Brasil precisa de previsibilidade para avançar em terras raras, diz presidente da Serra Verde

Por Rafael Balago 28 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Brasil precisa de previsibilidade para avançar em terras raras, diz presidente da Serra Verde

O Brasil tem um enorme potencial para avançar na exploração de terras raras, os minerais essenciais para novas tecnologias e transição energética, mas precisa avançar em regulação e ter um ambiente estável para acelerar os investimentos na área, avalia Ricardo Grossi, presidente da SVPM (Serra Verde Pesquisa e Mineração).

A empresa possui a única unidade de produção de terras raras brutas em operação na América Latina, em Minaçu, no estado de Goiás, e foi fundada pela Denham Capital, uma empresa de investimentos em novas energias, dos EUA.

As terras raras são usadas em tecnologias de ponta, como baterias, painéis solares e chips de última geração. Hoje, quase todo o refinamento desses minerais é feito na China, pois o processo exige tecnologias específicas. O Brasil tem a segunda maior reserva global, segundo estimativa do governo americano, e quer avançar na extração e processamento desses materiais.

“O Brasil tem um papel importante a desempenhar na diversificação de um mercado tão concentrado. O país já possui vantagens estruturais, como recursos abundantes, infraestrutura em evolução, tradição mineradora, mão de obra qualificada e condições para uma produção responsável”, diz Grossi, em entrevista à EXAME. Ele também é COO (diretor de operações) do Grupo Serra Verde.

“Destravar esse potencial dependerá de avanços contínuos em áreas-chave, incluindo previsibilidade regulatória, eficiência no licenciamento, acesso a financiamento de longo prazo e desenvolvimento de capacidades intermediárias, especialmente na separação”, afirma.

Veja a seguir mais trechos da entrevista:

Na semana passada, os governos dos Estados Unidos e de Goiás assinaram um memorando de entendimento para aumentar o acesso de empresas americanas a minerais críticos e terras raras no estado. Como o acordo pode acelerar os negócios e os investimentos em terras raras no estado?

A Serra Verde não comentará esse Memorando de Entendimento. Apoiamos qualquer iniciativa que promova a cooperação e viabilize investimentos, contribuindo de forma geral para o desenvolvimento da cadeia de valor.

Do ponto de vista do Brasil, Goiás já está bem posicionado, com uma base robusta de recursos, expertise consolidada em mineração e acesso à energia renovável. A continuidade da cooperação internacional, aliada à previsibilidade regulatória e a um ambiente de investimento estável, pode ajudar a destravar esse potencial e apoiar o desenvolvimento de uma indústria de terras raras globalmente competitiva.

Qual o potencial de investimento que o mercado de terras raras no Brasil pode atrair?

O Brasil tem potencial para atrair investimentos significativos em toda a cadeia de valor, da mineração à manufatura a jusante. O país detém um dos maiores recursos de terras raras do mundo, conta com uma indústria de mineração consolidada, mão de obra qualificada e uma matriz energética predominantemente renovável.

Ao mesmo tempo, destravar esse potencial dependerá de avanços contínuos em áreas-chave, incluindo previsibilidade regulatória, eficiência no licenciamento, acesso a financiamento de longo prazo e desenvolvimento de capacidades intermediárias, especialmente na separação.

Do ponto de vista industrial, a oportunidade vai além da extração de recursos. Com as condições adequadas, o Brasil pode capturar mais valor ao longo da cadeia de suprimentos, apoiando o desenvolvimento das indústrias de processamento e de etapas posteriores, e se posicionando como um fornecedor globalmente competitivo e confiável.

A criação de uma regulamentação federal sobre o tema aceleraria negócios e investimentos?

Como empresa, não cabe a nós desenhar política pública, mas nossa experiência mostra que esforços coordenados entre governos, indústria, instituições técnicas e financiadores ajudam a criar as condições para o desenvolvimento do setor. Nesse contexto, um ambiente estável e competitivo, sustentado por previsibilidade regulatória, licenciamento eficiente e acesso a financiamento de longo prazo, é essencial para acelerar negócios e investimentos.

Como o Brasil pode competir com países asiáticos no setor de terras raras?

A produção e o processamento de terras raras continuam altamente concentrados, com a China respondendo pela maior parte da capacidade de refino. O Brasil tem um papel importante a desempenhar na diversificação de um mercado tão concentrado. O país já possui vantagens estruturais, como recursos abundantes, infraestrutura em evolução, tradição mineradora, mão de obra qualificada e condições para uma produção responsável.

A Serra Verde já contribui para a posição relevante do Brasil em um mercado competitivo. Como a única produtora em larga escala fora da Ásia dos quatro elementos magnéticos críticos de terras raras, com conteúdo relevante de disprósio e térbio — terras raras pesadas essenciais para componentes de alta tecnologia utilizados em indústrias estratégicas —, ocupamos uma posição estrategicamente importante como fonte de fornecimento para cadeias globais de valor.

Ao mesmo tempo, a principal lacuna permanece nas capacidades intermediárias, especialmente na separação. Superar isso exigirá investimento coordenado, acesso à tecnologia e parcerias de longo prazo em toda a cadeia de valor.

Desenvolver uma indústria competitiva de terras raras é um processo industrial de longo prazo. Isso depende de fornecimento confiável de matéria-prima, desenvolvimento de capacidades de processamento e etapas posteriores, mecanismos de precificação baseados em mercado e acesso a capital de longo prazo.

Com as condições adequadas, incluindo previsibilidade regulatória, financiamento e alinhamento entre os diferentes atores, o Brasil pode se tornar um fornecedor globalmente competitivo e confiável, contribuindo para cadeias de suprimento mais diversificadas e resilientes.

Terras raras em Goiás: unidade da Serra Verde em Minaçu (Serra Verde/Divugação )

Como o investimento de US$ 565 milhões, recebido do governo dos EUA, ajudará a expandir as operações no Brasil?

O financiamento recebido da DFC [Corporação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional] apoiará a otimização e a expansão da nossa operação de Pela Ema, em Goiás, reforçando a posição da Serra Verde como fornecedora globalmente competitiva e de longo prazo de elementos de terras raras.

Os recursos serão utilizados para melhorar a eficiência operacional, ampliar a capacidade de produção e elevar a qualidade do produto, além de refinanciar dívidas anteriores em condições mais favoráveis, o que fortalece nossa flexibilidade financeira e resiliência operacional.

O apoio da DFC representa um forte endosso à importância estratégica da Serra Verde na cadeia global de valor de minerais críticos. Ele viabiliza a continuidade da expansão das nossas operações, apoiando a segurança do fornecimento e o crescimento futuro de indústrias críticas a jusante.

Trata-se de um passo natural para uma operação que alcançou a produção comercial e agora está focada em escalar de forma eficiente e sustentável. Isso fortalece as bases do negócio à medida que seguimos crescendo e entregando de forma confiável às cadeias globais de suprimento.

O que levou a empresa a estabelecer sua primeira planta em Goiás?

A decisão está ligada principalmente à qualidade e às características geológicas do depósito de Pela Ema, em Minaçu, um depósito de argila iônica de terras raras. Como esse tipo de depósito é raso e macio, ele permite uma abordagem de mineração e processamento de menor impacto em comparação com depósitos de rocha dura.

Além disso, Goiás oferece tradição mineradora, mão de obra qualificada, infraestrutura, acesso à energia renovável e um ambiente já familiarizado com operações de mineração. Foi a combinação entre geologia, capacidade operacional e contexto local que sustentou a implantação da planta no estado.

A Serra Verde pretende expandir suas operações para outras reservas em Goiás e no Brasil?

Nosso foco estratégico está na otimização contínua do depósito de Pela Ema. Estamos avaliando o potencial de uma expansão Fase 2, que poderá dobrar a produção até o fim da década.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: