Bolívia enfrenta onda de protestos pedindo resignação de Rodrigo Paz
O presidente boliviano, Rodrigo Paz, enfrenta, em seu sexto mês no poder, uma forte convulsão social, suscitada pela insatisfação do povo, que demanda uma combinação de reivindicações, interesses e reversão de erros que dificultam uma saída para a crise, segundo analistas. A insatisfação se alastra por uma miríade de setores e de problemas sociais, políticos e econômicos, com vastos protestos e um mal-estar social que já perdura há mais de três semanas.
Por sua vez, Paz denunciou os manifestantes, alegando que exigem sua renúncia e buscam minar a democracia boliviana, acusando inclusive o ex-presidente Evo Morales, que esteve no poder por três termos consecutivos de 2006 a 2019, de estar por trás dos protestos, acusação que seu rival político nega.
Acomodando representantes de setores sociais que reivindicam presença política em seu gabinete, o presidente afirmou: "Temos que reorganizar um gabinete que deve ter capacidade de ouvir", acrescentando que não dialogará com "vândalos", mas que "as portas estarão abertas" para "aqueles que respeitam a democracia".
O que gerou os conflitos?
Policiais fazem a segurança durante uma marcha organizada pelo Centro Operário Boliviano (COB), que pede a renúncia do presidente Rodrigo Paz, em La Paz, em 21 de maio de 2026.
A Bolívia vive uma intensa crise econômica — a pior em décadas — e encerrou 2025 com uma taxa de inflação de 20%. No primeiro trimestre desse ano, a cifra caiu, mas segue alta, em 15%. É nesse contexto, com uma insatisfação que só aumenta por uma série de outros fatores, que os protestos estouraram.
Em abril, professores foram às ruas para protestar por salários maiores, que fizessem jus às taxas de inflação e ao custo de vida elevados. Após semanas de protestos e negociações, o Ministério da Educação do país finalmente anunciou um bônus para os professores, que, por sua vez, encerraram seus protestos — todavia, a insatisfação desse setor serviu de estopim para diversos outros, que enfrentavam problemas semelhantes devido a uma miríade de fatores.
Um desses fatores é o combustível. O país esgotou suas reservas de dólares para sustentar uma política antiga de subsídios a combustíveis, em vigor há décadas, inclusive antes dos mandatos de Morales.
Pouco depois de chegar ao poder em novembro, Paz eliminou esses subsídios. Com isso, o preço do combustível dobrou, agravando uma crise já grave em função do conflito no Irã, e os postos começaram a vender produtos contaminados e de baixa qualidade, o que danificou milhares de veículos e indignou a população, especialmente os profissionais que dependem de seus veículos.
Outro gatilho que mobilizou um setor diferente foi o anúncio oficial de uma lei que transformava pequenas propriedades rurais em médias. O governo, por sua vez, defendia que o objetivo da mudança era permitir que donos dessas pequenas propriedades as utilizassem como garantia de crédito, mas tanto fazendeiros quanto indígenas rejeitaram a nova lei por medo de que os imóveis terminassem nas mãos de bancos e, depois, de latifundiários.
Em protesto, a Federação Camponesa Túpac Katari, em conjunto com a Central Operária Boliviana (COB), a maior central sindical do país, bloqueou importantes rodovias em mais de 30 pontos, paralisando efetivamente a nação. Respondendo às manifestações, o presidente revogou totalmente a medida: "Ela não existe mais; essa lei acabou", declarou Paz em um vídeo divulgado pela presidência boliviana.
Por fim, uma reforma constitucional no documento que rege o país desde 2009, anunciada no dia 9 deste mês, visava facilitar o investimento na economia. "Será uma comissão aberta para que todos possam participar, representando seus setores e regiões", anunciou Paz no começo do mês.
A Constituição atual foi aprovada durante a presidência do esquerdista Evo Morales, que, apesar de ter sido forçado a deixar o poder sob alegações de fraude eleitoral em 2019, ainda conta com forte apoio entre a população boliviana e, em particular, entre as populações indígenas, com o próprio Morales pertencendo à etnia nativa da Bolívia.
Sua Carta Magna transformou o país em um Estado plurinacional, que reconhece a existência de múltiplas nações e estabelece novos métodos de gestão dos recursos naturais. Por sua vez, a reforma visa modificar, por exemplo, setores como o de hidrocarbonetos e o de mineração, levando movimentos sociais alinhados a Morales a criticar as reformas econômicas por facilitarem a privatização, assim excluindo o Estado como ator fundamental, o que, segundo muitos, é um sinal de deslegitimação do governo e de rompimento entre a população e as autoridades, apura a BBC.
"Aqui, ninguém quer privatizar, ninguém quer aumentar tarifas, ninguém quer fazer muitas das coisas que algumas pessoas, alguns líderes e alguns interesses políticos estão tentando usar para confundir a população", disse Paz à imprensa na semana passada.
"Há setores que adotaram posições radicais, mas também outros que se mobilizam, frustrados, diante das expectativas que Paz gerou", disse à AFP Daniel Valverde, analista e professor de ciência política.
O que os manifestantes pedem? E Evo Morales tem algo a ver com isso?
Mineiros participam de uma marcha organizada pelo Centro Operário Boliviano (COB), pedindo a renúncia do presidente Rodrigo Paz, em La Paz, em 21 de maio de 2026.
Sem uma liderança centralizada, o movimento de protestos se ampliou em maio, com a participação de professores — novamente —, de operários e de mineiros.
Diante de uma inflação que bate recordes, a influente Central Operária Boliviana (COB) reivindicou aumento salarial no mesmo percentual, e os professores, uma aposentadoria com salário integral.
Com o prolongamento da crise, passou-se a exigir inclusive a renúncia do presidente, que ocupa o cargo há apenas seis meses. Por sua vez, o governo denunciou, na quarta-feira, 20, que grupos de manifestantes buscam alterar a "ordem democrática" ao seguirem suas ambições políticas.
Para a também cientista política Ana Lucía Velasco, "há motivações políticas para aproveitar os erros e desacertos do governo a fim de ganhar capital político para o movimento de oposição e de rearticulação da esquerda", destronada após mais de 13 anos consecutivos no poder.
Por sua vez, o governo de Paz, que pôs fim a 20 anos de governos socialistas, acusa o ex-presidente Evo Morales de estar por trás dos protestos com o objetivo de voltar ao poder. Uma marcha de seus seguidores chegou na segunda-feira a La Paz.
"O governo aposta em polarizar e estigmatizar Evo Morales como o único responsável por tudo o que está acontecendo, mas cometeu erros e desacertos que escalaram a situação", disse Velasco.
Foragido por um caso de suposta exploração de uma menor e refugiado desde 2024 na região cocalera do Chapare, no centro do país, Morales denuncia um suposto plano de Washington para prendê-lo ou até matá-lo com o apoio do governo de Paz.
Sem mencioná-lo, os Estados Unidos, que ganharam outro aliado na América Latina com o novo mandatário, afirmaram que a Bolívia enfrenta uma tentativa de "golpe de Estado" e que não permitirão "criminosos e narcotraficantes" derrubarem um líder democrático.
Gustavo Petro, presidente da Colômbia (Mauro Pimentel/AFP)
A crise reverbera inclusive na Colômbia. Às vésperas de suas próprias eleições, o esquerdista Gustavo Petro, atual presidente, fez comentários apoiando os protestos, os chamando de uma "insurreição popular contra arrogância geopolítica". O colombiano é conhecido por seus ataques à governos de direita, e se ofereceu, inclusive, a mediar o imbróglio entre a população e as autoridades.
Em resposta, a Bolívia expulsou o embaixador colombiano ao país, citando como motivo “Defender os princípios da soberania, da não interferência em assuntos internos e do respeito mútuo entre os Estados.” Por sua vez, Petro criticou duramente a expulsão, afirmando que ela apontava para uma "deriva para o extremismo" na Bolívia. Em entrevista à rádio colombiana Caracol, ele alegou que, a menos que o governo boliviano se engajasse em um "amplo diálogo nacional", o país poderia enfrentar um "massacre da população".
Mesmo assim, a Colômbia fez o mesmo, pouco tempo depois: "Em sinal de reciprocidade, anuncia-se o término das funções do Sr. Ariel Percy Molina Pimentel", embaixador da Bolívia na Colômbia, segundo comunicado do Ministério das Relações Exteriores em Bogotá.
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