Bolsa vira montanha-russa e testa 'sangue-frio' do investidor
O Ibovespa tem atravessado dias de oscilações intensas, com movimentos que mudam de direção ao longo do próprio pregão e deixam pouco espaço para previsibilidade no curto prazo. Na última segunda-feira, 16, por exemplo, o índice subiu 1,2%.
Mas na terça, 17, embora tenha aberto com forte alta de mais de 1%, o que o levou de volta ao patamar dos 182 mil pontos, o principal índice acionário da B3 reduziu os ganhos e fechou com alta de 0,30%, pressionado por ruídos sobre uma possível greve de caminhoneiros.
Na quinta, 19, oscilou entre 176.295 e 181.250 pontos antes de encerrar aos 180.270. Já na sexta, 20, caiu 2,25%. Tudo isso em uma mesma semana e com vetores distintos atuando simultaneamente.
O padrão recente, ou a falta dele, reforça uma mudança brusca em relação ao início do ano. Entre janeiro e fevereiro, o Ibovespa acumulou alta de 17,17%, saltando de 160 mil para 191 mil pontos, impulsionado por fluxo estrangeiro, mais de R$ 42 bilhões, expectativa de queda de juros e uma rotação global para mercados emergentes.
O cenário era de otimismo, com projeções que já miravam os 200 mil pontos e até níveis mais altos.
O fator guerra no Irã
A virada, porém, veio no fim de fevereiro, com o início do conflito no Oriente Médio envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel. Em poucos dias, o índice saiu de uma sequência de 13 máximas históricas para um movimento de correção. Do primeiro pregão de março até o dia 20, o Ibovespa recuou quase 7%, reduzindo a alta acumulada no ano para 9,37%.
A explicação para a mudança passa pela combinação de fatores externos e internos, com a guerra assumindo o papel central. O conflito elevou o preço do petróleo, que opera agora acima de US$ 100, e reacendeu preocupações inflacionárias no mundo todo, afetando diretamente as expectativas para juros e crescimento.
Nesta quarta, pela primeira vez em dois anos, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu em 0,25 ponto percentual a taxa básica de juros, a Selic, que caiu de 15% para 14,75% ao ano. Mas a tão aguardada decisão teve impacto limitado, justamente porque veio acompanhada de um tom mais conservador diante das incertezas externas.
"Como a guerra se tornou o principal driver do mercado, a Bolsa não melhorou com o corte de juros, porque o próprio Banco Central foi cauteloso", afirma Gabriel Mollo, analista da Daycoval.
Segundo ele, o cenário interrompeu a lógica que sustentava o apetite por risco. No exterior, bancos centrais de grandes economias também decidiram por postergar cortes, o que reforça o ambiente de cautela. "Isso fez com que o investidor parasse de tomar risco", diz Mollo.
"O mercado vinha de um rali bem forte desde o fim do ano passado, muito puxado por fluxo gringo. Com a guerra do Irã, muda o jogo", afirma Jayme Simão, do Hub do Investidor, casa independente de análise. "O dólar volta a ser porto seguro, o risco global aumenta e esse fluxo para emergentes perde força".
Entre o risco e a cautela: quem fica na bolsa
Na avaliação dos operadores, esse novo ambiente não apenas aumenta a volatilidade, mas altera o comportamento dos investidores e aprofunda uma característica que já estava presente: a ausência do investidor local.
Mesmo durante o rali, a participação doméstica foi limitada, diante de juros elevados, incertezas fiscais e do calendário eleitoral. Uma hesitação interna que, para os analistas do mercado, mostra uma falta de confiança do investidor local sobre o futuro da economia e um ambiente mais estável de juros e política.
Lucas Cavalcante, da Gus Consultoria, avalia que, com essa instabilidade recente, essa distância tende a aumentar. "Quando o mercado fica mais instável, esse comportamento se acentua. O estrangeiro continua olhando preço e fluxo. O investidor local continua mais sensível ao risco e ao curto prazo", diz Cavalcante.
Além disso, o especialista afirma que a renda fixa segue como uma concorrente forte. "Preço atrativo, por si só, não resolve. A bolsa pode estar descontada e, ainda assim, não atrair o investidor local se a alternativa sem risco continua muito competitiva", afirma.
Os questionários de suitability, de análise do perfil do investidor, seguem sendo a base para definir o perfil de risco, mas têm limitações, sobretudo em momentos de volatilidade. Segundo os analistas, eles nem sempre refletem como o investidor reage na prática a perdas e oscilações, mas eles não podem mudar a cada crise.
Na avaliação dos deles, mais do que a classificação formal, o que realmente define o perfil é o comportamento diante do risco.
Parte dos operadores apontam que, nesse contexto, a volatilidade intensa passa a funcionar como um filtro. "Ambientes mais voláteis não necessariamente reduzem o interesse pelo mercado, mas aumentam o nível de exigência para participar dele de forma consistente", diz Cavalcante.
Na prática, o perfil de quem permanece muda e fica menos espaço para decisões impulsivas e mais para disciplina, diversificação e gestão de risco.
"A volatilidade tende a afastar investidores menos experientes, que não têm preparo emocional para oscilações intensas. Por outro lado, esse ambiente costuma ser fértil para investidores mais experientes”, afirma Antonio Pavesi, economista, especialista em investimentos e MBA em Finanças pela B7 Business School.
Isso não significa, porém, que a Bolsa tenha se tornado um ambiente inacessível. "O ambiente ficou mais complexo, sem dúvida, mas isso não significa que ficou menos atrativo para o investidor de longo prazo", pondera Simão do Hub do Investidor.
Gabriel Mollo também relativiza a leitura de que o mercado tenha mudado estruturalmente. "A bolsa é cíclica, alterna momentos de alta e de baixa, e é sempre assim", diz. Na visão dele, o cenário atual pode, inclusive, abrir oportunidades.
"O investidor precisa olhar fundamentos. Em momentos de queda, quando todo mundo está vendendo, surgem as melhores oportunidades. A Bolsa ainda acumula alta no ano, então não vejo problema — vejo oportunidade. Enquanto a guerra durar, faz sentido comprar aos poucos. Quando o cenário normalizar, o Ibovespa pode voltar a buscar os 200 mil pontos".
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