BofA muda tom sobre a Selic e diz que junho será último corte de 2026

Por Mitchel Diniz 5 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
BofA muda tom sobre a Selic e diz que junho será último corte de 2026

O Bank of America revisou sua projeção para a taxa Selic e passou a esperar apenas mais um corte de juros em 2026, o que levaria a taxa básica a 14,25% ao fim do ano. Antes, o banco americano projetava encerramento em 13,25%. O novo cenário foi divulgado nesta sexta-feira, 5, no relatório Brazil Watch, dedicado à prévia da reunião do Copom prevista para a próxima semana.

Segundo o documento, o corte de 0,25 ponto percentual esperado para junho será o último do ciclo atual, seguido de uma pausa que deve se estender até meados de 2027. "O cenário macroeconômico se tornou significativamente menos benigno, o que nos levou a revisar nossa projeção para a taxa de política monetária", afirma o relatório.

Inflação piora e expectativas se afastam da meta

Entre os fatores que motivaram a mudança, o BofA destaca a deterioração da inflação corrente. O IPCA avançou de 4,37% em meados de abril para 4,68% estimados em maio. O núcleo médio de inflação acelerou para 5,3% na métrica de média móvel de três meses anualizada — ante 4,8% anteriormente —, com os serviços subjacentes chegando a 6,2%.

As expectativas também pioraram. Pelo Boletim Focus de 29 de maio, a mediana para o IPCA de 2026 subiu para 5,09%, alta de 23 pontos-base em relação à leitura anterior. Para 2027 e 2028, as projeções avançaram para 4,02% e 3,66%, respectivamente.

"As expectativas de inflação continuam se afastando da meta, e os núcleos seguem acelerando — o que estreita o espaço para afrouxamento adicional", aponta o banco.

Real mais fraco e estímulos fiscais complicam o quadro

O real se depreciou cerca de 3% desde a última reunião do Copom, pressionando as projeções de inflação pelo canal do câmbio. O BofA simula que, com o dólar estabilizado ao redor de R$ 5,15, a inflação ao fim do horizonte relevante sobe para 3,6%,  acima da meta de 3%.

O banco aponta ainda que os estímulos fiscais e de crédito sustentam a demanda doméstica e retardam o ajuste necessário da atividade. O PIB do primeiro trimestre de 2026 surpreendeu positivamente, com alta de 1,1% ante o trimestre anterior, mas a composição foi considerada "pouco convincente" pelo relatório — com o investimento reagindo por razões mais ligadas a políticas públicas do que a uma reaceleração sustentável.

"A atividade segue sustentada por estímulos contínuos, o que atrasa o ajuste nas condições de demanda", diz o documento.

Riscos adicionais não estão no cenário-base

O BofA alerta que riscos como o El Niño e uma possível mudança na escala de trabalho 6x1 ainda não foram incorporados ao cenário central, mas aumentam a persistência inflacionária e complicam o trade-off de política monetária. "Esses fatores apontam para maior inércia inflacionária à frente", avalia o banco.

Sem alta de juros no horizonte

Apesar do diagnóstico mais restritivo, o Bank of America não projeta elevação da Selic. Com a taxa real ex-ante em 9,5%, as condições monetárias seguem contrativas. O banco avalia que, à medida que os efeitos dos estímulos se dissipem, a desaceleração cíclica da atividade deve ajudar a conter a inflação.

Para sinalizar o encerramento do ciclo, o Copom deve alterar a linguagem do comunicado após a reunião da semana que vem — elevando o patamar necessário para novos cortes. "A remoção do forward guidance em torno da calibração contínua sinalizaria que a barra para cortes adicionais se tornou significativamente mais alta", conclui o relatório. Para 2027, o BofA projeta a Selic em 13,25%.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: