'Boom verde': como gigantes da construção civil crescem com menor impacto ambiental

Por Letícia Ozório 6 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'Boom verde': como gigantes da construção civil crescem com menor impacto ambiental

É difícil caminhar pelas ruas de São Paulo sem notar a quantidade de prédios sendo construídos, tendência desde as regiões periféricas até os grandes centros financeiros. Um movimento parecido acontece em boa parte das capitais brasileiras, apesar da desaceleração do setor no último ano.

No terceiro trimestre de 2025, a construção civil chegava a 1,7% de alta acumulada em relação ao mesmo período do ano anterior, de acordo com dados coletados pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). Em 2024, o setor fechou com um crescimento de 4,3% e um Produto Interno Bruto acima de R$ 359 bilhões, acima das previsões da associação. O bom desempenho, de acordo com economistas, se explica pelo aumento do dinamismo na economia nacional, nas movimentações no mercado de trabalho e, principalmente, pela retomada das obras no programa Minha Casa, Minha Vida.

No Brasil, esse ritmo ainda acompanha um diferencial em relação ao cenário mundial: o menor impacto ambiental. Luiz França, presidente da Associação Brasileira de Incorporadoras (ABRAINC), explica que a construção civil no país corresponde a 5,3% das emissões nacionais, enquanto nos demais países o índice chega a 40%, segundo estudo realizado com a consultoria Deep ESG. “Essa vantagem competitiva é sustentada por fatores estruturais, como uma matriz elétrica majoritariamente renovável e condições climáticas favoráveis que reduzem a necessidade de sistemas de calefação”, explica.

Os principais desafios estão, segundo o presidente, na integração de informações ao longo de toda a cadeia produtiva. Por exemplo, um prédio novo pode ser produzido com o concreto e o cimento com menor taxa de impacto ambiental do mercado, mas não considerar fatores como infraestrutura para energia solar, reuso de água pluvial e outras práticas não apenas benéficas para o meio ambiente, mas também para o bolso do cliente.

“O foco atual é converter essas vantagens estruturais em uma estratégia industrial de baixo carbono que envolva toda a cadeia de suprimentos”, conta.

A EXAME conversou com as construtoras MRV e Tegra para entender como as companhias equilibram o crescimento no setor, a pressão econômica e tributária e o atingimento de metas ESG.

Setor aquecido, emissões em baixa

O aquecimento do setor é percebido nas companhias, mas não vem refletindo na alta de emissões — pelo contrário. A Tegra lançou 36 novos empreendimentos e entregou 50 entre 2021 e 2025, mas conseguiu reduzir em cerca de 20% a sua intensidade de carbono, ou seja, emissões por metro quadrado construído. “Em 2020, a intensidade era de 197,31 kg de CO₂e por m² de área construída. Já em 2024, último dado auditado, a intensidade caiu para 158,06 kg de CO₂e por m², considerando 179.017,47 m² construídos no ano”, afirma a gerente de sustentabilidade da Tegra, Vitória Damasceno.

O diretor de operações do Green Building Council Brasil, organização especializada em certificar a sustentabilidade na construção civil, afirma que o setor pode crescer sem multiplicar o impacto na mesma proporção quando ele troca o volume por desempenho. “Basta projetar melhor, medir melhor e operar melhor os nossos edifícios”, conta.

França, da ABRAINC, aponta que os aspectos sociais também são levados em conta dentro do crescimento do ESG nas construtoras. “Com um déficit de 6 milhões de moradias, a expansão é uma necessidade social que, no Brasil, encontra um ambiente técnico e estrutural propício para ocorrer com baixa intensidade de carbono”, afirma.

A MRV, que viu um crescimento de 12,7% na produção de unidades habitacionais entre 2024 e 2025, conseguiu reduzir a intensidade de emissões por unidade produzida de 5,89 toneladas de CO2 em 2022 para 3,17 toneladas em 2024.

“Estamos finalizando as apurações dos dados de 2025, mas posso adiantar que tivemos uma redução absoluta de 21,78% de toneladas de CO₂e se comparado ao ano anterior”, diz Raphael Lafetá, diretor-executivo de relações institucionais e sustentabilidade da MRV.

Trabalho na cadeia de valor

A grande parcela de emissões no setor de construção civil ainda reside no escopo 3, relacionado às emissões indiretas e fornecedores.

É aí que a MRV ataca: das 112,3 mil toneladas de CO2 equivalente emitidas em 2024, mais de 100 mil estão relacionadas à cadeia de valor. “Esses dados refletem o esforço da companhia em reduzir a pegada de carbono com produtos mais sustentáveis e buscar um maior engajamento dos fornecedores com o tema”, explica Raphael Lafetá, diretor-executivo de relações institucionais e sustentabilidade da MRV.

A companhia ainda conta com um grupo permanente de pesquisa focado no desenvolvimento de matérias-primas alternativas focadas na redução do impacto. “Trabalhamos com a avaliação de alternativas mais sustentáveis para o aço e o concreto, buscando constantemente inovações e produtos que reduzam o impacto ambiental das nossas operações”, explica.

Nelson Sarti, vice-presidente de meio ambiente e sustentabilidade da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, contextualiza que "no Brasil, dados de referência mostram que a emissão média de carbono na construção de edificações gira em torno de 220 kg de CO₂ equivalente por metro quadrado construído, um indicador que sustenta a necessidade de ação estruturada para reduzir emissões incorporadas”, afirma.

Não por acaso, um cenário similar à MRV acontece na Tegra: do total de 28 mil toneladas de CO2 equivalente emitidas em 2024 pela companhia, cerca de 70% são referentes às emissões de insumos como aço, cimento, concreto e argamassa, inseridas no Escopo 3.

“Por isso, a Tegra prioriza materiais de menor intensidade de carbono, como o aço e o concreto, além de fortalecer critérios socioambientais na seleção de fornecedores, exigindo certificações como FSC para madeira e a práticas de logística reversa e reaproveitamento de resíduos”, conta a gerente de sustentabilidade, Vitória Damasceno.

Gestão de resíduos

Cuidar de todo o lixo produzido durante a construção imobiliária — que por vezes levam de 3 a 8 anos para serem entregues — é um dos desafios do setor.

A Tegra atingiu em 2024 o marco de 88% de resíduos reciclados. “Esse resultado é fruto de um trabalho estruturado de controle, segregação e destinação adequada dos materiais, com monitoramento contínuo nos empreendimentos”, conta Damasceno.

A companhia ainda busca aumentar em 15% o uso de materiais de fontes renováveis durante a construção dos empreendimentos com base na economia circular até 2030. O processo, de acordo com a especialista, passa não só pela destinação correta dos resíduos, mas desde a escolha dos insumos e ao repensar os processos construtivos para reduzir impactos desde a origem do projeto.

Parcerias estratégias ajudam a companhia a acelerar o trabalho, conta Damasceno. “Realizamos projetos de logística reversa com companhias parceiras, como ArcelorMittal (reaproveitamento de aço), a System Clean (reciclagem de fios e cabos), a Portobello (retorno de embalagens e materiais cerâmicos) e a RioMix (reaproveitamento de sacarias de cimento)”, explica.

Em 2024, a MRV gerou 342 mil metros cúbicos de resíduos, destinando cerca de 15 mil metros cúbicos para operações de reutilização, doação ou venda dos materiais.

A companhia integra um programa que exige que os canteiros de obras adotem obrigatoriamente ao menos três práticas entre quatro opções para o uso eficiente de recursos, incluindo a redução do uso de materiais e da geração de resíduos sólidos, o reaproveitamento de materiais/resíduos,  a logística reversa e reciclagem e o uso de materiais reciclados.

Foco no cliente — e na economia

Em meio a essa conta, a sustentabilidade também entra como um fator decisivo para o cliente. Ações como reuso de água, infraestrutura para energias limpas e de eficiência de recursos são escolhas da etapa de construção que reduzem o peso no bolso para quem se instala no imóvel.

Enzo Tessitore, da Green Building Council, afirma que a ideia de que a sustentabilidade encarece automaticamente o empreendimento já não se sustenta de forma generalizada.

“O que encarece não é a sustentabilidade em si, mas quando essas decisões são feitas de forma tardia. Quando essas estratégias são incluídas no início, isso permite que as equipes integrem arquitetura, engenharia e orçamento de uma forma mais inteligente”, explica.

