campo institucional, a holding mantém parcerias com Fiocruz, BNDES e Finep, além de contar com especialistas de referência internacional em seu conselho e rede científica.
Para a Vesper, o desafio agora é provar que o Brasil pode ir além da produção científica reconhecida internacionalmente e disputar espaço também na criação de empresas globais de biotecnologia. O Annual Meeting, ao reunir capital, ciência e mercado em Florianópolis, funciona como vitrine desse movimento — e como teste para uma tese ainda pouco explorada no país: transformar laboratórios brasileiros em companhias de alcance global.
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