Novas descobertas desafiam 'teoria do prazer' no cérebro
A dopamina, neurotransmissor associado ao prazer e à recompensa no cérebro, está sendo reavaliada por cientistas. Um estudo publicado na revista científica Nature indica que sua função vai além da sensação de bem-estar, incluindo processos como atenção, memória, aprendizado e tomada de decisão.
Teoria clássica da dopamina
Durante décadas, a principal explicação para o funcionamento da dopamina foi a hipótese do erro de previsão de recompensa. O modelo ganhou força a partir de experimentos conduzidos pelo neurocientista Wolfram Schultz nos anos 1990.
Nos estudos, primatas passaram a associar estímulos a recompensas. A atividade dopaminérgica, inicialmente ligada ao recebimento inesperado de alimento, passou a ocorrer diante de sinais que antecipavam esse resultado.
Esse mecanismo ajudou a explicar como o cérebro aprende a prever eventos e reforçar comportamentos. Para Nathaniel Daw, professor de neurociência e psicologia da Universidade de Princeton, a teoria conectou a atividade dos neurônios a ações complexas, como tomada de decisão e formação de hábitos.
Descobertas desafiam o modelo
Avanços tecnológicos permitiram observar a atividade dos neurônios dopaminérgicos com maior precisão. Com isso, pesquisadores passaram a identificar respostas que não se encaixam na ideia de recompensa.
Estudos recentes mostram que a dopamina também reage a:
Para Mark Humphries, professor de neurociência de sistemas na Universidade de Nottingham, no Reino Unido, os novos dados indicam que o modelo clássico já não explica todos os comportamentos observados.
Além disso, pesquisas mais recentes sugerem que a dopamina pode estar envolvida na previsão de ações e na repetição de comportamentos, o que amplia sua relação com aprendizado e hábitos.
Novas teorias sobre a dopamina
Diante dessas evidências, cientistas propõem alternativas ao modelo tradicional. Um dos trabalhos que ganharam destaque é o do neurocientista Vijay Mohan Namboodiri.
O especialista sugere que o cérebro pode associar recompensas a eventos passados, em vez de apenas prever resultados futuros. Experimentos com camundongos indicaram padrões de liberação de dopamina diferentes dos previstos pela teoria clássica.
Outra linha de pesquisa, liderada por Erin Calipari, professora de farmacologia da Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, mostrou que a dopamina pode ser liberada em resposta a estímulos estressantes, o que não se encaixa na ideia de prazer ou recompensa.
Para Geoffrey Schoenbaum, professor de neurociência da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, também nos Estados Unidos, esses dados indicam que o modelo dominante pode estar se tornando insuficiente para explicar o funcionamento do cérebro.
Impactos em vício, TDAH e comportamento
A revisão do papel da dopamina pode influenciar a forma como cientistas compreendem transtornos como TDAH, dependência química e esquizofrenia.
Segundo especialistas, muitas abordagens clínicas foram baseadas na relação entre dopamina e recompensa. Caso esse modelo seja considerado incompleto, hipóteses sobre causas e tratamentos dessas condições podem ser revistas.
Pesquisadores também avaliam que a dificuldade em interromper hábitos, como o vício, pode estar ligada a mecanismos mais complexos de aprendizado do que se pensava anteriormente.
Para David Redish, professor de neurociência da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, os dados recentes mostram maior complexidade, mas não invalidam completamente o modelo atual. Já Josh Dudman, pesquisador do Instituto Médico Howard Hughes, também nos Estados Unidos, defende a exploração de novas abordagens.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: