Brasil avança na governança climática, mas queimadas batem recorde e desastres custam R$ 38 bi
O Brasil reduziu o desmatamento em 32,4% em 2024, emitiu menos carbono e viu mais estados incorporarem a pauta climática ao planejamento público. Mas o mesmo ano registrou uma disparada histórica de queimadas, R$ 38 bilhões em prejuízos causados por desastres extremos e quase 5 mil ocorrências climáticas em todo o país.
É esse retrato contraditório — de avanço institucional e agravamento dos impactos — que a segunda edição do Anuário Estadual de Mudanças Climáticas apresenta ao analisar as políticas climáticas dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal.
A publicação, produzida pelo Centro Brasil no Clima (CBC) e pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), com apoio do Instituto Itaúsa, reúne dados inéditos sobre governança, financiamento, emissões, uso da terra, energia, transportes, agropecuária e gestão de riscos. É a análise mais abrangente já realizada sobre o tema no nível subnacional.
O dado que mais chama atenção no anuário é a dissociação entre desmatamento e degradação florestal. Enquanto a derrubada de vegetação recuou 32,4% — totalizando 1,24 milhão de hectares —, as queimadas dispararam em todos os biomas. No Pantanal, o crescimento foi de 176%. Na Mata Atlântica, de 492%. No Cerrado, as queimadas aumentaram 92%, e na Amazônia, 68%.
O dado é um alerta: conter o desmatamento não basta se o fogo continua avançando — e os próprios eventos climáticos extremos têm alimentado os incêndios.
"Nós temos um novo desafio, que não é o combate ao desmatamento. Agora nós temos os incêndios. E eles ocorrem e decorrem exatamente da mudança do clima e dos eventos climáticos extremos", afirmou João Paulo Capobianco, secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, durante o lançamento do Anuário.
Emissões caem, mas uso da terra ainda lidera
Em 2024, o Brasil emitiu 2,1 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente em emissões brutas e 1,5 bilhão em emissões líquidas. A queda foi puxada principalmente pela redução do desmatamento — o que ao mesmo tempo confirma o setor de uso da terra como principal emissor do país.
A agropecuária aparece na sequência como o segundo maior setor emissor. O setor de energia vem em terceiro, com destaque para o transporte rodoviário, responsável por mais de 90% das emissões do setor em muitos estados.
Para Capobianco, a solução para esse quadro não passa por confrontar o setor produtivo, mas por integrá-lo. "Não vamos resolver a questão climática onde o setor da agropecuária é preponderante contra o setor. Nós vamos resolver com o setor. Esse que é o desafio que está colocado", disse.
Desastres custaram R$ 38 bilhões
O ano de 2024 foi um dos mais severos em desastres climáticos da última década no Brasil: foram 4.699 ocorrências, incluindo estiagens, chuvas intensas e incêndios florestais. Os prejuízos econômicos superaram R$ 38 bilhões.
O Rio Grande do Sul concentrou as perdas mais expressivas. As enchentes históricas que atingiram o estado no ano anterior deixaram um rastro de destruição estimado em mais de R$ 14 bilhões, além de centenas de milhares de pessoas desalojadas. Segundo o anuário, o custo desses impactos superou em muito os desembolsos estaduais com adaptação e prevenção de riscos.
No campo institucional, o anuário identifica avanços — mas também assimetrias profundas entre os estados. Apenas quatro possuem Planos de Ação Climática integrados, que reúnem estratégias de mitigação e adaptação: Minas Gerais, Paraná, Pernambuco e Piauí. Outros iniciaram a elaboração desses instrumentos, mas uma parcela relevante das unidades federativas ainda não dispõe de planejamento climático completo.
A dimensão da adaptação é ainda mais defasada: apenas quatro estados concluíram planos específicos nessa área. E 19 estados ainda não contam com fundos climáticos estruturados, o que compromete a execução de políticas públicas de longo prazo.
A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, destacou a importância de olhar para cada estado com suas especificidades: "Abrir a lente em cima das necessidades e das possibilidades de cada estado em cada região é muito desafiador, mas ao mesmo tempo é muito necessário e ajuda na formulação, na implementação e na reorientação das políticas", contou a ministra durante evento de lançamento
Orçamento climático ganha tração
Um dos avanços mais concretos identificados no levantamento é a adoção do orçamento climático como ferramenta de gestão pública. Estados como Acre, Espírito Santo e Rio Grande do Norte já institucionalizaram o mecanismo, permitindo identificar e rastrear recursos públicos destinados a ações climáticas. São Paulo deu um passo expressivo ao destinar R$ 28,8 bilhões para ações climáticas na Lei Orçamentária Anual de 2026.
Na transição do transporte urbano, o estado também se destaca: concentra 88% da frota nacional de ônibus elétricos e amplia a participação de combustíveis renováveis em sua matriz de mobilidade. Mas a realidade da maioria dos estados é outra — o transporte rodoviário ainda responde por mais de 90% das emissões do setor em grande parte do país, evidenciando os limites estruturais da descarbonização da mobilidade.
O nó entre metas nacionais e estaduais
O anuário aponta uma das maiores oportunidades de mitigação ligadas ao desenvolvimento rural: o Brasil possui 58 milhões de hectares de pastagens degradadas com potencial de conversão sustentável.
A recuperação dessas áreas pode combinar aumento de produtividade com redução de emissões e restauração ambiental — uma agenda que une o agronegócio às metas climáticas do país.
Com a publicação do Plano Clima, dos planos setoriais e da nova NDC brasileira no ano passado, o anuário aponta para um desafio político e técnico de peso: boa parte das metas estaduais foi definida antes da atualização desses instrumentos nacionais e, portanto, pode estar desalinhada com os novos compromissos do Brasil.
"Será necessário um esforço consistente de alinhamento entre as metas nacionais e as metas estaduais. Esse processo precisará ser ao mesmo tempo técnico e político, para garantir que o Brasil consiga atingir seus objetivos com eficiência e ao menor custo possível", avalia William Wills, diretor técnico do Centro Brasil no Clima e um dos autores do Anuário.
Sobre a centralidade do desmatamento na agenda climática, Marina Silva é direta: "O desmatamento tem que ser coisa do passado, e tudo que nós temos feito nos últimos anos é lutar para que isso aconteça. Isso só será uma realidade quando formos capazes, estruturalmente, de fazer o desmatamento cair", explica a ministra.
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