Brasil envelheceu sem ficar rico e precisará de muitas reformas da previdência, diz Pessoa
O Brasil vive um desafio de envelhecimento da população em meio à pressão fiscal provocada pelo aumento dos gastos com aposentadorias. Para o economista Samuel Pessôa, pesquisador do BTG Pactual e da FGV Ibre, o diagnóstico desse cenário é claro: “O Brasil é um país que envelheceu sem ficar rico.”
Em entrevista ao Macro em Pauta, da EXAME, Pessôa afirmou que o país precisará passar por "muitas" reformas da Previdência nas próximas décadas para lidar com a mudança demográfica e a redução da população economicamente ativa.
Segundo ele, o modelo previdenciário brasileiro foi construído em um período em que o país tinha uma população jovem e poucos idosos, o que permitia sustentar benefícios "mais generosos".
“Ninguém vai ter a Previdência que os nossos pais e avós tiveram”, afirmou.
Hoje, segundo dados do último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 33 milhões de idosos, cerca de 15,6% da população. O número é maior do que os 14,8% de jovens entre 15 e 24 anos.
No período de 2000 a 2023, a proporção de idosos (60 anos ou mais) na população brasileira quase duplicou, subindo de 8,7% para 15,6%.
A projeção do IBGE é que, daqui a 45 anos, os brasileiros com mais de 60 anos deverão corresponder a cerca de 37,8% da população do país, ou 75,3 milhões de pessoas idosas.
Para o economista, o envelhecimento da população exigirá mudanças no comportamento das famílias e também no mercado de trabalho.
Pessoa afirmou que o Brasil possui um dos sistemas previdenciários mais caros do mundo quando o gasto é analisado proporcionalmente ao perfil demográfico da população.
“O Brasil é o país que tem, provavelmente, a Previdência mais generosa do mundo”, afirmou.
Segundo ele, alguns países gastam mais em termos absolutos com aposentadorias, mas possuem populações muito mais envelhecidas do que a brasileira. Quando o cálculo considera a quantidade de idosos, o Brasil aparece entre os países com maior gasto previdenciário.
“Quando eu controlo pela quantidade de idosos, esses países gastam menos. E, quando eu faço essa conta, o Brasil é o país que mais gasta com aposentadoria no mundo”, disse.
Na avaliação do economista, o problema vai além da discussão fiscal e envolve limitações reais da economia para sustentar uma população idosa crescente nas próximas décadas.
“Vamos ter que virar um pouco japonês”
Ao comentar os efeitos do envelhecimento da população, Samuel Pessoa comparou o Brasil ao Japão, país que enfrenta há décadas uma dinâmica de baixa natalidade e aumento da população idosa.
Segundo ele, apesar da percepção de que a sociedade japonesa valoriza mais os idosos, o país possui um sistema previdenciário menos generoso e uma cultura de permanência mais longa no mercado de trabalho.
“É lá que velho trabalha até morrer, quase. As aposentadorias públicas são bem avarentas. É uma sociedade em que se trabalha até muito tarde”, afirmou.
Pessoa disse que o Brasil precisará caminhar parcialmente nessa direção, mesmo que isso contrarie características culturais do país.
“Teremos que virar meio japonês”, afirmou. “É contra a nossa visão de mundo. Nossa cultura. Mas vamos ter que virar um pouco japonês.”
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