Na Tegra, a companhia instalou projetos que economizam 22% no consumo de energia, além de 48% de economia de água nas áreas comuns e 29% nas unidades autônomas, em comparação a um empreendimento convencional. “Esses ganhos são viabilizados por soluções como sistemas de medição individualizada, dispositivos economizadores, iluminação LED, melhor desempenho da envoltória para conforto térmico, aproveitamento de ventilação e iluminação natural e infraestrutura preparada para tecnologias mais eficientes”, explica a gerente.

Diferentes perfis de projetos ainda podem incluir iniciativas como reaproveitamento de águas pluviais, sistemas de irrigação eficiente e preparação para energia solar nas áreas comuns.

A lógica, segundo a gerente da Tegra, é estruturar o edifício para que o morador tenha um custo operacional menor ao longo do tempo, com redução de consumo e maior eficiência no uso de recursos.

A MRV atua por meio de um marketplace para facilitar o acesso dos clientes à energia renovável. “Oferecemos descontos de até 25% na conta de luz para clientes em 13 estados brasileiros, fruto de parcerias estratégicas com empresas de geração distribuída”, conta Lafetá.

Além disso, em 2024, a companhia certificou 23 empreendimentos em critérios de economia de energia, orientação solar e elevadores eficientes. Só em 2024, as iniciativas de reaproveitamento nas obras da construtora permitiram a reutilização de 1.098,73 m³ de água.

Para a companhia, os atributos ambientais ainda ajudam a valorizar o imóvel no momento da compra, uma vez que a conscientização ambiental e a economia no dia a dia reforçam uma imagem positiva e sem aumentos proporcionais na hora da assinatura de aquisição do imóvel.

Redução de custos no longo prazo

Embora o consumidor se atente mais à critérios de sustentabilidade, o que define a assinatura de contratos de compra de imóveis segue critérios como preço, localização e opções de financiamento.

Para Nilson Sarti, da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, é natural que, no curto prazo, algumas práticas sustentáveis acarretem custo adicional — especialmente quando se trata de tecnologias e materiais ainda em fase de adoção inicial. O ciclo de vida é onde os valores são compensados.

“Quando avaliamos o consumo de energia e água, manutenção, saúde e bem-estar dos ocupantes, há ganhos tangíveis: redução de custos operacionais em médio e longo prazo; valorização patrimonial por desempenho ambiental superior e melhor acesso a financiamentos verdes e incentivos públicos”, afirma.

Para as companhias, a adição dos critérios e ESG não gera custos expressivos frente aos ganhos operacionais obtidos ao longo da vida útil do empreendimento, mas representam um diferencial competitivo, como explica Damasceno. “As certificações são um ponto positivo inclusive em linhas de financiamento com condições mais atrativas oferecidas por instituições financeiras parceiras”, explica.

Segundo a gerente, dessa forma, a sustentabilidade passa a integrar a lógica econômica do produto.

Investimentos e metas em sustentabilidade

A MRV trabalha para reduzir as suas emissões de escopo 1 e 2 em 28,8% e de escopo 3 em 27,5% até 2030. Só em 2024, a companhia já conseguiu reduzir em 25% das emissões do escopo 3 na comparação com 2023, enquanto utiliza de créditos de carbono para compensar as emissões próprias e relacionadas ao consumo energético desde 2015.

Na Tegra, a meta é de cortar 15% das emissões indiretas e compensar 110% das emissões residuais. No escopo 1 e 2, o objetivo é reduzir em 50%.

No fim, tudo depende do dinheiro. O quanto e como as companhias investem e priorizam a sustentabilidade impacta diretamente no atingimento das metas implementadas para os três escopos de emissões e na redução do impacto ambiental.

Para Enzo Tessitore, a falta de incentivos econômicos às empresas brasileiras que incorporam a sustentabilidade — em comparação com os instrumentos aplicados na Europa — pode acabar gerando ações mais pontuais e menos em um movimento de setor. Por isso, é menos raro encontrar soluções inovadoras por lá.

“Nos países onde as soluções de menor impacto escalam rápido, você tem uma combinação clara tanto de exigência de desempenho quanto de benefícios fiscais ou critérios de financiamento que vão ali premiar quem reduz o risco. E no Brasil isso ainda é mais pontual”, afirma.

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