Booker Prize: taiwanesa desbanca brasileira Ana Paula Maia e leva o prêmio internacional
A escritora taiwanesa Yáng Shuāng-zǐ venceu o International Booker Prize, premiação dedicada a obras de ficção traduzidas e publicadas no Reino Unido e na Irlanda. O anúncio ocorreu nesta terça-feira, 19, durante cerimônia realizada no museu Tate Modern, em Londres.
Autora de “Taiwan Travelogue”, ela ficou à frente da brasileira Ana Paula Maia, indicada com “Assim na terra como embaixo da terra”, lançado em inglês pela editora Charco Press. Shuāng-zǐ dividirá o prêmio de 50 mil libras esterlinas, cerca de R$ 330 mil, com a tradutora Lin King.
"Algumas pessoas acreditam que a arte e a literatura devem se manter afastadas da política, mas eu acredito que a literatura nunca pode ser separada do solo onde cresceu. Neste sentido, a literatura fundamentalmente não pode ser dissociada da política. Ao analisar a história moderna da literatura taiwanesa, é claro que nós, escritores, temos feito a mesma pergunta nos últimos 100 anos: que tipo de futuro e nação o povo de Taiwan deseja?", afirmou Shuāng-zǐ em seu discurso de agradecimento.
Quem é Ana Paula Maia?
Ana Paula Maia, nascida em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, e radicada em Curitiba, disputou o prêmio ao lado de nomes como a alemã de origem iraniana Shida Bazyar, autora de “The nights are quiet in Tehran”, e da búlgara Rene Karabash, de “Aquela que restou”, publicado no Brasil pela Ercolano. Antes dela, os brasileiros Raduan Nassar, Paulo Scott e Itamar Vieira Junior também chegaram à lista da premiação.
Publicado no Brasil pela Record, “Assim na terra como embaixo da terra” venceu o Prêmio São Paulo de Literatura, em 2018. O romance acompanha os últimos presos de uma colônia penal prestes a ser encerrada. No local, o diretor transforma perseguições aos detentos em forma de entretenimento: concede 30 segundos de vantagem antes de sair armado atrás deles.
O crítico Gabino Iglesias, do New York Times, definiu o livro como “inventivo e implacável” e recomendou a leitura para quem “gosta de poesia escrita com sangue”.
Ana Paula Maia, de 48 anos, também atua como roteirista e criou a série “Desalma”, do Globoplay. A escritora consolidou uma trajetória ligada ao chamado terror rural, expressão utilizada por ela para definir parte de sua produção literária. Em 2024, “Enterre seus mortos”, publicado pela Companhia das Letras, ganhou adaptação para o cinema com direção de Marco Dutra e atuação de Selton Mello.
As obras da autora combinam referências de Edgar Allan Poe, Dostoiévski, filmes de faroeste e narrativas de horror. Seus enredos costumam se passar em regiões isoladas, marcadas por ambientes hostis e personagens envolvidos em atividades como trabalho em matadouros, mineração ou recolhimento de animais mortos nas estradas. Figuras recorrentes como Edgar Wilson, Bronco Gil e Padre Tomás reaparecem em diferentes livros. Elementos bíblicos e episódios de violência atravessam essas histórias.
A circulação internacional da obra de Ana Paula Maia se ampliou nos últimos anos. A autora já foi publicada em quase dez países, entre eles França e Lituânia. Após a indicação ao Booker, editoras estrangeiras passaram a demonstrar novo interesse por seus livros. Da Turquia, chegaram propostas de cinco editoras. A presença internacional da escritora ganhou impulso a partir de 2015, quando começou a publicar pela editora argentina Eterna Cadencia.
“Assim na terra como embaixo da terra” recebeu resenha da crítica argentina Beatriz Sarlo, em 2017. “A violência deste romance se exerce sobre todas as coisas e todos os homens. Impressiona pelo detalhe”, afirmou a intelectual. Na Argentina, livros da autora passaram a integrar listas de leitura em escolas. Ana Paula também aproximou sua produção da obra de escritoras como Mariana Enríquez e Samanta Schweblin, conhecidas pela renovação da literatura de horror latino-americana.
Nova obra vai explorar rituais de luto no sul do país
No fim deste ano, Ana Paula Maia lançará “O tenebroso brilho do sol”, pela Companhia das Letras. O livro marcará a estreia da autora no folk horror, subgênero do horror ligado a comunidades isoladas, crenças populares e práticas religiosas.
A trama abordará antigos rituais de luto de imigrantes açorianos no Rio Grande do Sul e seguirá elementos característicos do gênero, como cidades pequenas, cenários diurnos e referências a cerimônias religiosas obscuras.
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