Brasil tem eletrificação abaixo da média, diz VP global da Schneider Electric

Por Rafael Balago 5 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Brasil tem eletrificação abaixo da média, diz VP global da Schneider Electric

O Brasil poderia aproveitar melhor a energia elétrica que possui, pois seu potencial de eletrificação está abaixo da média global. A avaliação é de Frédéric Godemel, vice-presidente executivo da Schneider Electric, multinacional francesa da área de tecnologia de energia.

"O Brasil tem uma taxa de eletrificação de 18%. Isso significa que, hoje, a eletricidade, como fonte primária de energia, responde por apenas 18% do consumo. Se considerarmos os países com melhor desempenho, essa taxa é de 30%. E a média mundial é de 22%", diz, em entrevista à EXAME, em São Paulo.

"Há muito espaço para eletrificar muito mais setores. Se você pensar em alimentos e bebidas, indústria farmacêutica, montagem de automóveis, linhas de pintura, tudo isso pode ser eletrificado", afirma.

Godemel atua em cargos de gestão na Schneider desde 2006 e já ocupou cargos na China e nos Emirados Árabes. Na conversa, Godemel também falou sobre o avanço da IA no setor de energia, a competição entre China e Europa e como a tecnologia pode ajudar o Brasil a gerenciar melhor as novas fontes de energia, como elétrica e solar.

Como vê o avanço da eletrificação no Brasil?

O Brasil tem uma taxa de eletrificação de 18%. Isso significa que, hoje, a eletricidade, como fonte primária de energia, responde por apenas 18% do consumo. Se considerarmos os países com melhor desempenho, essa taxa é de 30%. E a média mundial é de 22%.

Então, a primeira mensagem que vejo no Brasil é que há muito espaço para eletrificar muito mais setores. Processos industriais, não estou falando de indústria pesada. Estou falando de indústria leve. Se você pensar em alimentos e bebidas, indústria farmacêutica, montagem de automóveis, linhas de pintura, tudo isso pode ser eletrificado. O retorno do investimento é inferior a 10 anos em todos os casos. Esses dados são anteriores à crise do Oriente Médio, que provavelmente acelerará o retorno do investimento. Sempre que há uma crise, o preço dos combustíveis fósseis fica instável, enquanto, com a eletricidade, você estabiliza o retorno do investimento.

Acho que há um caminho fácil para ir de 18% para provavelmente 25%, e como eu disse, alguns países, e um país muito grande como a China, por exemplo, já está com 30% de eletrificação. Então, isso mostra um enorme caminho a percorrer em termos de maior uso de eletricidade.

O Brasil enfrenta dificuldades para integrar a energia solar e a eólica às redes elétricas tradicionais. Como a tecnologia pode ajudar nisso?

Quando você usa mais energia renovável, especialmente a solar, que é mais instável, precisa acelerar a capacidade digital do lado da demanda e da rede elétrica para gerenciar essas flutuações. Temos muitos países que fazem isso em grande escala. Alguns países já têm mais de 50% de geração de energia solar renovável. A rede está funcionando. Simplesmente requer dados para poder gerenciar sua flexibilidade e complementar a geração de energia. No Brasil, por causa da energia hidrelétrica, vocês têm essa fonte estável de energia renovável. Alguns outros países escolheram fontes diferentes.

Há o desafio de incentivar o uso de veículos elétricos, como carros e ônibus. Como vê essa transição no Brasil?

O Brasil, como muitos países, está no início dessa jornada. É uma jornada, então você não troca seu sistema de distribuição de combustível por um sistema de distribuição elétrica em dois anos. Não dá para fazer isso. Provavelmente levará de 10 a 20 anos. Vejo que o Brasil está no início dessa jornada, mas começo a ver que a infraestrutura está se desenvolvendo.

Começo a ver empresas vindo de vários cantos do planeta investindo aqui para promover veículos elétricos, e vocês têm eletricidade em abundância. Vocês têm isso. Então, quando se tem eletricidade em abundância, é um caminho fácil. Um carro elétrico é 50% mais eficiente que um carro a combustão. Não há mais debate.

Quais foram os destaques apresentados pela empresa na feira Hannover Messe?

Demonstramos a nova tecnologia da Schneider Electric em automação de processos, especialmente uma tecnologia que tem recebido muita atenção das empresas digitais. É, basicamente, uma tecnologia de virtualização para controlar processos industriais. Essa foi a primeira família de tecnologias.

A segunda família, que é um domínio que estou supervisionando na Schneider Electric, é o novo mundo da energia, onde apresentamos novos disjuntores para controlar o que chamamos de arquitetura híbrida, uma mistura de tecnologias de corrente alternada e de corrente contínua. Temos o conjunto de demonstrações de arquitetura de distribuição elétrica, preparado para o futuro com mais corrente contínua, porque quanto mais energia renovável, mais corrente contínua.

Há também muitas tecnologias voltadas à gestão de energia do lado da demanda. Novas tecnologias para a gestão predial e para o controle de crises. Apresentamos um conjunto de melhorias em nossa oferta de software. Tudo é baseado em novas capacidades de IA, porque a próxima revolução é que grande parte do nosso software pode ser usada por agentes [de IA], pelo menos em parte.

Teria um exemplo mais prático desta mudança?

Quando há uma tempestade, você pode auxiliar os operadores com agentes [de IA] e tudo acontece muito mais rápido. Só para dar um exemplo, aqui no Brasil, essas tecnologias de redes digitais estão presentes em 60% das distribuidoras de energia.

