Brasil na moda: da euforia à consistência
Nos últimos meses, você deve ter percebido o bombardeamento de notícias na imprensa e posts em redes sociais de que o Brasil está na moda e virou destino turístico, um país cuja população não domina o inglês, mas que mesmo assim se esforça para comunicar-se com milhões de visitantes que nos escolhem para passar suas férias.
Depois de ter ido ao Japão, em 2025, eu que já não via isso como um empecilho, percebi algo curioso: eles também não falam a língua global do turismo, mas olham sérios para sua cara, de um modo encantador que te convence que estão entendendo tudo, interagindo conosco. Nós, brasileiros, fazemos algo semelhante, só que com sorriso, charme natural e acolhimento caloroso — até mesmo físico — que cativam os turistas. E é justamente esse borogodó que também está colocando o Brasil no centro das atenções mundiais.
Os números não mentem. Segundo o Ministério do Turismo, o Brasil alcançou recorde histórico em 2025, fechando o ano com 9,3 milhões de turistas internacionais, um crescimento de 37,1% em relação ao ano anterior e 34,6% acima da meta do Plano Nacional de Turismo. Isso demonstra que o mundo está olhando para nós com outros olhos.
A Travel + Leisure escolheu o Brasil como destino do ano para 2026. O The New York Times incluiu o Instituto Inhotim na lista dos “52 Places to Go in 2026”, destacando a combinação de arte contemporânea a céu aberto e a riqueza da biodiversidade em um paisagismo único. É uma honra ter o Clara Arte, terceira unidade do Clara Resorts que comando, “reforçando o impacto de Inhotim como polo cultural”, como bem definiu o jornal de maior prestígio em âmbito global.
Mas por que o Brasil está na moda? A resposta é multifacetada. Nossa comida vai do PF do boteco ao churrasco e lagosta no pé de areia. As cores transbordam: sol, céu, mar, roupas vibrantes, casas e restaurantes. A diversidade musical — samba, forró, axé, funk — “enlouquece” estrangeiros. Paisagens únicas como Cataratas do Iguaçu, Lençóis Maranhenses e a Floresta Amazônica completam o cenário.
Na moda, enquanto marcas brasileiras tentavam parecer 'gringas', com nomes, slogans e letreiros em inglês em camisetas, o mundo agora copia nossa identidade. As Havaianas foram o produto mais desejado do mundo no terceiro trimestre de 2025, segundo o Lyst Index. A Lapima – cujos óculos são usados por Timothée Chalamet, Julia Roberts e Lady Gaga, produzidos por 25 artesãs em Campinas e vendidos em cerca de 450 lojas fora do Brasil – e a Room, de Simone Nunes, com sandálias inovadoras e megaconfortáveis, feitas em São Paulo, provam que o luxo brasileiro tem alma. Com lojas nos Estados Unidos e países da Europa, outra marca que traduz o Brasil lá fora é a Farm Rio. A marca carioca faz sucesso em cidades como Nova York, Washington e Londres, conquistando celebridades como Justin Bieber e Beyoncé e outros consumidores pelo seu estilo vibrante, com estampas coloridas e tropicais que se destacam em mercados saturados por estilos mais neutros.
Até marcas nascidas fora surfam nessa onda. A Sol de Janeiro, originária dos EUA, se posiciona como “pedacinho do Brasil”, evocando alegria, autoestima e atitude em produtos de beleza com ingredientes tropicais. Jacquemus e Rabanne usam nosso país em campanhas. Tudo isso com amplo uso de redes sociais, que contribuem para conectar elementos da cultura brasileira ao mundo. E, com isso, surgiu o “Brazil Core”, uma estética colorida, alegre, valorizando nosso borogodó. Muitos elementos vêm da moda de favela: chinelos, estampas tropicais, acessórios coloridos.
Na música, Dua Lipa criou setlist exclusivo para shows no Brasil. A cantora espanhola Rosalía, que recentemente lançou o aclamado álbum “Lux”, passou o Réveillon no Rio, assim como o cantor Sam Smith e o ator Paul Wesley. Todos elogiam a mistura de alegria, criatividade e cultura, incluindo a música e mais notadamente, o funk que ganha – cada vez mais – projeção global, uma das trilhas preferidas de usuários do TikTok e Reels ao redor do planeta.
No cinema, o sucesso brasileiro nasce da combinação de histórias com raízes locais e impacto universal. Ainda em 2025, “Ainda Estou Aqui” conquistou o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Drama para Fernanda Montenegro e o Oscar de Melhor Filme Internacional. “O Agente Secreto” também brilhou: dupla premiação em Cannes, no ano passado, para Kleber Mendonça Filho (Direção) e Wagner Moura (Ator), seguida por dois Globos de Ouro em janeiro último: melhor Filme em Língua Não-Inglesa e Ator de Drama (Moura). O intrincado e surpreendente filme do diretor pernambucano ainda concorre a quatro Oscar neste ano, nas categorias de Melhor Ator (Moura, é claro), Seleção de Elenco, Filme Internacional e Filme. Os dois longas-metragens megapremiados são narrativas que emocionam plateias e consolidam o Brasil – cada vez mais – como potência cinematográfica.
Mas aqui vem a reflexão crucial: estar na moda é diferente de crescer consistentemente. Modas passam. O desafio é transformar esse hype em algo duradouro que beneficie turismo, economia criativa e imagem internacional. Como país, temos condições para sustentar esse crescimento de visitantes estrangeiros? A maravilha do turismo bem-feito é o desenvolvimento que gera empregos e economia local. Mas crescer sustentavelmente exige infraestrutura adequada e políticas públicas definidas e benéficas a toda a cadeia produtiva. Afinal, a indústria de serviços, que inclui turismo e hotelaria, é a que mais emprega no mundo.
É fundamental, nas campanhas institucionais, evitar o estereótipo “futebol + carnaval”. Como brasileiros, gostamos de ambos, mas somos muito mais que esse binômio. Temos museus de classe mundial, a exemplo de Inhotim, MASP, MAM, Museu Oscar Niemeyer (MOM) e Museu do Amanhã. E temos, em muitos setores, tecnologia de ponta, além de uma biodiversidade incomparável e, principalmente, criatividade que pulsa em cada esquina.
Todo esse movimento contribui para a consolidação do Brasil como soft power no cenário internacional. Moda, cinema, música, gastronomia e hospitalidade são ferramentas poderosas de influência cultural. Investir em infraestrutura, apoiar artistas e marcas locais, promover narrativas complexas – factuais, não fictícias – e fomentar o turismo são essenciais. Só assim deixaremos os “voos de galinha”, que infelizmente nos caracterizam, e teremos crescimento de longo prazo.
Precisamos, acima de tudo, de políticas públicas sérias no combate à violência e que governos e parlamentares parem de criar leis que punam os empresários do setor. O momento é nosso. Precisamos transformar moda em legado, mostrando que o Brasil não é destino passageiro, mas um país que veio para ficar no mapa global do turismo.
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