Brasil registra o dobro de horas de risco pelo calor extremo em 70 anos

Por Letícia Ozório 14 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Brasil registra o dobro de horas de risco pelo calor extremo em 70 anos

O Brasil quase duplicou o número de horas anuais em que o calor representa risco severo à saúde humana nas últimas sete décadas.

Dados inéditos de um estudo internacional publicado no periódico Environmental Research Health mostram que o país passou de 227 horas de risco por ano no período entre 1950 e 1979 para 366 horas entre 1995 e 2024 — um aumento de 61%.

Para idosos, a situação é ainda mais grave: globalmente, pessoas acima dos 65 anos já acumulam cerca de 900 horas anuais de restrição severa à atividade física ao ar livre, mais de um mês inteiro de horas diurnas.

O que diferencia este estudo de análises anteriores é a metodologia. A pesquisa, liderada por cientistas da The Nature Conservancy e com participação de universidades como Sydney, Califórnia (Irvine), Arizona State e do laboratório da NASA/Caltech, abandona os índices tradicionais de sensação térmica e adota um modelo de balanço fisiológico de calor — ou seja, calcula quando o corpo humano, em diferentes faixas etárias, não consegue mais regular sua própria temperatura.

Calor que ameaça a saúde humana

O modelo considera não apenas a temperatura ambiente, mas umidade, radiação solar e o esforço físico envolvido em atividades cotidianas — subir escadas, fazer tarefas domésticas, caminhar em área sombreada.

"A mudança climática não está apenas tornando o calor mais intenso — ela está reduzindo o tempo em que as pessoas podem conduzir suas vidas com segurança", afirmou Luke Parsons, climatologista da The Nature Conservancy e autor principal do estudo.

América Latina: ritmo de aumento, mas longe dos extremos

Na comparação regional, o Brasil ocupa posição intermediária entre os países latino-americanos analisados. Com 366 horas anuais de risco severo no período mais recente, o país fica atrás de Belize (1.177 horas), Cuba (1.037), Paraguai (854) e Guiana (774), mas à frente de nações como México (349), Honduras (317) e Argentina (148).

O que chama atenção no caso brasileiro não é a posição absoluta no ranking, mas a velocidade do crescimento. Em 1950-1979, o Brasil registrava 227 horas de risco — um patamar que, no período 1995-2024, saltou para 366 horas. O aumento proporcional coloca o país em linha com vizinhos como Venezuela (de 429 para 699 horas, alta de 63%) e Colômbia (de 330 para 561 horas, alta de 70%).

Chile e Dominica são os únicos casos notáveis na outra ponta: o Chile permanece com zero horas de risco nos dois períodos, enquanto Dominica registra crescimento mínimo — de 1 para 9 horas.

Idosos: mais de 900 horas anuais de risco global

O estudo é particularmente enfático quanto ao impacto desproporcional sobre pessoas idosas. Globalmente, adultos acima dos 65 anos passaram de 600 horas anuais de restrição severa em 1950 para cerca de 900 horas atualmente — um acréscimo de 300 horas em pouco mais de sete décadas. Para adultos jovens, o crescimento foi de 25 para 50 horas no mesmo período.

Em regiões tropicais e subtropicais — onde o Brasil está inserido —, o calor já restringe a atividade externa de idosos entre um quarto e um terço do ano. O envelhecimento da população brasileira, combinado ao aquecimento contínuo, torna esse dado especialmente relevante para políticas de saúde pública.

O estudo alerta que a capacidade humana de adaptação tem limites. Medidas como estações de resfriamento municipais, campanhas de educação sobre ondas de calor e flexibilização de horários de trabalho podem mitigar riscos, mas não eliminam a necessidade de cortar emissões na fonte.

"Nossos achados implicam que estamos diante de mudanças de estilo de vida em escala planetária, mas estratégias para prevenir danos começam no nível individual e comunitário", disse Gisel Guzman Echavarria, da Arizona State University e co-autora da pesquisa.

35% da população já em zona de risco severo

Em escala global, o estudo estima que cerca de 35% da população mundial vive em áreas onde o calor já limita severamente a atividade segura ao ar livre durante as partes mais quentes do ano — mesmo para adultos jovens e em condições de sombra. O levantamento cobre mais de 70 anos de dados climáticos (1950-2024) e aponta que as temperaturas globais já subiram aproximadamente 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais.

Os pesquisadores observam que, embora o calor extremo seja frequentemente associado a países mais pobres, algumas das restrições mais severas já afetam nações relativamente ricas — em especial no Sul e Sudoeste Asiático, incluindo os países do Golfo. A diferença, segundo o estudo, não está na intensidade do calor, mas no acesso a mecanismos de proteção: ar-condicionado, infraestrutura e regulamentações trabalhistas.

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