Somos líderes nessa tecnologia, e o que demonstramos é mais uma forma de a inteligência artificial ajudar as operadoras, com dados de energia bem estruturados, a gerenciar crises. E a crise pode ser uma tempestade, uma escassez, qualquer coisa que aconteça. Nesses períodos, as operadoras estão, na maioria das vezes, sob pressão.

No Brasil, podemos citar como clientes a CPFL, a Equatorial, a Energisa, a Cemig; todas essas concessionárias são clientes da Schneider e estão usando um sistema chamado AGMS. E com este sistema, podemos cobrir 60% da população aqui no Brasil.

A IA já pode ajudar a prever crises no setor elétrico?

Com a capacidade digital que temos, podemos obter informações digitais de qualquer produto elétrico, como um sistema de climatização, uma distribuição elétrica, um carregador de veículos elétricos, baterias ou uma rede completa. Com esses dados, você pode fazer três coisas.

Primeiro, você pode gerenciar sua energia, que é a eletricidade, e todos sabemos que a energia do futuro deverá ser mais elétrica, em áreas como data centers, robótica. Não há inovação com a tecnologia de combustíveis fósseis.

A segunda coisa que você pode fazer é prever. Isso significa criar padrões e, com esses padrões, prever o que vai acontecer. Assim, você registra a história. Considere um prédio como este em que estamos. Você observa a ocupação e pode prever o que acontecerá na próxima semana. Essa é a próxima geração de inteligência energética.

Se você quer que a IA seja implementada em larga escala, você precisa ter esses padrões de dados. Mas antes que a IA entre em ação, é preciso validar a parte física. Se você desligar o servidor, perde todos os seus dados. O que a IA pode fazer é impressionante, mas ela precisa ser guiada pelo conhecimento físico que empresas como a Schneider Electric têm.

Que outros avanços estão sendo realizados?

Começamos há 100 anos com algumas soluções que hoje são super comuns. Por volta de 1969, lançamos o primeiro CLP (Controlador Lógico Programável) do mundo. Na época, foi uma inovação que trouxe para toda a indústria um nível de eficiência nunca antes visto. Mas já se passaram 50 ou 60 anos desde então e, à medida que todas as tecnologias evoluem, percebemos que a maneira como programávamos era baseada no hardware. Toda vez que você precisa trocar o hardware, precisa começar do zero.

Então, surge o conceito de automação definida por software, que está se acelerando globalmente e também no Brasil, redefinindo a maneira como programamos e automatizamos, deixando para trás todo o hardware específico para executar operações. Essa é uma disrupção que está acontecendo agora na automação, mas também se expandindo para o domínio da energia. A nova forma de construir um sistema definido por software é extremamente fácil de modernizar e atualizar, pois você desacopla o software do hardware.

Então, por exemplo, se em algum momento você quiser modificar algo por motivos de segurança cibernética, poderá fazer isso remotamente, o que é impossível em um sistema antigo. Aliás, a grande questão do futuro será atualizar todos esses sistemas para torná-los ciberseguros. E isso só é possível com instalações definidas por software, já que o hardware exige um esforço enorme para ser alterado.

Como a crise no Oriente Médio pode acelerar a transição energética?

Qualquer crise do petróleo acelera a competitividade da eletricidade em relação ao petróleo. Eu moro na Europa. Tivemos a crise na Ucrânia; agora temos a crise no Oriente Médio. Duas crises em cinco anos. Cada vez que temos uma dessas crises, os preços dos combustíveis fósseis disparam. E isso leva muitos consumidores a migrar para a eletricidade, porque o retorno é muito bom.

No entanto, a infraestrutura de recarga leva tempo. Considerando o tamanho do Brasil, levará tempo para termos estações de carregamento em todos os lugares. É uma combinação de políticas governamentais e de investidores privados que investem na criação dessas infraestruturas de carregamento. Na Europa e nos EUA, já existem empresas lucrativas no carregamento de veículos elétricos. Então, vai levar tempo.

Todo mundo se esqueceu de que fazer isso com a gasolina levou 40 anos. Então, espero que seja mais rápido com as soluções elétricas, porque são muito mais fáceis. Instalar painéis solares no telhado e um carregador para veículos elétricos pode ser feito em seis meses. Extrair gasolina, refinar, transportar e assim por diante leva muito mais tempo.

Há, também, muita discussão sobre resiliência. Significa construir um sistema resiliente. Se você optar pela eletricidade, por definição, seu sistema é mais resiliente do que um sistema centralizado, com um campo de petróleo e uma refinaria.

Como vê a competição entre empresas europeias e chinesas em novas tecnologias de energia?

Todas as tecnologias relacionadas a semicondutores, eletrônica de potência e baterias agora vêm da China. É onde as tecnologias avançam mais rapidamente hoje em dia. Se analisarmos as tecnologias de gestão de energia, elas vêm principalmente de empresas europeias. A Europa precisa inovar e acelerar a inovação. Mas ainda há um longo caminho a percorrer em termos de especialistas em gestão ou na parte digital da conectividade.

Acreditamos que a forma como as tecnologias digitais gerenciam, por exemplo, a IA será limitada pela China devido ao seu ecossistema. Não estou dizendo que não mudará, mas, no momento, ainda não há uma presença muito forte nesses domínios. Estávamos falando sobre redes digitais hoje, e não temos concorrentes fora da China nesse setor, em grande parte devido à tecnologia digital.

Temos uma equipe de P&D muito forte na China. Não somos uma empresa centrada na Europa. Temos alguns escritórios no Brasil, e tentamos ser o mais local possível para nos adaptarmos às necessidades específicas de cada país. Os sistemas energéticos variam de país para país, e é preciso uma equipe para entender o sistema energético de cada um.

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