Bradesco Seguros adapta portfólio a partir do clima extremo e vê ESG virar resultado

Por Letícia Ozório 29 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Bradesco Seguros adapta portfólio a partir do clima extremo e vê ESG virar resultado

Bradesco Seguros expande portfólio de produtos sustentáveis: trabalho parte da urgência climática, que já exigiu R$ 70 milhões em indenizações por alagamentos e inundações (Rebecca Crepaldi/Exame)

Enquanto eventos climáticos extremos pressionam o setor de seguros a repensar modelos de precificação e cobertura, o Grupo Bradesco Seguros aposta numa resposta que vai além do sinistro: transformar sustentabilidade em produto, processo e estratégia.

Em 2025, a companhia pagou mais de R$ 70 milhões em indenizações por alagamentos e inundações — e já registrou na Susep os primeiros produtos classificados formalmente como sustentáveis, em conformidade com a Resolução CNSP nº 473/2024, que começa a redesenhar as regras do setor.

O registro não é apenas burocrático. Para Ivani Benazzi de Andrade, Superintendente de Sustentabilidade do Grupo, a classificação muda a lógica de construção do produto.

"Sustentabilidade deixa de ser um tema periférico e passa a fazer parte da lógica de desenvolvimento, gestão e monitoramento do produto ao longo de todo o seu ciclo de vida", afirma. Na prática, isso significa envolver áreas técnicas, atuariais, de produtos, riscos, sustentabilidade e governança desde a concepção — não como etapa de validação, mas como critério de projeto.

Para formalizar esse processo, a companhia publicou em 2025 uma Norma Interna de Taxonomia de Negócios Sustentáveis, alinhada à resolução do Conselho Nacional de Seguros Privados, que define critérios estruturados para identificar e classificar iniciativas e produtos sustentáveis em cada um dos negócios do grupo.

Entre os produtos já registrados estão o Microsseguro Residencial, o Seguro Despesas Essenciais e três planos de Previdência com Princípios ESG.

Clima como variável de negócio

A pressão climática não é apenas operacional — ela é estratégica. Valdirene Soares Secato, Diretora de Recursos Humanos, Ouvidoria e Sustentabilidade do Grupo, conta que a companhia estruturou desde 2015 uma Operação Emergencial para Tratamento de Sinistros, acionada automaticamente sempre que eventos climáticos severos ocorrem. "Toda a diretoria se envolve. Buscamos a proteção e a indenização rápida. Estamos no local agindo", diz ela. A operação já foi acionada em dezenas de ocasiões ao longo dos anos, dos eventos extremos de Petrópolis ao Rio Grande do Sul.

Mas a resposta ao clima vai além da gestão de sinistros. O Grupo tem desenvolvido produtos diretamente ligados à transição energética e à adaptação climática. As vendas de seguros para veículos elétricos cresceram 113% em 2025, e a companhia também oferece cobertura para sistemas de energia solar — dois mercados que praticamente inexistiam na carteira segurada há poucos anos.

"Fomos pioneiros no seguro de carro elétrico, já que percebemos que a população se movimenta nessa demanda em busca de economia e sustentabilidade", diz Valdirene. "O comportamento do consumidor vem mudando e o seguro protege isso também."

Ivani reforça que esse movimento exige que o setor evolua na forma de precificar, prevenir e gerenciar riscos.

"O seguro será cada vez mais uma ferramenta essencial de adaptação climática e estabilidade econômica em um cenário de maior imprevisibilidade ambiental", afirma.

Inclusão como parte da agenda

A sustentabilidade no Grupo também tem uma dimensão social clara: ampliar o acesso à proteção financeira para públicos historicamente menos atendidos. O Microsseguro Residencial, com mensalidade de R$ 13,99, encerrou 2025 com cerca de 9 mil apólices vigentes. Já o Seguro Despesas Essenciais contabilizava aproximadamente 9.500 apólices ativas.

Para Valdirene, o desafio da inclusão securitária passa pela cultura. "A cultura do seguro ainda é um desafio. Tem gente que paga um ticket de R$ 30 em algo dispensável e deixa o seguro de vida fora do orçamento, sendo que ele pode proteger uma família inteira", diz ela.

Na previdência, o movimento também é concreto. Os planos Bradesco Princípios ESG encerraram 2025 com patrimônio líquido combinado superior a R$ 398 milhões, refletindo uma demanda crescente por produtos que conciliem retorno financeiro e responsabilidade socioambiental. "Muitos clientes já procuram esse tipo de produto. Temos o comportamento do consumidor se movimentando, especialmente o jovem, que vem preocupado com meio ambiente", observa Valdirene.

Na operação, a agenda de circularidade também avança. Os programas Oficina Sustentável, Auto Reciclagem, Assistência Sustentável Residencial e Sinistro Sustentável Residencial destinaram corretamente mais de 2,7 mil toneladas de resíduos em 2025. "Agimos focados na sustentabilidade quando tiramos uma carcaça, limpamos a oficina certificada e levamos cuidado com o meio ambiente", explica Valdirene. "Cada negócio tem sua agenda."

Governança transversal

O que sustenta tudo isso é uma estrutura de governança que, segundo as executivas, não é protocolar. O tema está presente no conselho de administração, em workshops que reúnem presidentes de todas as empresas do Grupo e em comitês que avaliam cada novo produto sob a ótica da sustentabilidade. "Não fazemos apenas porque existe a resolução. Nosso primeiro relatório integrado foi antes da obrigatoriedade — estamos na quarta versão", diz Valdirene. "A agenda sustentável existe por valores."

Ivani aponta que o principal desafio foi justamente tornar a sustentabilidade transversal de verdade — não concentrada numa área, mas incorporada à tomada de decisão de produto, subscrição, investimentos, operações, tecnologia, jurídico e distribuição. "É uma construção coletiva", afirma. "Mais do que comunicar compromissos, o desafio é criar mecanismos que permitam acompanhar resultados e incorporar sustentabilidade às decisões do dia a dia de forma objetiva e mensurável."

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