Brasileiros que investiram na SpaceX, de Elon Musk, tiveram lucro de quase 300%

Por Clara Assunção 25 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Brasileiros que investiram na SpaceX, de Elon Musk, tiveram lucro de quase 300%

Quando a SpaceX ainda valia cerca de US$ 186 bilhões no mercado privado, um grupo de 27 investidores brasileiros decidiu comprar uma participação na companhia. Menos de dois anos depois, exatos 22 meses, com o valuation próximo de US$ 800 bilhões, a posição foi vendida integralmente a um grande fundo americano, cujo nome não pode ser revelado por cláusulas de confidencialidade, por mais de US$ 14,3 milhões.

O retorno foi 3,48 vezes maior que o capital investido, com taxa interna de retorno (IRR) superior a 76% ao ano, em dólar.

A operação foi estruturada pela Staged Ventures, gestora fundada por Geraldo Neto e Flavio Pripas, com Camila Farani, empresária, investidora e ex-jurada do programa Shark Tank Brasil, como sócia. O aporte inicial somou cerca de US$ 4,7 milhões, captados junto a family offices, executivos de grandes companhias e empresários brasileiros.

"A expectativa inicial era capturar entre 2,8x e 4x entre 36 a 48 meses. Mas o retorno veio acima do plano e praticamente em metade do tempo", afirmou, à EXAME, Neto, o fundador da Staged Ventures e investidor anjo desde 2002 no Brasil.

O caso, porém, vai além do ganho financeiro. Ele revela como investidores brasileiros estão acessando empresas globais ainda no ambiente privado, por meio do mercado secundário americano e, sobretudo, como estão estruturando saídas antes de um eventual IPO bilionário.

Como foi possível investir sem entrar na empresa

A Staged não participou de rodada primária nem negociou diretamente com a companhia. O acesso ocorreu comprando participações de investidores que já estavam posicionados em fundos globais com exposição à SpaceX, como a Google Ventures.

Esses grandes fundos têm centenas de LPs (limited partners) que entram com o capital, investidores privados e family offices, sendo que parte deles busca liquidez. A Staged, segundo Neto, estruturou um veículo para adquirir essas posições no mercado secundário, tornando-se sócia indireta da SpaceX.

A entrada ocorreu durante uma tender offer, operação em que a empresa organiza uma oferta estruturada para que investidores vendam suas ações a um preço previamente definido, realizadas periodicamente pela companhia.

Nessas janelas, funcionários e investidores podem vender parte de suas ações, o que ajuda a validar o preço da empresa com compradores reais. O desconto negociado foi inferior a 10% sobre o valuation vigente, considerado competitivo, na avaliação da gestoras, para esse tipo de ativo.

Segundo o fundador da Staged, a entrada "não foi baseada em narrativa tecnológica ou hype, mas em fundamentos". "Há uma consolidação da companhia como infraestrutura estratégica global, a Starlink cresce de forma acelerada e a empresa tem uma permanência prolongada no mercado privado", disse Neto.

"Eles estão fazendo algo muito maior do que só ter os satélites de conexão de dados,  têm infraestrutura espacial. Estão construindo um mecanismo de ida e vinda com foguetes a um custo que nem a NASA consegue fazer, inclusive a NASA é cliente da SpaceX", afirmou.

Por que vender antes da abertura de capital

Apesar da visão a longo prazo positiva sobre a empresa, a gestora decidiu vender a posição mesmo em meio à projeção de bancos de que a companhia de Elon Musk possa alcançar valuation superior a US$ 1,5 trilhão em uma eventual abertura de capital.

A SpaceX está no radar do mercado neste início de ano especialmente por conta dos relatos de que a companhia estaria avaliando, no médio prazo, uma possível abertura de capital de partes do negócio — movimento que ganha tração em meio às discussões sobre liquidez para investidores e funcionários.

Em paralelo, no início do mês, Musk também anunciou a fusão da SpaceX com a xAI, sua empresa de inteligência artificial.

Neto garante, contudo, que a decisão da Staged Ventures de vender sua participação na SpaceX antes de um eventual IPO foi baseada em uma lógica puramente pragmática e financeira, focada em garantir o retorno dos investidores e evitar as incertezas do mercado público.

"O maior ganho nesse tipo de investimento acontece antes do IPO. Se a abertura de capital sair, ainda entra em uma série de 'e se'. No mercado de ativos ilíquidos, quando aparece uma proposta firme e ela supera a nossa meta de retorno, a decisão é vender", disse o gestor.

"A lógica é puramente financeira, de custo de oportunidade. Ficar até o IPO não fazia sentido para nós. Estamos falando de um retorno de 3,5 vezes em menos de dois anos. Não tem paixão envolvida, é racionalidade. Se eu posso devolver esse capital ao investidor e alocar em outra oportunidade que pode gerar três ou quatro vezes de novo em dois anos, isso é simplesmente uma decisão econômica", acrescentou.

O que vem agora

O capital não será integralmente distribuído. Parte relevante será reciclada em novas operações no mercado secundário americano, mantendo a mesma estratégia: comprar participações em empresas privadas maduras, com potencial de IPO nos próximos dois ou três anos, e buscar liquidez antes da abertura de capital.

A gestora já negocia três novas oportunidades nos Estados Unidos. Além disso, voltou a ter exposição indireta à SpaceX por meio de investimento anterior na xAI, posteriormente incorporada à própria empresa.

Para o fundador da Staged, o setor aeroespacial não deve ser visto apenas como lançamentos de foguetes ou satélites. "Trata-se da construção de uma infraestrutura econômica no espaço, capaz de gerar valor por meio de conectividade global, inteligência artificial e novas aplicações estratégicas", afirmou.

O caso da SpaceX, completa o gestor, é menos sobre foguetes e mais sobre acesso. Em um cenário em que boa parte da valorização das grandes empresas ocorre antes da bolsa, o mercado secundário passa a funcionar como uma quarta via para o investidor brasileiro — entre a bolsa local, os fundos internacionais tradicionais e o venture capital inicial.

"Mais do que um retorno elevado, a operação sinaliza uma mudança estrutural: a geografia do capital deixou de ser local. O diferencial competitivo deixa de ser apenas escolher boas empresas e passa a ser acesso, estruturação, governança e, sobretudo, timing", disse.

E, nesse jogo, tão importante quanto entrar é saber a hora de sair.

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